Capítulo 01: Karada to Kokoro

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Kyoto
2011

Quando o médico entrou em seu quarto e disse que Sakura Kazan estava pronta para receber sua alta, ela não poderia ter ficado mais feliz. Nas últimas três semanas ela estava internada se recuperando de todos os ferimentos – internos e externos – consequentes do incidente na Tadasu no Mori, a Floresta da Correção. Tomou o último banho naquele hospital e vestiu as roupas que sua mãe havia trazido. Sakura não mancava ou sentia qualquer dor em seu corpo, apesar de que ainda tomaria alguns remédios até que, de fato, estivesse cem por cento recuperada.

A mulher de cabelos pretos e lisos curtos, cortados muito acima dos ombros, fitava sua filha com tristeza nos olhos. Yoko Kazan sempre foi uma mulher com crenças e superstições, mas ela nunca acreditou nas histórias de Sakura sobre o sobrenatural e os mistérios em ela se envolvia durante a adolescência. Consequentemente, sua mãe não acreditou em nenhuma palavra dos relatos de Sakura que a internaram naquele hospital. Sakura também não acreditaria se não os tivesse vivido nos últimos meses.

– Sakura-chan, você precisa descansar – Sakura odiava que, apesar de ter seus vinte e tantos anos, a mãe ainda a tratava como se ela fosse uma criança – você vai ficar na minha casa e eu cuidarei e você.

Em uma coisa sua mãe estava certa, Sakura se hospedaria em sua casa, pois era mais perto da Tadasu no Mori do que o apartamento que Sakura morava na capital, Tokyo. Deixaram o Hospital Municipal de Kyoto quando a manhã tinha acabado de começar.

Koen, seu irmão, estava na recepção, esperando pelas duas. Apesar de seus quase trinta anos, ele insistia naquela atitude rebelde; vestia uma jaqueta de couro preta que saíra de um comercial dos anos oitenta e calças jeans desbotas. Ele tinha um cigarro na boca, mas não estava aceso – ele não era tão rebelde a ponto de fumar dentro de um hospital. Koen morava com Yoko, o que apesar de patético, era útil, pois ele cuidava dela muito melhor do que Sakura conseguiria.

Yo. – Seu irmão disse, sem fazer questão de abraçar sua irmã.

Eles deixaram o hospital e seguiram com a caminhonete de Koen pelas ruas da cidade. Kyoto fora a capital do Japão Imperial durante mais de mil anos, e mesmo depois de tanto tempo, sua glória ainda brilhava como uma das cidades mais visitadas do Japão. Sakura crescera ali, mais especificamente, no bairro de Aioicho, que não era o mais rico da cidade.

A casa de sua infância era uma das maiores da rua estreita, onde mal passava um carro. Eles tinham uma garagem, porém Koen a tinha transformado em um estúdio para gravar músicas de sua banda de rock, por isso tinham que deixar a caminhonete na calçada em frente a um terreno vazio a duas casas de distância. Entraram por uma porta cinzenta que ficava à esquerda do portão da garagem.

Sua casa ficava um degrau acima do nível da rua. Assim que Koen fechou a porta e seguiu corredor a dentro sem se preocupar em tirar seu tênis sujo e colocar a sandália de pano, Sakura sentiu o peito apertar. Ela começou a arfar pesadamente, incapaz de sugar o ar com eficiência. As paredes ao seu redor diminuíram e apertaram, como se a tentassem engolir; a luz deixou a sala e a escuridão tomou conta dela. Sua respiração acelerou ainda mais, mesmo que não tivesse um ritmo certo. Seu coração palpitava tanto, que Sakura achou que ele romperia sua caixa torácica e pularia para fora, como os alienígenas da franquia Aliens. Ela ficou ainda pior quando começou a ouvir o som de terra sendo jogada em cima dela.

Sakura desvencilhou-se de sua mãe e correu para fora de casa. Apenas quando a luz do sol e o ar livre entraram em seus pulmões foi que sentiu-se melhor.

– Meu amor – Yoko veio atrás dela, olhando para os lados preocupada, procurando algum vizinho que pudesse estar bisbilhotando – o que está acontecendo?

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