O olho maior que a boca.

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''All the good girls go to Hell
'Cause even God herself has enemies''

A entrada de luz neon do sex shop reflete o desespero dos que ali visitam esfomeados por mais, desesperados por ela, Saraguina, a pervertedora de homens, a mais odiada pelas beatas da cidade quando seus maridos chegam em casa com seus rostos arranhados  e cheirando Bourbon, conhecida pelos gostos exóticos e olhos de gata que a tudo observa, anda pela cidade como uma rainha louca, dou risada toda vez que alguma mulher entra aqui num ato desesperado para segurar o marido que caiu nos encantos dela.
Dentro do sex shop só se é capaz de ouvir sussurros envergonhados procurando brinquedos para satisfazer a fome da desejada, o sorteado da vez chega ao balcão e me pede em um sussurro quase inaudível, se não fosse pelos meus ouvidos perspicazes acostumados a cena em minha frente, eu jamais conseguiria ouvir.
-Um pinto de borracha grande e um KY- a voz quase ausente do homem quase cego pelos arranhões pede, num tom quase de súplica, não consigo conter a risada em minha voz ao ouvir o pedido.
-Ela tem preferência por alguma cor? Ou dessa vez ela quer um com luzes? - o deboche presente na minha voz o irrita, fazendo-o virar as costas e sair apressado.
Uma risada alta ecoa nos fundos da loja, e o meu sorriso se alarga mais, enquanto escuto passos atrás de mim.
-Você não deveria intimidar meus clientes, Irmãozinho- o sorriso de gato se alarga ao chegar próximo a mim- Sabe, se eu ficar sem brinquedos novos por sua causa vou ficar muito magoada.
-Ele vai voltar... Você ainda não terminou de brincar com esse -falo puxando Saraguina pelo vestido transparente até ao alcance de minha boca, apertando sua bunda, enquanto meu pênis já começa a dar sinais de vida- vamos para o fundo da loja? Tenho que terminar aquela conversa com você.
- Tudo bem, mas não podemos demorar porque hoje vou brincar de policia e ladrão - o sorriso em seu rosto se alarga quase chegando aos olhos, mas a sombra constante em seus olhos me mostra que ela está longe de ser aquela moça doce que um dia fora. A luxuria quase insana tomou conta de minha doce irmã. Há tempo demais para que eu realmente sentisse falta, mas sinto falta do carinho que me era dado.
Quando se vira em direção aos fundos da loja, suas costas ficam a mostra revelando uma imagem dolorosa de se olhar, cicatrizes de fora a fora de um passado distante junto a um lunático, ela nunca as esconde com roupas, deixando a mostra o que seria vergonha de muitos. Com um suspiro pesado me encaminho atrás da mulher luxuriosa para os fundos da loja. 

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