Capítulo 19

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Hero
Eu sabia que as mulheres às vezes trocam de humor sem aviso.  Eu até conhecia algumas que se perdiam em pensamentos imaginando trinta anos no futuro e ficavam bravas por alguma coisa que eu supostamente faria.  Mas não era isso que parecia estar acontecendo com a Josephine, e ela nunca foi esse tipo de mulher.  Já tinha visto ela brava antes.  Inferno, já tinha visto ela brava de todo jeito possível: irritada, irada, raivosa, quase violenta. Mas nunca a vira machucada.  Ela se enterrou em documentos na curta viagem até o aeroporto. Depois pediu licença e se afastou para ligar para seu pai enquanto esperávamos no portão de  embarque. No avião, ela adormeceu quase instantaneamente, ignorando minhas insinuações para nos encontrarmos no banheiro do avião para uma sessão de  sexo nas alturas. Ela ficou acordada apenas tempo suficiente para recusar o  almoço, mesmo não tendo comido nada desde o café  da manhã. Quando acordou durante a aterrissagem, ficou encarando a janela em vez de olhar para mim.  – Você vai me dizer qual é o problema?  Ela não disse nada durante uma eternidade e meu coração começou a acelerar.  Tentei pensar em todos os momentos em que eu poderia ter estragado tudo. Sexo com a Jo na cama. Mais sexo com a Jo. Orgasmos para a Jo. Ela teve  vários orgasmos, para ser honesto. Então achei que não era esse o problema. Eu tinha acordado, tomado banho, basicamente confessado meu amor. Saguão do hotel, Gugliotti, aeroporto.  Parei.  A conversa com Gugliotti tinha me deixado um pouco mal. Eu não sabia por que tinha agido como um idiota possessivo, mas não podia negar que a Josephine causava isso em mim. Ela fora ótima na reunião, como eu sabia que seria, mas eu nunca deixaria ela dar um passo para trás na carreira, indo trabalhar com um cara como o Gugliotti depois que terminasse o MBA. Ele  provavelmente a trataria como um pedaço de carne e ficaria olhando o dia todo para sua bunda.
– Eu ouvi o que você disse – sua voz soou tão quieta que eu demorei um pouco para entender que ela tinha falado algo, e demorei mais ainda para processar o que ela tinha dito. Meu estômago se revirou.
– O que eu disse quando?  Ela sorriu, virando o rosto para finalmente olhar para mim. E, que droga. Ela estava chorando
– Para o Gugliotti .
– Eu pareci possessivo. Desculpe.
– Você pareceu possessivo... – ela murmurou, virando de novo para a janela.
– Você me menosprezou... você me fez parecer ingênua! Você agiu como se a reunião fosse apenas um exercício de treinamento. Eu me sinto ridícula pela maneira como descrevi a reunião para você ontem, pensando que tinha sido algo importante.  Coloquei a mão em seu braço, rindo um pouco.
– Caras como o Gugliotti possuem egos frágeis. Ele precisa sentir que os executivos estão escutando o que ele diz. Você fez tudo que precisávamos. Mas  ele acha que precisa receber o contrato oficial das minhas mãos.
– Mas isso é absurdo. E você perpetuou isso, me usando como um peão.  Eu pisquei, confuso. Eu fizera exatamente o que ela falou. Mas é assim que se joga o jogo, não é?
– Você é minha estagiária.  Uma risada ríspida escapou de seus lábios e ela se virou novamente para mim.
– Certo. Pois esse tempo todo você sempre se importou com o progresso da minha carreira.  – É claro que sim.
– E como você sabe que eu preciso amadurecer? Até ontem, você mal tinha olhado para meu trabalho.
– Isso não é nem um pouco verdade – balancei a cabeça, começando a ficar um pouco irritado.
– Eu sei disso porque observo tudo que você faz. Não quero colocar pressão demais pedindo para você fazer mais do pode agora, e por isso estou mantendo o controle da  conta do Gugliotti. Mas você fez um ótimo trabalho lá, e fiquei muito orgulhoso de você.  Ela fechou os olhos e deitou a cabeça no encosto do assento.
– Você me chamou de "menina".
– Chamei? – tentei lembrar da conversa e percebi que ela estava certa.
– Acho que eu não queria que ele olhasse para você como uma mulher de negócios  supergostosa que ele poderia contratar e depois tentar levar para a cama.
– Deus, Hero. Você é tão idiota! Talvez ele quisesse me contratar porque eu trabalho bem!
– Eu peço desculpas. Estou agindo como um namorado possessivo.
– Essa coisa de namorado possessivo não é nova para mim.  O problema é que você está agindo como se tivesse feito um favor para mim. Você está sendo  condescendente. Acho que agora não é o melhor momento para entrarmos em mais dessa interação típica estagiária-chefe.
– Eu já disse que acho que você fez um trabalho incrível na reunião.  Ela me encarou e seu rosto começou a ficar vermelho.
– Você nunca teria dito isso antes. Você teria dito "Bom. Agora volte ao trabalho". E só. E com o Gugliotti você agiu como se eu fosse sua protegida. Antes, você teria fingido que nem me  conhecia.
– A gente precisa mesmo discutir por que eu era um idiota antes? Você também não era exatamente a garota mais agradável do mundo. E por que lembrar disso agora?
– Eu não estou falando sobre como você era um idiota antes. Estou falando sobre como você está agindo agora. Você está tentando compensar. É exatamente por isso que não se deve transar com o seu chefe. Você era um bom chefe antes...  deixava eu fazer as minhas coisas e você fazia as suas. Agora você se transformou no mentor sensível que me chama de "menina" depois de eu salvar  a sua pele? Inacreditável.
– Josephine...
– Eu posso lidar com você sendo um grande estúpido, Hero. Estou acostumada, até espero isso. É assim que nós funcionamos. Porque debaixo de todas as caras feias e batidas de porta, eu sabia que você me respeitava. Mas a maneira como você agiu hoje... coloca uma nova barreira que antes não existia – ela balançou a cabeça e voltou a olhar pela janela.
– Acho que você está exagerando.
– Talvez – ela disse, inclinando-se para pegar o celular na bolsa
– Mas trabalhei muito duro para chegar onde cheguei... será que estou arriscando tudo isso agora?
– Podemos ter as duas coisas, Josephine. Por mais alguns meses, podemos trabalhar juntos e ficar juntos. Isso que está acontecendo hoje? Isso faz parte do  amadurecimento de uma relação.
– Não estou tão certa disso – ela disse, piscando e olhando para o nada.
– Estou só tentando fazer a coisa certa, Hero. Nunca questionei meu próprio valor antes, mesmo quando pensei que você podia estar questionando. E então, eu achei que você tinha enxergado quem eu realmente sou, mas depois você me menosprezou daquele jeito... – ela levantou a cabeça, mostrando a dor em seu olhar.
– Acho que não quero começar a questionar a mim mesma agora. Depois de trabalhar tão duro assim.  O avião aterrissou com um forte solavanco, mas que não me abalou tanto quanto as palavras que ela disse. Eu já liderara discussões com os chefes de alguns dos maiores departamentos de finanças do mundo. Já tinha encarado executivos que pensavam que poderiam passar facilmente por cima de mim. Eu poderia discutir com aquela mulher até o fim dos dias e me sentir mais homem a cada palavra. Mas naquele momento eu não conseguia encontrar uma única palavra para dizer.  Dizer que eu não consegui dormir naquela noite seria um eufemismo. Eu não consegui nem deitar direito. Cada superfície plana parecia ter a marca da Josephine, apesar de ela nunca ter entrado na minha casa. Só o fato de termos conversado sobre isso – e eu ter planejado trazê-la ali em nossa primeira noite após a viagem – me fazia sentir sua presença em todo lugar.  Eu liguei para ela, mas não obtive resposta.  Certo, eram três da manhã quando liguei, mas eu sabia que ela também não estava dormindo. Seu silêncio era agravado porque eu sabia que ela sentia o mesmo que eu. Eu sabia que ela estava nisso tão profundamente quanto eu. Mas  ela devia pensar o contrário. Parecia faltar uma eternidade para o amanhã chegar.  Cheguei ao trabalho às seis horas, com intenção de entrar antes que ela chegasse.  Peguei café para nós dois e atualizei minha agenda para poupá-la desse trabalho.  Enviei o contrato para Gugliotti por fax, dizendo que a versão que ele viu em San Diego era a final, e que o que a Jo tinha apresentado estava valendo. Dei a ele dois dias para retornar as assinaturas.  E então, esperei.  Às oito horas, meu pai entrou no escritório, com Allen acompanhando-o logo atrás. Era comum ver meu pai de cara fechada, mas raramente era por minha causa. E Allen nunca parecia irritado. Mas desta vez os dois pareciam querer  me matar.
– O que você fez? – meu pai jogou uma folha de papel na minha mesa.  Meu sangue parecia ter se transformado em gelo.
– O que é isso?
– É a carta de demissão da Josephine. Ela entregou para a Regina hoje de manhã.  Passou-se um minuto inteiro antes que eu conseguisse falar. Nesse tempo, o único som veio do meu irmão, dizendo:
– Hero, cara. O que aconteceu?
– Eu estraguei tudo – eu disse, pressionando meus olhos com as mãos.  O rosto do meu pai voltou ao normal e ele se sentou – na mesma cadeira em que, nem um mês antes, a Jo também sentara, abrira as pernas e começara a se tocar, enquanto eu tentava manter a compostura ao telefone.  Deus, como deixei a situação chegar a isso?
– Diga o que aconteceu – a voz do meu pai se tornou muito baixa: uma calmaria antes da tempestade. Afrouxei minha gravata, pois sentia que estava sufocando com o peso do meu próprio peito.  A Josephine me deixou.
– Estamos juntos. Ou estávamos.  Allen gritou "Eu sabia!" e meu pai gritou "Você o quê?".
– Mas não antes de San Diego – eu disse, tentando acalmá-los
– Antes de San Diego nós estávamos apenas...
– Transando? – completou Allen, recebendo um olhar duro do meu pai.
– Sim. Estávamos apenas...  Uma pontada de dor parecia perfurar meu peito.  Sua expressão quando eu me inclinava para beijá-la. A maneira como eu tomava seu lábio entre os dentes. Sua risada em minha boca.
– E, como vocês dois sabem, eu era um idiota. Mas ela retribuía na mesma moeda – eu disse. – E, em San Diego, aquilo se transformou em algo mais.  Merda – estiquei o braço para pegar a carta, mas desisti.
-Ela pediu mesmo demissão?  Meu pai assentiu, com uma expressão totalmente enigmática no rosto. Esse era seu superpoder: quanto mais emocional estivesse, menos emoções ele mostrava.
– É por causa disso que temos nossa política de fraternização, Hero – ele disse, atenuando a voz ao pronunciar meu nome.
– Achei que você era mais esperto do que isso.  – Eu sei – esfreguei as mãos em meu rosto, fiz um gesto para Allen se sentar e então contei todos os detalhes de quando tive aquela intoxicação alimentar, da  reunião com Gugliotti e de como a Josephine cuidara muito bem de tudo. Deixei claro que tínhamos basicamente decidido ficar juntos, antes de eu encontrar  Gugliotti na frente do hotel.
– Você é um filho da puta tão estúpido – disse meu irmão quando terminei de falar. Eu só pude concordar. Após um duro sermão e a promessa de que  discutiríamos novamente todas as maneiras como eu estragara tudo, meu pai voltou ao seu escritório, para pedir que ela trabalhasse com ele até o fim  do estágio. Se a Josephine decidisse continuar na empresa após o estágio, ela poderia facilmente se tornar um dos membros mais importantes de nossa equipe de  marketing. Mas a preocupação do meu pai não era apenas com a Fiennes-Tiffin Media.  Acontece que, se a Josephine fosse embora, ela teria menos de três meses para encontrar um novo estágio, aprender o trabalho e preparar um novo projeto para  apresentar à banca examinadora. Por causa da influência da banca na faculdade de administração, a avaliação da empresa seria determinante para Josephine se  graduar com honras e receber uma carta de recomendação do CEO da JT Miller.  Isso poderia alavancar ou destruir o começo de sua carreira.  Allen e eu ficamos sentados em completo silêncio. Ele me encarava e eu olhava para a janela. Quase podia sentir o quanto ele queria dar um chute no meu traseiro. Meu pai voltou ao meu escritório, pegou a carta de demissão e a dobrou três vezes. Eu ainda não tinha sido capaz de ler. Era uma carta digitada e, pela primeira vez desde que conhecera Josephine , eu queria ver aquela caligrafia  ridícula dela ao invés de uma folha impressa e impessoal com fonte Times New Roman.
– Eu disse que esta empresa a valoriza muito, que esta família a ama e que nós queremos que ela fique – meu pai parou e seus olhos caíram sobre mim.
– Ela  disse que isso era mais uma razão para querer se tornar independente. Chicago se  tornou um universo alternativo, no qual Billy Sianis nunca amaldiçoara os Cubs, a  Oprah nunca existira e a Josephine Langford não trabalhava mais para a Fiennes-Tiffin Media.  Ela se demitira.  Ela se afastara de um dos maiores projetos da Fiennes-Tiffin Media.  Ela se afastara de mim.  Tirei os arquivos da Papadakis de sua gaveta. O contrato fora preparado pelo departamento legal enquanto estávamos em San Diego, só era preciso assinar. A Josephine poderia passar os dois últimos meses de seu MBA aperfeiçoando sua apresentação para a banca examinadora. Em vez disso, ela começaria tudo de  novo em outra empresa.  Como ela podia ter aguentado tudo que eu fiz antes, mas desistir agora? Era mesmo tão importante eu a tratar como uma igual com um homem como o  Gugliotti? Ela sacrificaria tudo entre nós por causa disso?  Com um gemido, suspeitei que o motivo para eu fazer essas perguntas era também o motivo para ela me deixar. Pensei que seria possível manter nossa  relação e nossas carreiras, mas isso era porque eu já tinha provado o meu valor.  Acontece que ela ainda era a estagiária. Tudo que ela queria era a minha garantia de que sua carreira não sofreria por causa de nossa imprudência. Mas  fiz exatamente o contrário.  Fiquei surpreso por o escritório não estar pegando fogo com a história do que eu tinha feito, mas parecia que apenas meu pai e Allen sabiam. A Josephine sempre guardou nosso segredo. Eu me perguntei se a Regina sabia e se ela ainda falava  com a Josephine .  Logo tive uma resposta.  Alguns dias após Chicago mudar, a Regina entrou na minha sala sem bater na porta.
– Essa situação é completamente idiota.  Levantei os olhos, baixei o contrato que estava lendo e encarei seu rosto tempo o  bastante para ela estremecer. Então eu disse:  – Quero lembrar a você que essa situação não é da sua conta.
– Como amiga dela, é sim.
– Como funcionária da Fiennes-Tiffin Media, e como funcionária do Allen , não, não é.  Ela me encarou por um momento e então assentiu
– Eu sei. Eu nunca contaria a ninguém, se é isso que você está dizendo.
– É claro que é isso que estou dizendo. Mas também estou falando sobre seu comportamento. Não quero ver você invadindo minha sala sem bater.  Ela pareceu arrependida, mas não se abalou com meu olhar severo. Comecei a entender por que ela e a Jo eram tão amigas: as duas tinham temperamento  forte e eram ferozmente leais.  – Entendido.
– Posso perguntar por que você está aqui? Você falou com ela?
– Sim.  Esperei. Eu não queria pressioná-la para se tornar minha confidente, mas Deus, eu queria apertar aquele pescoço para arrancar cada detalhe que ela sabia
– Ela recebeu uma oferta de emprego na Studio Marketing.  Soltei um suspiro tenso. Era uma empresa decente, mesmo que pequena. Uma empresa que estava crescendo e que tinha alguns bons executivos juniores, mas verdadeiros filhos da puta no topo.
– Com quem ela está trabalhando?
– Um cara chamado Julian.  Fechei os olhos para esconder minha reação. Troy Julian fazia parte do nosso conselho: era um egocêntrico com fama de ir atrás de garotas jovens. A Josephine sabia disso. No que então ela estava pensando?  Pense, seu idiota.  Ela provavelmente estava pensando que Julian teria os recursos para lhe dar um  projeto substancial, que ela poderia apresentar em três meses.
– Qual é o projeto dela?  A Regina andou até a porta e a fechou.
– Comida de cachorro da Sanders.  Dei um soco na mesa. A fúria tomou conta da minha mente e fechei os olhos para me controlar e não descontar na assistente do meu irmão.
– Essa é uma conta muito pequena.
– Ela é só uma estudante de MBA, sr. Fiennes . É claro que é uma conta pequena. Apenas alguém apaixonado deixaria ela trabalhar num contrato milionário de dez anos – sem olhar de volta para mim, ela se virou e foi embora.  A Josephine não atendia o celular ou o telefone de casa, nem respondia qualquer e-mail meu. Ela não me ligou, não passou no escritório e nem deu nenhuma  indicação de que queria falar comigo. Mas, quando seu peito dói tanto que você nem consegue dormir, você acaba fazendo coisas como procurar o endereço da sua estagiária, dirigir até  lá às cinco da manhã de um sábado e esperar ela sair.  E, quando ela não apareceu após quase um dia inteiro, eu convenci o porteiro do prédio dizendo que era seu primo e que estava preocupado com sua saúde. Ele me acompanhou até o apartamento e ficou atrás de mim enquanto eu batia na  porta.  Meu coração estava quase saindo pela boca. Ouvi alguém se mexendo lá dentro, se aproximando da porta. Eu podia praticamente sentir seu corpo a centímetros do meu, separados apenas pela madeira. Pude ver uma sombra se movendo  através do olho mágico.  E então, o silêncio.
– Jo,meu amor.  Ela não abriu a porta. Mas também não se afastou.
– Linda, por favor, abra a porta. Preciso conversar com você.  Após o que pareceu uma hora, ela disse:
– Não posso, Hero.  Encostei minha testa na porta e pousei as duas mãos na madeira. Ter superpoderes seria útil ali. Mãos de fogo, sublimação, ou até mesmo a habilidade de encontrar a coisa certa para dizer. Mas agora, isso parecia impossível.
– Desculpe.  Silêncio.
– Jo... Deus. Eu já entendi, certo? Brigue comigo por ser um tipo novo de idiota. Diga para eu ir me foder. Faça isso do jeito que quiser... só não desapareça.  Silêncio. Ela ainda estava ali. Eu podia sentir.
– Sinto sua falta. Merda, eu sinto muito a sua falta. Sinto demais.
– Hero, só... agora não, certo? Não posso fazer isso agora.  Ela estava chorando? Eu odiava não saber.
– Ei, amigo – o porteiro definitivamente soava como se aquele fosse o último lugar em que ele queria estar, e dava para perceber que estava irritado por eu ter mentido.
– Não era por isso que você queria subir. Ela parece bem. Vamos embora.  Fui para casa e comecei a beber uísque. Por duas semanas, fiquei jogando sinuca em um boteco e ignorei minha família. Disse que estava doente e só saí da cama  ocasionalmente para pegar uma tigela de cereal, encher meu copo ou usar o banheiro, onde olhava para meu reflexo e mostrava o dedo do meio para mim  mesmo. Eu estava na pior e, como nunca experimentara nada assim antes, não fazia ideia de como sair dessa.  Minha mãe apareceu com algumas compras de supermercado e as deixou na minha porta.  Meu pai enviou mensagens diárias com atualizações do trabalho.  A Ana trouxe mais uísque.  Finalmente, Allen apareceu com a única cópia das chaves da minha casa, derramou um balde de água fria na minha cabeça e então me deu um pouco de  comida chinesa. Acabei comendo quando ele ameaçou colar fotos da Jo nas paredes da minha casa se eu não saísse logo dessa e voltasse ao trabalho.  Durante as semanas seguintes, a Regina começou a suspeitar que eu estava ficando maluco e que precisava de uma atualização semanal. Ela manteve tudo em nível profissional, contando como a Josephine estava se saindo no novo emprego com Julian. Seu projeto caminhava bem. O pessoal da Sanders a adorava. Ela mostrara a campanha para os executivos e recebera o aval deles. Nada disso me surpreendeu. A Josephine era de longe melhor do que qualquer pessoa que trabalhava para eles.  Ocasionalmente, Regina deixava escapar algo a mais. "Ela voltou a frequentar a academia", "Ela parece melhor", "Ela cortou o cabelo um pouco mais curto e ficou muito bonito", "Saímos com o pessoal no sábado à noite. Acho que ela se divertiu, mas foi embora cedo".  Porque estava com alguém? , eu me perguntei. Então, afastei esse pensamento.  Eu não poderia nem imaginar sair com outra pessoa. O que tivemos fora algo muito forte, e eu tinha quase certeza que ela também não estava saindo com  mais ninguém.  As atualizações nunca eram suficientes. Por que a Regina não tirava umas fotos escondida com o telefone? Eu tinha esperança de esbarrar na Josephine em uma loja ou na rua. Entrei na La Perla algumas vezes. Mas não a vi durante dois meses.  Um mês passa voando quando você está se apaixonando pela mulher com quem está transando. Dois meses se tornam uma eternidade quando a mulher que você ama te deixa para trás.  Então, quando o dia da apresentação da Jo se aproximou e a Regina disse que  ela estava preparada e lidando com o Julian com mãos de ferro, mas que ao mesmo tempo parecia "triste e menos como ela mesma", eu finalmente tomei  coragem.  Sentei à minha mesa, abri o PowerPoint e o arquivo da Papadakis. Ao meu lado,  o telefone tocou. Considerei não atender, pois queria me concentrar apenas naquilo.  Mas era um número desconhecido, e uma grande parte do meu cérebro queria  pensar que poderia ser a Jo.
– Aqui é o Hero Fiennes .  A risada de uma mulher ecoou do outro lado da linha.
– Lindo, você é mesmo um Cretino Irresistível.

Cretino irresistívelLeia esta história GRATUITAMENTE!