Parte 1 - Inércia

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CAPÍTULO 1

A campainha tocou.

Ela já vinha tocando há dias, assim como o telefone. Como tocariam as mensagens de e-mail, se fizessem barulho, ou se eu me importasse em abrir o e-mail para descobrir as mensagens novas. Podia não parecer – parecia –, mas eu estava para virar uma ermitã. Não queria conversa com ninguém, não depois do que passei quando Rodrigo resolveu ir embora porque, sem mais nem menos, tinha se apaixonado – e não era por mim, de novo, como alguém romântico alega se apaixonar todos os dias pela mesma musa, fazendo artistas suspirarem e pessoas sem par morrerem de raiva.

– Isso é sério? Mas a gente vai se casar!

Esqueci de contar que essa conversa aconteceu exatos 36 dias antes do nosso casamento? Pois aí vai o registro: essa conversa aconteceu exatos 36 dias antes do nosso casamento.

– Desculpa, Alice, eu não posso me casar. Não agora.

– Não comigo? – foi o que entendi.

– Não agora – ele revirou os olhos, como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo. – Não até eu descobrir o que está acontecendo no meu coração.

Queria perguntar que diabo de desculpa era aquela, vinda justamente de um cientista. Faz parte de sua educação básica saber que "coração" é uma licença poética, já que é o cérebro quem manda na coisa toda. Conhecendo Rodrigo como eu conheço, ele não é dado a licenças poéticas, e, apesar do excelente argumento, não tive forças para dizer nada. Se perguntasse, poderia ouvir uma resposta horrível, daquelas que a gente nunca quer ouvir. Como "me apaixonei por uma de minhas alunas" ou "me apaixonei por um de meus alunos", ou "me apaixonei por uma árvore", enfim, "me apaixonei por qualquer coisa, lugar, objeto, fruta ou pessoa que não é você", tal qual se a vida fosse uma adedanha e a letra do meu nome ainda não tivesse saído. Achei melhor deixar o não dito pelo dito; era uma aluna. Certeza. É a cara dele aprontar uma dessas - e faz parte da minha educação básica não cavar meu próprio buraco, embora, às vezes, a empreitada seja irresistível.

Aliás, aqui cabe um parêntese patrocinado pela minha dor de cotovelo: o que aconteceu nesse país, nos últimos anos, para que as mulheres queiram seguir carreira na física? Na minha época eu era a única mulher na sala inteira; agora chovem meninas nas ciências exatas. Nada contra, muito pelo contrário. Acho importante que a mulherada domine espaços ultrajantemente masculinos, mas elas tinham que resolver fazer isso na universidade em que Rodrigo leciona – e quando estou para me casar? Vão ser modelos, atrizes, médicas... estudem física em Princeton, pelo amor de Sagan! Por que jovens com dezoito anos e pele maravilhosa resolveram estudar uma coisa tão... minha, e bem na hora em que o meu futuro marido é o professor? Que timing péssimo, irmãs!

Eu sei o que você está pensando e concordo: o rancor de um relacionamento desfeito bateu na trave do meu feminismo. Me envergonho? Profundamente. Consegui mudar isso quando o pé na bunda aconteceu? Infelizmente, não. Nunca quis olhar na cara da sujeita que roubou meu noivo ou procurar descobrir quem ela era porque senão eu teria dado uma chinelada na cara dessa pessoa – assim como queria dar na cara dele, se ele tivesse a decência de aparecer mais tarde, quando eu tivesse achado as respostas certas e impactantes para uma conversa desse calibre.

Nos dias que se seguiram ao fora que levei, cuidei de mim. Não atendi campainha, telefone, e-mail ou bilhetinho porque não queria ter que me explicar. Explicar essa dor que sentia por alguém que não merecia que eu sentisse essa dor. Não é isso que todos os chavões dizem? Já era humilhante demais aceitar que fui trocada às vésperas do meu casamento. Era humilhante demais perder o posto para alguém (provavelmente) mais nova e (certamente) menos interessante que eu. Todos aqueles telefonemas, bilhetinhos, e-mails e toques de campainha que não atendi eram lembretes que me jogavam na cara – a cara que realmente levou a chinelada – uma série de frases feitas, como "você é melhor que isso" ou "você é maior que isso". Eu não queria ouvir nenhuma dessas coisas, talvez porque já soubesse e não conseguisse acreditar que, mesmo sendo maior e melhor, ele teve vontade de ir embora.

Teoria do AmorOnde as histórias ganham vida. Descobre agora