Capítulo II - Episódio 5

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Nas sombras da vida, o soldado navegava por corredores escuros e sombrios. Não eram paredes que o impedia de seguir em outras direções, mas sim, uma neblina forte e densa, tão densa quanto água.

O caminho era linear e pouco iluminado, mas distante, entre as brumas, podia ver uma única fonte de luz que lhe chamava, quase de maneira cativante. Como se estivesse apaixonado pelo brilho que enxergava.

Correu em direção a ela e quando se aproximou, ouviu seu chamado. Mas ouviu em uma língua que não soube entender.

E antes que pudesse dizer algo, acordou sentindo seu corpo inteiro arder.

Gemeu e se retorceu sob as cobertas, sentindo o corpo fraco e dolorido. Girou os olhos para perceber onde estava e percebeu que era uma barraca de campanha.

— Pneumotórax — disse uma voz grave vindo de uma direção que não podia enxergar.

— O que? — tentou perguntar, mas a voz saiu rasgando e a força de seus pulmões estava fraca.

— Pneumotórax traumático! — repetiu a voz, agora mais animado. Ao seu lado, surgiu um homem forte e de barbas brancas. Seu olhar era cativante, mas mostrava profunda preocupação. Ele vestia roupas casuais e segurava um tubo em sua mão.

— Bart...

Anthony tentou levantar e sentar na cama, mas a fraqueza se mostrou ainda mais agressiva.

— Descanse, Tony — disse o homem. — Você ainda não está bem.

— Preciso sentar. Estou me sentindo uma planta deitado aqui.

— É, quase o que você se tornou...

Os dois se fitaram por um momento e então, Anthony riu com o canto da boca.

— Você não tem compaixão comigo mesmo, não?

— Isso te faz crescer, já te disse isso.

Por fim, se abraçaram.

— Estou um pouco velho para estudar... e para a guerra, me parece.

— Nossa juventude se foi há muito tempo, Tony. As guerras que passamos juntos pareciam mais fáceis e mais simples.

— Sim. Humilhávamos os Terras-Ruins no campo de batalha. Mas agora...

Bart olhou para trás e fitou a mesa do outro lado da barraca. Anthony seguiu o olhar do companheiro e encontrou uma coisa que fez seu corpo arrepiar e seu peito doer. A imagem de um "cospe-fogo", muito parecido com o da vaga lembrança que tinha em seus últimos momentos da última batalha.

A dor em seu peito quase o fez deitar novamente. Enfiou a mão sob a atadura e encontrou a marca do tiro, já levemente cicatrizada.

— Vai doer — disse Bart, fazendo um gesto com a mão. — O seu médico falou que não conseguiu tirar a bala. Vamos torcer para não piorar. Aliás, bom esse seu médico. Sem sua equipe de suporte talvez não tivesse sobrevivido.

— Escolho os melhores, Bart. Mas agora... o que faz aqui? Achei que estava no passo.

— Tive que retornar... depois... da sua gafe.

Anthony sentiu seu peito arder mais uma vez, mas dessa vez não foi a ferida, foi sua alma. Um sentimento de humilhação tomou conta de seu ser.

Bart fazendo o que mais sabe fazer.

— E qual foi o resultado?

Bartholomeu andou até o outro lado da tenda onde havia uma grande caixa de madeira, abriu lentamente e tirou uma garrafa de lá. Ao arrancar a rolha, um estouro fez o corpo de Anthony tremer e logo sentiu o cheiro de álcool. Depois, serviu dois copos pequenos de vinho, que pela textura, só poderia ser um imperia.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora