three

18.1K 2.4K 657
                                        

Às três da tarde, a biblioteca parecia mais silenciosa do que o normal, como se até os livros estivessem esperando alguma coisa acontecer. Taehyung se mantinha no balcão, fingindo revisar planilhas do sistema, mas os olhos traíam sua concentração, desviando para a porta a cada dois minutos. Jeongguk ainda não tinha aparecido, e o atraso, mesmo pequeno, já começava a corroer sua calma. A ausência dele era um vazio inquieto no meio daquele espaço onde tudo sempre parecia em ordem — menos seu coração.

Com os minutos passando devagar demais, Taehyung começou a roer a unha do polegar, um hábito antigo que ressurgia sempre que algo escapava do seu controle. Tentava se convencer de que Jeongguk só estava ocupado, talvez preso em alguma aula ou distraído em outro canto do colégio. Mas uma parte sua, a mais insegura, a mais cruel sussurrava que talvez ele não fosse aparecer. Talvez tivesse perdido o interesse na biblioteca. Ou talvez nunca tivesse se importado de verdade com aquele lugar... ou com ele.

O sino da porta tocou, interrompendo o fluxo de pensamentos com um sobressalto discreto. Taehyung virou-se rápido demais, quase como se o próprio corpo soubesse que era ele. E era. Jeongguk atravessava a entrada com a mesma leveza de sempre, passos silenciosos e firmes, como se o chão o conhecesse e o acolhesse. Usava um moletom azul-bebê com as mangas caídas sobre as mãos, os fios de cabelo bagunçados de um jeito que parecia cuidadosamente acidental, e os fones pendurados no pescoço balançavam de leve enquanto ele caminhava em direção à sua poltrona favorita, ao lado da janela.

A luz do sol filtrava-se pelas persianas e caía diretamente sobre ele, dourando seus cabelos escuros e iluminando as curvas suaves de seu rosto. Taehyung o observava como quem contempla uma obra de arte viva: Jeongguk, encolhido na poltrona, com um exemplar de Pride & Prejudice nas mãos e um copo de café apoiado nos joelhos, parecia pertencer a outro tempo. Havia algo de sereno em sua presença, algo que preenchia o espaço sem fazer alarde, e era justamente isso que o tornava impossível de ignorar.

Durante os trinta minutos seguintes, Taehyung fingiu trabalhar enquanto seus olhos o acompanhavam, traçando cada gesto, cada mudança de expressão. Jeongguk lia com uma atenção rara, como se mergulhasse fundo nas páginas, alheio ao mundo ao redor. Taehyung sentia-se cada vez mais convencido de que havia algo divino naquele garoto, não como uma idealização boba, mas como uma sensação sincera de que o universo, às vezes, caprichava em alguns detalhes.

Quando Jeongguk levantou os olhos do livro e sorriu em direção ao balcão, Taehyung retribuiu de imediato, o coração batendo rápido demais. O sorriso cresceu no rosto antes mesmo que ele pudesse controlá-lo, como se aquele aceno fosse um raio de sol direto para o peito. Mas o encanto durou pouco. Bastaram dois segundos para perceber que o gesto não era para ele.

Um garoto baixo, usando touca preta e com tatuagens visíveis nos braços, surgiu entre as estantes e caminhou até Jeongguk com familiaridade demais. Sem dizer nada, o abraçou com firmeza, sentando-se ao seu lado como quem já tinha lugar cativo naquele espaço. Jeongguk fechou o livro sem cerimônia e passou a ouvir o que o outro dizia com atenção exclusiva, como se tudo ao redor tivesse deixado de existir.

Taehyung, então, abaixou a cabeça, o coração afundando no peito com uma lentidão dolorosa. Aquilo não deveria doer afinal, ele sequer conhecia Jeongguk de verdade — mas doía mesmo assim. A realidade o atingia de forma silenciosa e cruel: talvez alguém como Jeongguk jamais se interessasse por alguém como ele.

De volta ao balcão, digitou qualquer coisa sem olhar para a tela. Sentia-se pequeno, ridículo, infantil por ter criado expectativas a partir de olhares e acenos. Como se um sorriso compartilhado fosse o bastante para construir um começo. Bufou, mais pra si mesmo do que pra aliviar alguma coisa, e mergulhou no trabalho como forma de calar os pensamentos. Mas nem mesmo os ruídos das teclas conseguiam abafar o barulho do seu desapontamento.


Obrigada por lerem.
Espero que estejam gostando.
Me sigam no X/Twitter: @quantvmbaby.


PRIDE AND PREJUDICE | VKOOKOnde histórias criam vida. Descubra agora