two

22.3K 2.6K 686
                                        

— Tô te dizendo, Jimin. Ele parece ser aquele tipo de garoto que odeia os populares. Sabe? Aqueles que acham que todo atleta é vazio, superficial... — Taehyung apoiou o queixo na mão, pensativo. — Ou ele simplesmente me odeia. E eu não o culparia.

— Tá exagerando. — Jimin bufou, revirando os olhos como quem já tinha ouvido isso umas cinquenta vezes. — Talvez ele só... não saiba que você existe.

Taehyung deu um soco fraco no ombro do amigo, indignado.

— Nossa, valeu pelo apoio.

— Tô falando sério. Ele chegou tem o quê? Um mês? Ele mal fala com alguém. Pode ser só tímido. Ou reservado. Ou... os dois.

Mas Taehyung conhecia aquele olhar de longe: o olhar de alguém que evitava o mundo não por timidez, mas por escolha. Jeongguk tinha aquele jeito quieto, quase ausente, como se estivesse sempre em outro lugar — e ainda assim, era impossível não notar a forma como ele caminhava entre os outros, como se carregasse histórias demais nas costas pra perder tempo com trivialidades.

O assunto sempre acabava voltando pra ele. E aquilo começava a incomodar. Não porque Taehyung estivesse cansado de pensar em Jeongguk, mas porque pensar nele só reforçava o que ele sabia desde o começo: havia algo impossível ali. Algo que ele desejava e não podia alcançar. No fundo, era mais fácil supor que Jeongguk o odiava do que encarar a possibilidade de ser apenas invisível.

Chegou ao colégio cercado pelos de sempre. O grupo de amigos, o barulho alto, os cumprimentos exagerados. Todos esperando algo dele, talvez um sorriso, uma piada, qualquer coisa que reafirmasse o papel que ele ocupava ali: o popular, o descolado, o atleta carismático.

Lea se aproximou antes que ele pudesse escapar. Como sempre, enlaçou seu braço com naturalidade forçada, como se tivessem um acordo silencioso — ou pior, um contrato não assinado.

Taehyung odiava aquilo.

Já tinha deixado claro, com todas as palavras possíveis, que não queria nada além de amizade, mas Lea parecia ouvir só o que lhe convinha. Pra ela, rejeição era um idioma estrangeiro.

— Em que tá pensando, Tae? — sussurrou, doce demais, perto demais. — Em mim?

— Não, Lea. — respondeu, firme, sem sequer olhar pra ela.

Se desvencilhou do toque com delicadeza calculada e seguiu sozinho pelo corredor. Precisava passar no armário antes da aula de anatomia, e o simples ato de se afastar já aliviava o peso que sentia nos ombros.

Abriu a porta do armário com pressa, tirando os livros e o caderno necessário. A cabeça cheia. Estava com tempo contado — a sala de natureza ficava do outro lado do colégio, e ele já devia estar atrasado. Fechou a porta com força, mais por hábito do que por intenção, e só então percebeu a presença ao lado.

Jeongguk.

Claro. Como se o universo fizesse questão de brincar com ele.

O garoto estava encostado no armário vizinho, casual, como se tivesse saído de um editorial disfarçado de manhã comum. Usava um moletom rosa-bebê que parecia macio demais pra existir, calça skinny rasgada nos joelhos, um all-star preto surrado e um brinco prateado pendendo discreto na orelha esquerda. Estava rindo.

Taehyung congelou.

— Oi, você — disse Jeongguk, com um sorriso que parecia iluminado por dentro. — Garoto da biblioteca.

Taehyung precisou de dois segundos pra lembrar como se respondia a interações humanas.

— T-Taehyung — estendeu a mão, se sentindo ridículo por gaguejar. — Meu nome. É Taehyung.

— Jungkook.

Apertaram as mãos. O toque foi breve, mas quente. Leve, mas suficiente pra fazer o estômago de Taehyung afundar como se tivesse pulado de uma escada sem olhar.

— Como vai a leitura? — perguntou, apontando com o queixo para o livro que Jeongguk segurava.

— Ótima. — Jeongguk ergueu o livro como se fosse um troféu. — Tô na parte em que o Darcy finalmente começa a parar de ser um idiota.

— Ah, então ainda tem salvação.

— Sempre tem, jogador. — respondeu, dando um tapinha leve no peito de Taehyung, bem em cima da jaqueta branca e verde do time de futebol. — Até mais tarde.

— Até, leitor.

Jeongguk riu baixinho com aquele riso abafado, de canto de boca — e saiu andando, com os fones pendurados no pescoço e o passo tranquilo de quem não tem pressa pra chegar, porque já vive no próprio ritmo.

Taehyung ficou parado por um momento, encarando o corredor vazio, como se o mundo tivesse sumido por alguns segundos.

— Leitor? — sussurrou pra si mesmo, passando a mão no rosto, envergonhado. — Meu Deus, Taehyung... como você é ridículo.

Suspirou fundo e começou a andar, tentando recuperar o tempo perdido.

Não percebeu que deixava pra trás não só os amigos mas também os olhos atentos de Lea, que observava de longe, a mandíbula cerrada, o olhar afiado.

Ela tinha notado o sorriso de Jeongguk. E não gostou nem um pouco.

PRIDE AND PREJUDICE | VKOOKOnde histórias criam vida. Descubra agora