CAPÍTULO NOVE

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“A vida em sociedade não é para mim, uma mulher que lê e conversa com um homem de igual para igual é considerada uma pária. Na Grécia Antiga, foi iniciado este processo de distanciamento do poder feminino que multiplicou-se no período medieval, tratando-nos como objetos.”

-Diário pessoal de Autumn Charpentier

AUTUMN

Depois de um longo e cansativo dia, Autumn preparava para deitar-se. Vestia a camisola de tecido leve, havia lavado o rosto, escovado os dentes e, depois de todo o cuidado noturno, sentou-se nas almofadas da janela balcão, migrou o olhar para a lua e, como todas as noites banhadas pela luz do luar, iniciou o desabafo em seu diário.

Hoje não tinha tido a oportunidade de vê-lo e se alegrava por ter mais um tempo para pensar na situação em que se entrenhou. Sentimentos ou não? Parecia uma criança indecisa, talvez tirasse a sorte no palitinho e resolvesse sua situação da forma mais ridícula

A cintilância que entrava pelas vidraças a alegrava. Parecia que pequenas fadas cultivavam suas graciosidades na lua, deixando-a mística e misteriosa.

Diariamente esboçava suas ideias em um diário de capa vermelha e surrado pelo constante uso suspirava e escrevia todos os sentimentos, contraditórios ou não, e neste momento não era diferente. Um homem lhe veio à mente, tentando com todas as forças deixá-lo de lado e vendo os primeiros traços de um desenho surgir.

Lembrou que os olhos cinzas eram frios que continham calor. Os cabelos negros como as asas de um corvo eram longos e selvagens. A barba inadequado e atraente tornava-o uma beleza perigosa.

Sob a camisa que vestia deveria haver um peito musculoso e muito alto, dando-o aquele aspecto másculo.

Sacudindo a cabeça e tentando deixar os pensamentos libidinosos de lado, voltou a fazer traços e olhando demoradamente para o papel a sua frente decidiu-se que era o melhor trabalho como também o mais indecente que fizera. No rabisco o homem estava com a camisa aberta até a cintura mostrando o corpo bem estruturado, com músculos definidos. Aut estava meio horrorizada com sua imaginação devassa, não pelo corpo em si, mas sim pela imagem mental completa cheio de detalhes. Estava frequentando museus gregos demais.

Fechando com ímpeto a capa, se dirigiu para cama. Os nervos e o corpo quente a deixavam agitada inesperadamente. Proibindo-se de sonhar com ele ou aquilo captado pelo seu imaginário.

Era assustador como se sentia em relação aquele homem. O despertar da curiosidade e um sentimento que não sabia nomear e, talvez, nem quisesse. Explorar aquilo não seria desanimador, apenas não levaria a nada. Sendo uma pária, precisava entender que casamento de conveniência não a deixaria satisfeita. Precisava de um homem que fosse companheiro e a entendesse. Amasse do jeito que ela era, sem tentar mudá-la. Acima das diferenças.

Os nobres, quer dizer, a sociedade londrina não estava preparada para uma mulher a frente do seu tempo. Com desejos e opiniões. Estava implícito que todas deveriam saber costurar, servir chá ou ser uma boa anfitriã. Nunca iria se casar com alguém, deixando Héstia envergonhada com sua escolha de liberdade, envergonhando sua família e traindo os bons costumes.

Levantou as pesadas cobertas e deitou-se no meio da enorme cama, sentindo-se mais ela mesma e, ao se pôr de costas, olhou para os desenhos das constelações de Órion, Tauri e a Scorpii que viu em um livro. A lua um círculo pintado de branco e cinza se destacava, relevos deixavam a mais próxima do verdadeiro.

Estava sendo embalada e conduzida para o mundo dos sonhos.

*

Acordou no dia seguinte sentindo o sol acariciando seu rosto, tinha deixado mais uma vez as cortinas escancaradas. Incomodada com a claridade, jogou as cobertas por cima de sua cabeça e grunhiu revoltada.

QUANDO A LUA AQUECE O CORAÇÃOLeia esta história GRATUITAMENTE!