Prólogo

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Depois dos trinta poucas coisas são tão constrangedoras na vida de uma cidadã de bem quanto ir solteira a eventos familiares. Bom, pelo menos quando o evento familiar em questão é o da minha família.

Não sei quanto a você, mas eu fui premiada com um grupo grande de parentes. Vários tios, tias e primos pentelhos que insistem em perguntar, toda vez que me veem, "e aí, Alice, e o namorado? Não vai casar não?". Não há cerimônias: se me virem três vezes em três dias, perguntarão a mesma coisa. E, como a Alice sabe, não existem resultados diferentes quando as constantes são sempre iguais.

Aliás, oi. Eu sou a Alice.

Desculpe-me por começar a te contar sobre minha vida a partir de uma frase tão clichê, mas é que essa é uma descrição correta da minha realidade. Uma pessoa no auge dos trinta que aparece no almoço de bodas de oitocentos anos de casados dos avós sem sequer uma perspectiva de que o amor bateu à porta enfrenta um desafio e tanto: sair ilesa da situação. É por isso que quero pular essa parte. Riscar a festa do amor eterno do calendário! Vovó e vovô, amo vocês, mas prefiro não aparecer. Meu tempo será melhor gasto se, ao invés de estar lá, ouvindo essas e outras perguntas um pouco mais específicas sobre os acontecimentos dos últimos dias, eu ficar por aqui, contando coisas aleatórias na esperança de que você veja os sinais e consiga me explicar como vim parar no fundo do poço, porque ainda não encontrei nenhuma explicação lógica. E olha que eu sou boa em explicar coisas.

Para que a gente se entenda desde o início vou ser completamente honesta aqui: namorar nunca foi meu forte. Sempre fui meio desajeitada e jamais tive coragem de falar com algum cara sobre os desdobramentos de um possível relacionamento. A cada vez que me apaixonava – o que ocorria com determinada frequência, devo admitir –, minha imaginação já projetava, no piloto automático, filhos, cachorros e uma casa linda com o garoto da vez, embora ele não soubesse que eu tinha tais planos para sua vida. O máximo de interação social que eu tinha com o sexo oposto era na noite do videogame, meu momento de brilhar. Criada com dois irmãos mais velhos e apresentando certo talento para a observação participante, consegui aprender alguns truques nos jogos que os meninos curtiam, e, puxa, eu gostava de me exibir. Era legal ter amigos homens, mas, por mais que pensasse neles com borboletas na barriga, projetando famílias e felicidades, nunca era correspondida à altura.

Tive, sim, a cota de requisição masculina enquanto estava na escola. A sutil popularidade era reflexo da minha devoção intelectual aos menos favorecidos. Eu era craque em fazer os deveres do mocinho por quem tivesse sentimentos em cada momento da minha trajetória estudantil, mostrando que não há limites para a subserviência de um coração quente. De primeira a quarta série era o Pedro quem tinha o caderno mais completo – e correto, diga-se de passagem. De quinta a oitava variei entre as tarefas do Rafael, do Marcos e do Juninho.

Foram períodos de indecisão, confesso. Pré-adolescência nível hard. Certeza que você me entende.

Foi a partir do primeiro ano que criei vergonha na cara. Colecionando amores não-correspondidos e professores admirados com minhas habilidades, passei a fazer as tarefas apenas de quem me pagasse para isso. E, agora, você deve estar pensando:

- Que criminosa! Praticando falsidade ideológica desde cedo! É por isso que o Brasil não vai pra frente...

Eu, Alice D., 15 anos, nerd e intelectualmente prostituída.

Mas guarde suas críticas, chapa. Apesar das intenções erradas, os fins não precisaram de justificativa nenhuma dos meios. Ninguém nunca me pagou um centavo para nada. Não coloquei nenhuma moeda no porquinho, mas aprendi a valorizar meus esforços para agradar aos homens.

Teoria do AmorWhere stories live. Discover now