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** Aqui está mais um capítulo! Demorou mais tempo do que eu gostaria, mas ao menos consegui escrevê-lo. A todos os que estão a aguardar, obrigada. Depois da época de exames, vem aí uma carga ginórmica de capítulos. É só aguardarem e terem um pouco de paciência comigo. Espero que gostem! ♡

BOAS LEITURAS! **

• IMOGEN •

Os nossos passos não se ouvem enquanto cortamos caminho até ao nosso destino. Os carros há muito que ficaram para trás, afim de prevenir caso ainda haja kakois em redor da aldeia. Não posso dizer que me tenha entusiasmado propriamente percorrer quase um quilómetro a pé, no entanto este é o único caminho que podemos percorrer. Não sabemos ao certo o que vamos encontrar e se for necessário evacuar as pessoas o mais rápido que conseguirmos, temos melhor mobilidade sem os carros. Conseguimos levá-los por entre as ruínas e escondermo-nos se for realmente necessário.

Há anos que não encontrava uma aldeia de resistentes. É certo que em criança, saltei entre muitas pois o meu pai acreditava que não era bom permanecermos muito tempo no mesmo local, mas também não havia qualquer outro lugar onde ele achasse mais adequado. A minha segurança estava sempre em primeiro lugar. De qualquer modo, depois que fiquei sozinha nunca encontrei conforto ou segurança num sítio onde todos me são desconhecidos.

É certo que a Cidadela tem mais residentes, sem falar que é o centro de tudo e todos os que são importantes se encontram lá, mas por isso mesmo determinei que era o melhor para mim. Assim, mais ninguém morreria por mim. Um calafrio ronda a minha espinha quando olho para quem me rodeia. Tenho de os manter seguros a todo o custo.

A transpiração faz com que a t-shirt se cole ao meu corpo. Ainda não amanheceu, mas o calor já é absurdo. Calados, junto de mim, estão Kai e Annaleah – um em cada meu lado como se fossem os meus seguranças particulares – a sofrerem também do mesmo. Obrigo-me a focar nesse aspecto e não na dor lancinante que parece raiar-me a perna a meio.

O grupo, no total, são cerca de oito pessoas. Eu, Kai, Annaleah, Rick, Theo e mais três indivíduos que se apresentaram logo de início, mas de quem já não me recordo os nomes. Contanto, eles também não fizeram qualquer tipo de esforço para se conectarem. Aliás, têm mantido a sua distância. Preferia que fôssemos somente os cinco – pelo menos do Theo e do Rick já sei o que esperar. Contudo esse ideal é irrealista. Quando avançarmos sobre o Quartel não vamos ser só nós. Nem conseguiríamos alcançar o que fosse dessa forma. Conheço aqueles caminhos como a palma da minha mão. Cada centímetro está guardado e altamente vigiado. Por isso embrenharmo-nos sozinhos nessa missão está fora da equação.

As luzes fracas da cidade irrompem o bréu no qual temos seguido. Vejo-as a piscar ao longe, como que a advertir o que pode vir a acontecer. O meu coração começa a bater desenfreado com a possibilidade do que nos pode aparecer à frente. Inconscientemente, agarro a minha espada presa às costas e preparo-me para o que vier. A meu lado, sinto os meus companheiros a imitarem-me. Todos estamos com a respiração cortada.

Theo e Rick assumem a liderança. Quando nos encontramos suficientemente perto, o líder dos Filhos ergue o punho no ar para nos parar. Observo-os, a uma curta distância, a avaliar as opções e a determinar se o perímetro está seguro.

Nos segundos de espera, sinto Annaleah aproximar-se mais de mim. Já se encontra com o arco em riste, pronto a ser usado se ocorrer alguma eventualidade. Olho para ela que me faz um leve sinal com a cabeça. De seguida, dirige-se para perto de Rick e de Theo. Kai toma a sua antiga posição. Consigo sentir a sua respiração na parte de trás do meu pescoço, visto que tenho o cabelo preso em totalidade em um coque no cimo da cabeça.

– Estás bem? – Pergunta-me, a sua voz não passa de um sussurro.

Indico-lhe que sim, acenando apenas com a cabeça. Não consigo falar agora, o nervosismo tem na sua posse todas as minhas faculdades. Quero seguir em frente e tirar aquelas pessoas dali o mais rápido possível.

Por fim, Rick faz-nos o sinal pelo qual esperávamos. Está na hora.

Sem pausas ou lentidão, avançamos. À medida que nos aproximamos, vou-me apercebendo melhor do que realmente está a acontecer. As luzes que tremeluziam são na realidade chamas. Tudo em redor está a arder. O fumo já se condensa no ar alguns metros acima de nós, negro e imperativo.

– Temos de tirar todos os que conseguirmos daqui – oiço Theo berrar, alguns metros à minha direita. – Levem-nos para o ponto combinado. Vão!

A minha mente dispara no modo de sobrevivência.

Tento discernir pessoas por entre as chamas, porém é difícil. No meio da confusão, distingo gritos – não vejo as pessoas em questão, mas consigo ouvi-las com distinção. Assim, esforço-me por ser guiada pelos seus gritos e nada mais. Kai está no meu encalço, consigo sentir a sua presença a uma mera distância. A mina preocupação estende-se também para ele, no entanto enquanto ele se mantiver perto de mim consigo permanecer calma sobre esse aspecto.

– Mãe?

O grito infantil desperta-me a atenção. Dirijo-me de imediato até à fonte da voz, procurando-a desesperadamente por entre as chamas que quase deitam abaixo uma casa à minha frente. De repente, vejo um vulto dentro da casa, através da janela que não é mais do que um buraco. Aliás, dois. Um mais pequeno do que o outro, sendo que o maior está a ser suportado pelo mais pequeno.

O meu tempo de reacção é quase nulo. Corro pela casa adentro. Tal como deduzi, a menina tenta arrastar o corpo ferido de uma mulher mais velha – quem suponho ser a mãe – para fora da casa. Há chamas por todo o lado. As gotas de suor borbulham na superfície da minha pele de tão quente que está.

– Por aqui – grito-lhes.

Ainda temos cerca de dois metros a separarem-nos, mas não consigo chegar até elas. Preciso que sejam elas a vir até mim. Magoar-me não as vais ajudar em nada.

A menina ergue os olhos à minha procura. Tem o rosto sujo do fumo, parecendo que todo ele está chamuscado. Porém, a mãe já não respira. Eu consigo discernir isso daqui, mas imagino que a menina não. De repente, ela faz-me lembrar Tessa. Deve ter mais ou menos a mesma idade que ela. Tão pequena, mas tão corajosa.

Com muita dificuldade, a menina consegue fazê-las chegar até mim. Agarro logo no corpo da mãe, desimpedindo a menina para que ela possa fugir o mais rápido possível dali. E é exactamente isso que lhe digo. Porém, teimosamente, ela abana-me a cabeça. Como dizer a uma criança tão nova que a mãe está morta? Não preciso de confirmação. No momento em que a tomei nos meus braços foi-me fácil perceber que não respirava.

Estou prestes a falar a verdade, quando Kai irrompe pela casa em chamas. O seu olhar perscruta todo o espaço, tentando situar-se do que está a acontecer. Quando cruza o meu, aponto-o para a rapariguinha. Não preciso de dizer mais. Automaticamente, ele embrenha-se pelo espaço adentro afim de agarrar na menina. Contra choros e mais gritos, ele leva-a para fora da casa, deixando-me sozinha com o corpo da mãe falecida. Pouso-a no chão, o mais terna possível. Por muito duro que seja, não posso perder tempo com quem já não consigo salvar. Endireito a minha espada nas costas e saio da casa, antes mesmo de esta desabar. Mais alguns instantes lá dentro e teria ficado subterrada.

Apoio as minhas mãos nos joelhos, enquanto tusso incessantemente. Sinto os meus pulmões a afogarem-se em fumo, lutando e desesperando por ar puro.

Mas então, uma lâmina fria encosta-se ao meu pescoço.

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now