Desceu as escadas em direção ao porão, esperando ver uma porta fechada que a levaria para um salão de festas e um baile de gala. Os tios estariam lá, bem como todos os outros convidados do churrasco e Juliana. Era uma explicação razoável para o que estava acontecendo.

No entanto, tratava-se de um porão como outro qualquer. Empoeirado, entulhado e com um cheiro engraçado.

A bagunça das pessoas ricas era a mesma que a sua família fazia. Tudo estava dentro do padrão esperado, exceto por uma mesa de sinuca, encostada na parede dos fundos. Mesmo sem entender as regras e a julgar pelo local da mesa, Alana concluiu que as bolas estavam espalhadas de maneira caótica. A lã estava rasgada em 10 linhas que iam do centro até as bordas.

Arranhões. Um tremor subiu pelas pernas. O pavor voltou às costas.

Pensou em retornar à entrada, mas os gritos da irmã repercutiram em sua mente, precisava seguir.

Próximo à mesa havia uma porta entreaberta. Alana suspirou e caminhou até lá, consciente do barulho produzido por seus próprios passos. Aquela parte da casa lhe causava algo além do desconforto. Encolheu os ombros e encostou os cotovelos perto dos quadris. Empurrou a porta com delicadeza. O aroma de maresia lhe assaltou como se estivesse na praia. Era um aroma conhecido e reconfortante, mas não combinava com o que via, um corredor espremido, escuro e aparentemente longo. Não havia diferença entre o chão, as paredes e o teto, tudo era feito de cimento puro e grosseiro.

Mas o que era esse cheiro de mar?

Nada que cheirasse como a praia poderia ser ruim. Caminhou a passos largos pelo corredor. Quão mais distante ia, mais forte era a maresia, chegava a senti-la engrossando a pele das pontas dos dedos. O ar tornou-se pesado e era mais difícil de respirar. Uma fina neblina, como fumaça, diminuiu ainda mais seu campo de visão. Começou a correr. Os chinelos arrebentaram no meio do caminho, mas ela continuou, arranhando as solas no cimento bruto. O choro subiu pela garganta. Pensou em dar meia volta, mas teria de encarar a falta de ar por tudo que já percorrera.

Os gritos de Juliana retornaram.

"Alana! Alana!"

Mais uma vez um barulho agudo se propagou pelos espaços vazios de sua mente. Acelerou como nunca, acreditando que sua vida dependia disso. Avistou uma luz ao final do corredor. Ouviu guinchos de gaivotas e o barulho do mar.

A água salgada que escorria pelos degraus fez arder os arranhados em seus pés, mas conseguiu voltar a respirar. Uma fraca cortina de água a acertou nos cabelos antes que conseguisse sair pelo alçapão. Surgiu na Praia da Cascata, bem no finalzinho da maré.

Respirou fundo. O calor do sol da tarde aqueceu-lhe a pele.

Sem dúvidas estava em Santo Expedito, mas as diferenças eram gritantes. Quase não reconheceu o Bar da Concha, um dos bares mais tradicionais do litoral, com paredes pintadas de verde limão. Acostumara-se a vê-las pintadas de amarelo. Havia menos casas nos arredores da praia e o calçadão estava terra pura, sem sinal das pedras portuguesas onde cortara a sola dos pés tantas vezes quando criança.

Percebeu uma pessoa ao longe na praia, próxima de uma das escadas que levava ao Bar da Concha. Era uma mulher de cabelos negros, ajoelhada junto a uma lápide fincada na areia.

"Uma lápide, aqui?" Alana murmurou.

Caminhou até a mulher. Ela orava de forma silenciosa e com os olhos fechados. Segurava uma mão na outra. Curiosamente, estava com um longo vestido branco e havia um véu translúcido repousado na areia ao seu lado.

"Com licença, desculpe interromper."

Antes mesmo de seus olhos se encontrarem, a mulher abriu um sorriso. Era jovem, talvez tivesse 22 anos. Sua boca possuía um desenho forte e curvilíneo com lábios quase tão grandes quanto os de Daniele. Era a noiva mais bonita que Alana já vira. Seus olhos amendoados se abriram e Alana quase se perdeu no verde intenso que revelaram. Conhecia aqueles olhos. Era como ver um mesmo quadro, mas numa moldura diferente.

Mas onde os vira?

"Por que você está chorando?" A voz que lhe questionava era de uma doçura tão espessa que seu coração se acomodou no lugar.

"Eu não es-" Alana checou o rosto e percebeu que estava tomado de lágrimas. Havia se esquecido do desespero para fugir do corredor abafado. "Perdão. Estou procurando pela minha irmã, Juliana. Ela se parece comigo, só que mais alta e mais magra."

"Não vi. Você é a primeira pessoa que vejo hoje."

Alana deu de ombros, não esperava ter tanta sorte de qualquer forma. "Também preciso ir ver a senhora Eleonora, sabe onde ela mora?"

"Você é uma amiga dela? Eu não deveria estar conversando com você." A mulher se levantou, seus olhos haviam se cerrado até formar pequenos filetes.

"Não, espere. Eu não sou daqui, me chamo Alana. Só estou procurando pela minha irmã... essa senhora disse que poderia ajudar."

"Olha, me desculpe, mas preciso ir. Espero que encontre o que procura."

Antes que pudesse protestar, a noiva lhe deu as costas e subiu as escadas para o calçadão. Segurava a saia do vestido enquanto corria para fora de vista. O véu ficou esquecido sobre a areia. Alana pensou em se agachar para apanhá-lo, mas a estranha lápide lhe chamou mais a atenção.

Rodolfo Quiroga, 1920-1971. O maior cirurgião cardíaco do país.

A pintura do homem de cavanhaque sisudo, pendurada no saguão da mansão branca, retornou-lhe com clareza. Se ele havia nascido em 1920 e possuía uma idade semelhante à Eleonora, isso significava que ela tinha mais de 90 anos! Eu não daria mais de 50 para ela. O que diabos está acontecendo?

Indignada com tantas perguntas sem respostas, subiu as escadas até o bar. A verdade era que não tinha rumo. Verificou o celular, mas as redes estavam desconectadas. Eleonora lhe dissera que morava perto da praia, mas não o nome da rua ou algo que fosse mais útil. Havia um retrato dela na mansão branca, então talvez morasse lá, mas esta não ficava perto da praia. Sem saber por onde começar, olhou em volta diversas vezes, vasculhando todos os cantos de cada construção ou terreno, alguns que reconhecia, outros não.

"Juliana? Eleonora?" ela gritou, olhando para o nada.

"Quem vem lá?" A resposta a pegou de surpresa. Não reparou de onde a voz vinha e não conseguiu discernir se pertencia a uma mulher ou a um homem.

"Quem é?" perguntou, mas nenhuma resposta veio.

Andou pela rua da praia, pelos mesmos lugares onde vira Patrick com a nova namorada e onde tomara tantos daqueles copinhos de cachaça. Conhecia aquela região, mas tremia dos cotovelos aos punhos e suava mais do que o calor ensejava.

"Quem tá aí?" Tentou. Silêncio, seguido pela arrebentação de uma onda.

Virou na esquina junto à mureta do Bar da Concha. Seu sangue gelou... dezenas de pessoas a aguardavam. Tacaram coisas na sua direção. Berrou.

Os objetos que lhe acertavam não eram duros, mas o susto não se tornou menor.

Um líquido viscoso escorreu pelo rosto e cheirava à urina.

Eram crianças. Apontavam e riam de sua cara. Fedelhos vestidos como num filme dos anos 50, escondendo os rostos com seus chapéus e boinas. Não conseguiu ver seus olhos, não conseguiu reconhecer nada de marcante em suas aparências que não fossem as roupas. "Olha a cara de vaca leiteira que ela tem!"

Alana permaneceu sem reação, tentando compreender o que lhe acontecera. As crianças fugiam, cada uma correndo para um lado, enveredando pelas ruas laterais.

"Idiotas!" Ficou sozinha na esquina da praia, seu rosto pingando e as bolas de papel molhadas caindo aos poucos sobre a terra seca. Pensou em como se livraria do cheiro, não havia a menor chance de tocar o mijo com as mãos.

"Moça, você tá bem?"

Era outra voz de criança, um garoto se aproximava pela rua adjacente. Seu sangue ferveu. Que tipos de mãe criavam pestes assim?

Longa Noite em Santo ExpeditoLeia esta história GRATUITAMENTE!