Capítulo II - Episódio 8

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Severo passou horas com o médico de Gabras, sentindo a áspera toalha limpando o local de suas queimaduras. Entretanto, o que doía não era o corpo, era algo que poderia chamar de espírito... ou alma, como os clarividentes imperiais falavam.

Depois de ver fogos caindo do céu e Auróptis queimando, sangue-do-mesmo-sangue, Severo pôde entender uma coisa: o imperador estava ficando louco!

A linha de raciocínio de Severo era direta e simples. Primeiro, o imperador declara livre o assassinato de Terras-Ruins e eles são obrigados e ver sangue-do-mesmo-sangue sendo assassinados. Depois, eles mesmos penduram quase mil Auróptis em postes e fizeram todos verem seus iguais serem assassinados pelo próprio Mão Direita do Imperador.

A lição havia sido dada. Depois do que Severo passou, poderia ganhar essa guerra e executar todos os Terras-Ruins do mundo. Contudo, a marca jamais deixaria seu peito. Ele lembraria daquilo para sempre.

A lição, na verdade, havia sido mais amarga. Seria justo se os Terras-Ruins tivessem assassinado os Auróptis no centro da cidade. Mas o que eles fizeram, foi uma obra prima.

Não só Severo, mas todos que sobreviveram a Aderol lembrariam daquele dia.

No outro lado da sala, enquanto o médico limpava suas feridas como se arrancasse suas peles, Anthony esperava, em silêncio. Seus olhos azuis mergulhavam em profunda preocupação.

Que dor ele sentiria perto da aflição de Severo.

— Desembucha — falou, quando o médico se retirou da tenda, após deixar as ataduras ajustadas.

— O que aconteceu lá foi uma mostra...

— Foi uma chacina.

Severo continuou a observar Anthony com seu olhar de pedra. Queria arrancar qualquer sentimento daquele peito.

— Entendo, Severo. Eles nos enganaram.

— Sabe, Anthony. Eu estive pensando muito nisso desde que tudo aconteceu. Esse nosso jeito de resolver as coisas. Quem são os animais aqui? Nós ou eles?

— Como assim? Acredito eu que nenhum de nós sejamos animais.

— Mas não é o que nosso imperador e "amado líder" prega. Tratamos eles como animais, mas na hora de resolver os problemas, sempre atuamos com morte e destruição. Já eles... são espertos. E demais para o meu gosto.

— Sim. Em três conflitos, tomamos três revés.

— E o que vocês estão planejando? Você e o mão direita? Não deveriam ter pensado em algo na primeira vez que algo havia dado errado?

— Confesso que tentei... — respondeu Anthony e Severo pode perceber a vergonha na face do companheiro. — Eu havia sugerido entrar... me desculpe. Não deveria tocar nesse assunto. Agora que está melhor, precisamos conversar. Bartholomeu quer uma reunião com todos os líderes, que no caso somos eu e você.

E sem falar mais nada, Anthony desapareceu pela porta da tenda.

Severo continuou remoendo tudo que sentia. Pensou que falar com Anthony faria as coisas ficarem mais tranquilas em seu peito, entretanto, o tempo passou e não teve mais oportunidades de abordá-lo para falar sobre o assunto. A próxima oportunidade que teve de vê-lo, foi quando Bartholomeu convocou uma reunião geral entre os três.

— Qual a estratégia? — perguntou Severo quando entrou na tenda, sem cumprimentar nenhum dos dois. — Suponho que vocês tentarão algo diferente dessa vez.

Anthony olhava sério, preocupado, mas Bartholomeu sorria afirmando com a cabeça. Esperou mais um pouco, para criar um silêncio dramático que Severo odiava. E Bartholomeu sabia disso, por isso deixava o tempo passar mais ainda.

— Temos sim — respondeu Bartholomeu se aproximando do centro da tenda. — Aliás, as coisas mudaram um pouco a nosso favor. Octávius convocou o contingente do Império. Acho que ele não vai conseguir recrutar todos disponíveis, mas já é alguma coisa para botar pressão do lado leste, onde fica a capital. Ao mesmo tempo, o Imperador enviou duas comitivas de Mercenários de Vanatoris para cá. Muito bem pagas e das boas.

Bartholomeu iniciou mais um vez o silêncio perturbador que fazia o espírito de Severo ir direto para o mundo dos mortos.

— O filho do imperador nunca sacou uma espada — se intrometeu Severo, para não deixar aquela cena seguir em frente. — Se o inimigo resolver atacar o exército dele, poderemos ter uma perda que desmoralizará ainda mais nosso povo.

— Concordo contigo. Por outro lado, o filho do imperador está acompanhado de outros senhores que tiveram experiência em combate ao meu lado e podem orientá-lo. Também, confio na covardia dele, e que não fará nada estúpido porque não tem coragem.

É um tanto estranho confiar o rumo da guerra na covardia de alguém.

— A ideia é boa — disse Anthony, que até então não havia se pronunciado. — Octávius atacando pelo leste, já estão em Ímpia. A companhia dos Cotas Brancas irá demorar alguns dias para chegar pois virá marchando pelo passo de Llanuras, ao sudeste.

"Já os Algozes do Amanhecer estão vindo de barco, ancorarão próximo de Nortal e irão tomar a cidade.

"Nós iremos daqui de Aderol em direção à Nortal, nos encontraremos em um grande passo no rio Água Profunda. Se tudo der certo, teremos o nosso combate final por ali, pois com Octávius e os Cotas Brancas vindo pelo leste, teremos nossa vitória final às margens do rio."

— Bom — continuou Severo, ainda não convencido do plano. — Eu conheço a fama desse algozes ai. São bons soldados em Vanatoris. Mas ainda não acredito no filho do imperador no campo de batalha. Se nosso inimigo souber disso, vai se aproveitar. Uma coisa eu posso garantir para vocês: eles são espertos. O pior de todos, são os caminhantes do deserto... os de turbante.

— É aí que você entra, almirante. — Continuou Bartholomeu, empinando o peito. — Sua missão nesse nosso plano é fundamental. Você juntará sua frota e subirá o rio Água Profunda. Até os primeiros passos, pelo que sei, é navegável. Eu enviarei uma mensagem para Octávius marchar acompanhando o rio. Se algo acontecer, você estará lá para ajudar.

A discussão se prolongou por mais algumas horas e o plano de Bartholomeu estava escrito em pedra. As forças imperiais já tinham reorganizado uma boa frota de Severo, sendo que a única perda havia sido o seu brigue, então assumiu uma de suas corvetas como barco principal. As outras cinco corvetas estavam prontas para a missão, mas dos quatro clippers, apenas dois havia sido reagrupado com a frota.

Então partiram para a missão, dessa vez, para o agrado de Severo, o próprio Bartholomeu havia cedido magos suficientes para completar o contingentes na frota. Isso significava que, se houvesse conflito, Severo conseguiria lutar com quase cem por cento de seu poder de fogo.

Quando avistaram terra firme e a foz do Água Profunda, o terror tomou conta dos que haviam sobrevivido ao ataque do morteiro dos Terras-Ruins.

Sergel, que também havia sobrevivido e foi instaurado capitão do novo barco, se aproximou de seu almirante e se manteve em silêncio.

— Eu sei o que você está pensando, Sergel.

— E o que você tem a dizer sobre isso?

— Não tenho nada. Já falhei a última vez que te disse algo... e meu coração está dentro de uma tempestade que não consigo sair.

— Severo, — prosseguiu Sergel, fraquejando. — Por que você segue algo que não acredita?

Muitos sabiam disso. Severo era um homem leal e jamais desrespeitaria seus superiores. Era por isso que seguia as ordens cegamente.

— Sergel, a missão é clara. Se o exército do filho do imperador estiver a bombordo, daremos todo o suporte. Qualquer cenário diferente desse, descemos o rio e voltamos para o mar.

E assim, Severo partiu para mais uma missão que temia, no fim, teria a sua morte.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora