Capítulo II - Episódio 6

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— A música é feita de padrões. Esses padrões podem ser quebrados, você não precisa segui-los, só se sentir à vontade com a melodia que está compondo. Entretanto, em geral, seguir essa regra da harmonia fará com que sua música seja bela e amada por quem estiver ouvindo... está me escutando?

— Sim, mestre!

Mas ela não estava. Ela estava sentindo o vento, admirando o mar e ouvindo os farfalhares das árvores. Era tão perfeito estar em um lugar tão belo.

— Certo. Posto que entendemos a melodia, vamos dividir as músicas em trechos. Podemos compor alguns grupos de sons que simbolizam alguma coisa e depois organizamos esses trechos. Por exemplo, vamos compor três trechos. Depois tocaremos o primeiro duas vezes, o segundo uma vez, o primeiro mais duas vezes e terminamos com o terceiro trecho... ei, você está me escutando?

— Me... me desculpe.

— Eu sei que já entende muito de música. Isso é nato em você, mas o que estou tentando te ensinar aqui vai além de sons. Se queres aprender, tens que prestar atenção.

Jazz acordou de seu sono quando a carroça bateu contra o chão irregular. O sol estava nascendo e o carroceiro avançava pela estrada de pedra que serpenteava por campos verdes e férteis.

O sonho trouxe um sentimento nostálgico que fez aquele dia lindo nascer triste para Jazz. A lembrança de seu antigo professor de flauta seria um pensamento bom, se não fosse pelo pior período da vida dela. Aquele período que todos passam após a infância e perdem o foco nas coisas importantes da vida.

Seu mestre sempre falava, mas Jazz nunca ouvia. Se não tivesse tanta facilidade com a flauta, jamais tocaria o instrumento tão bem.

— Que belo esse lugar — quebrou o silêncio da manhã. — Chegaremos hoje a Rota do Mato?

— Logo... sim — respondeu o carroceiro que parecia cochilar com as rédeas na mão. — Na verdade só não parei para o café porque logo chegaremos na encruzilhada.

E quando chegaram, o carroceiro aproveitou para fazer fogo, esquentar a água e fazer comida. Ambos fizeram uma boa refeição, e depois, como presente de despedida, Jazz tocou a flauta pela última vez para o carroceiro.

E então, se despediram.

Jazz seguiu para o sul até encontrar a Rota do Mato. Conseguiu carona com fazendeiros locais, e foi com o último que teve a conversa que a fez entender o que estava acontecendo por ali.

— Hey, senhor! — chamou a atenção depois de um longo tempo montada em um cavalo junto de um dos fazendeiros. — Estamos muito longe?

— Não, senhorita. Estamos bem perto. Olhe aquelas fumaças, lá é o centro da cidade.

— Estranho, meu pai sempre me contou histórias sobre esse lugar. Achei que encontraria uma floresta infinita.

— Se você viesse antes da Onda, você encontraria. Aqui onde estamos andando, já estaríamos imersos em uma densa floresta.

Jazz observou com mais detalhes os locais que hoje eram grandes fazendas. Entre as plantações de trigo e de milho, muitos tocos de árvores estavam ali, ainda não arrancados da terra, mas com a planta morta há muito tempo.

— A Onda causou isso? Achei que ela não tinha vindo até aqui.

— A Onda não, foi o homem. Desde que a escravidão foi sancionada, os líderes locais demitiram todos os madeireiros e colocaram escravos no lugar. Só que os escravos não sabem plantar, eles só arrancam. Esse lugar jamais será a Rota do Mato que eu conheci.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora