14 - O Poder - Parte Final

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Micaela corre colina abaixo ao ver que os recém saídos da Estação Áurea acompanham Alice, que tem a sua nudez protegida com um grande manto branco. Ao perceber o movimento, Anne e Sonia saem da área das cabanas, em meio às árvores e assistem a Sete boliviana abraçar a brasileira. Róru e Ruma carregam pelos braços, Maika e o outro que sofreu lavagem cerebral, Randot. Eles estão calmos e lúcidos. O que saiu de Hannah também os curou.

- Droga. Era verdade - Anne cruza os braços e sorri para disfarçar, sem sucesso, um certo desgosto.

- Mas será que era verdade que foi a Lura que a prendeu? - Sonia questiona e joga o seu olhar indagador sobre a Sete finlandesa.

- Quer dizer que você acha que pode ter sido a própria Hannah? - Anne pergunta.

- Quero dizer que Eles podem ter outras pessoas que usam por aqui e que podem ter feito o serviço - Ela pausa e penetra o seu olhar em Anne enquanto aproxima o rosto da outra - Eles são poderosos... Demais.

- Sonia... Acho que Eles não têm outros. Eles dependeram de mim para achar Hannah... - Anne começa a achar que a amiga russa pode estar um tanto obcecada.

- Pode ter sido a própria Alice que se colocou possuída por eles. Não foi ela que sumiu? Não foi ela que foi o motivo desse show todo? - Sonia inunda a outra de perguntas, sendo mais falante do que nunca foi, mas sempre mantendo o volume da voz muito baixo e o tom seco, soturno.

- Sonia... Pera aí. Se segura, amiga - Anne ri e toca os ombros da Sete russa.

- Eu não quero matar de novo - Sonia deixa os olhos ficarem um tanto marejados - Eu não quero ser controlada.

- Nem eu, mas... Pera... Eles estão chegando - Anne cochicha.

Os outros chegam ao topo do morro. A hacker vai direto, toda simpática, abraçar Alice e pergunta, curiosa, ao analisar o estado dela:

- Amiga, que que aconteu com você?

- Eu descobri... - Ela tem a voz embargada e as lágrimas começam a transbordar pelo seu rosto. Ela continua ao mesmo que chora pesadamente:

- A Lura não era uma pessoa boa. Era tudo mentira. Acho que ela nunca quis nos ajudar.

Ela desaba em choro e é acolhida pelo abraço de Olívia, que beija a sua cabeça. Micaela a abraça pelo outro lado.

- Você vai ter tempo de nos contar tudo - Olívia a conforta e as que receberam a artista brasileira em seus braços começam a levá-la até uma de suas cabanas.

- Oi, Anne. Oi, Sonia - Hannah acena para as duas paradas. A Sete que se comunica e controla máquinas dá uma piscadela sem graça e sai atrás do outro trio. A que se transforma em uma fera alienígena cruza os braços e nada diz. Ela encara Hannah. O silêncio entre elas pesa.

- Hm... Gente... - Róru começa, com medo de algum conflito. Ruma tensiona o corpo se preparando para defender a sua líder, como sempre gostou de fazer. Ruth dá dois passos pra frente da filha. Sonia ergue as mãos, sinalizando paz e se retira, andando de costas por alguns segundos, como forma de enfrentamento. Ruth coloca o braço esquerdo em volta da filha, fica parada com ela, enquanto deixa um raio do sol daquele mundo iluminá-las ao passo que ele racha um espaço entre as nuvens cinzas. Pela primeira vez, a Sete vendedora de carros, que tinha dois filhos mortos, que tem um casamento frustrado e uma antiga luta em sua saúde mental, sente-se em casa. É estranho, mas é verdadeiro. Assim como aquele mundo tão parecido e tão diferente do nosso aqui na Via Láctea.

***

A primeira fogueira é acesa. A noite se aproxima e venta frio e bastante. O mundo está sendo coberto gradualmente por tons de azul e laranja. Uma das mães de cada família que sobreviveram às recentes catástrofes saem acendendo as montanhas de madeira para se aquecerem. Poucas são as famílias com pais mesmo antes dos últimos desastres.

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now