Capítulo 9

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A chegada da cozinheira nova causou um alvoroço que Samantha não previu. Alguns criados, por conhecerem a mulher, se recusaram a continuar trabalhando no mesmo ambiente que ela. O ambiente se tornou caótico quando insultos e acusações começaram a ser jogados na Srta. Clark.

― Eu não vou trabalhar com uma meretriz. ― Uma criada, a Sra. Clemmens, praticamente gritava, incentivando outras companheiras a fazer o mesmo.

― O que está acontecendo aqui? ― O mordomo entrou na cozinha, preocupado, ao escutar os gritos.

― Essa mulher é uma prostituta, ela nem devia estar aqui, senhor. ― A mulher cuspiu nos pés da Srta. Clark em sinal de total desprezo. ― Não devemos ter mulher desse tipo perto de nós.

― Ela dorme com o demônio. ― Outra acrescentou fazendo as mais próximas da recém-chegada se afastarem como se estivessem sendo queimados.

― A mulher que você mandou chamar é uma prostituta? ― O mordomo olhou para Samantha surpreso com aquela informação.

― Não sou mais uma prostituta, senhor. ― A mulher se defendeu.

― Mas foi uma. ― Outra mulher a acusou. ― Mulher suja. Pecadora.

O mordomo olhou para Samantha com o olhar indecifrável.

― Resolva isso antes do Barão retornar. ― Em seguida, o homem deu as costas e se retirou.

Ao ver a confusão que estava causando, a Srta. Clark olhou para Samantha com tristeza no olhar, mas não parecia surpresa com aquela confusão.

― Senhora, é melhor que eu me vá, caso contrário a confusão não cessará. Obrigada por ter me chamado, mas vemos que não dará certo.

Provavelmente, ser insultada e desprezada era uma situação comum para a cozinheira, mas não para Samantha. Ela não permitiria aquilo naquela casa. Seria a governanta situações como aquela jamais se tornariam corriqueiras se dependesse dela.

― A senhorita não irá a lugar algum. ― Samantha ergueu a voz acima de todos, impedindo que a cozinheira desse mais um passo em direção a saída. ― Não acredito que vocês se dizem cristãs. ― Ela olhou furiosa para as outras mulheres que estavam na cozinha. ― Vocês nem mesmo servem a Cristo, ao agir dessa forma. Não passam de hipócritas que apenas usam o nome dEle para apontarem o pecado dos outros na tentativa de esconder os seus. A Srta. Clark veio aqui para trabalhar, e vocês também. Apenas a Deus pertence o seu julgamento, o que ela fez ou deixou de fazer é entre ela e Deus e pelo que vejo ele não está em nenhuma de vocês, pois enquanto apontam o dedo para ela, se recusando a trabalharem em conjunto, a bíblia ensina que Jesus acolheu a pecadora, perdoo-lhe suas faltas e a fez sentir-se amada por ele. Onde está o amor de vocês? "Amai-vos uns aos outros" é o mandamento de Cristo, uma frase simples e direta, sem exceções, devemos amar todos. Eu não vi nenhuma passagem bíblica onde Jesus aponta o dedo para um pecador e o acusa de seus pecados, muito menos alguma passagem onde ele recusa permanecer entre os pecadores. E se Jesus que é Deus não fez isso, porque vocês se acham no direito de fazer? Por acaso são melhores que Deus?

As mulheres quase todas ficaram de cabeça baixa, envergonhadas pelas atitudes que tiveram. Samantha olhou uma por uma, até que encontrou o olhar da Sra. Clemmens.

― Não somos melhores que Deus, mas há um ditado que diz: fruta podre do meio de fruta boa, apodrece todo resto. ― A mulher continuou firme na decisão de insultar a cozinheira. ― Se for para trabalhar com essa meretriz eu irei embora.

― Estará fazendo um favor ao ir embora, não a quero semeando o ódio entre os criados. A porta está aberta. ― Samantha apontou para a saída. ― E quem mais quiser ir embora esteja a vontade, mas a cozinheira fica.

Três outras mulheres seguiram a Sra. Clemmens que bufava de raiva rumo a saída. As demais mulheres permaneceram na cozinha, ainda cabisbaixas e envergonhadas pela atitude.

― Eu não tolerarei qualquer insulto para com a Srta. Clark. ― Samantha foi firme naquela decisão. Jamais toleraria algo daquele nível para com outra mulher. ― Eu fui clara?

― Sim, senhora. ― Elas responderam em uníssono.

― Então voltemos ao trabalho. 

***

Samantha passou o restante da tarde entre a cozinha e o salão, ora organizava o local principal onde seria realizado o baile, ora ia à cozinha supervisionar o andamento das coisas e conferir se todos estavam tratando bem a nova cozinheira.

Quando finalmente pode parar um pouco, Samantha esticou a coluna, na tentativa de amenizar o a dor causada pelo cansaço e por andar tanto de um lado para o outro resolvendo os problemas que aconteciam. Faltava uma hora para o inicio do baile, e Samantha precisava ao menos se vestir mais adequadamente, e um banho quente seria uma regalia que adoraria usufruir. Entretanto, teria que se conformar com um rápido banho gelado, uma vez que não tinha tempo para se permitir ter aquele luxo.

Direcionou-se para seu quarto o mais rapidamente que suas pernas já cansadas e doloridas, permitiram. Entrou em seus aposentos e, após trancar a porta, seguiu para sua cama.

Cinco minutos de descanso não seria um pecado tão grande.

O quarto estava levemente escuro, uma vez que o sol estava se pondo e ela ainda não havia acendido nenhuma das velas que iluminariam o ambiente. Não se importou, já conhecia a disposição dos móveis e dificilmente erraria a direção a ser tomada para que chegasse à cama.

Aproveitando os minutos de paz, jogou-se na cama, mas em vez de sentir embaixo de si os lençóis macios e gélidos, sentiu-se cair em algo diferente. Confusa com o que estava embaixo de si, Samantha levantou-se e foi até o criado mudo, onde pegou uma vela.

Ao ter o ambiente iluminado, a moça pode ver em cima de sua cama um vestido verde e ao seu lado uma máscara e um pedaço de papel. Era um bilhete.

Você inventou esse maldito baile, não passarei por isso sozinho. Vista-se e me encontre no salão. Lembre-se de por a máscara.

O bilhete não tinha assinatura, mas tampouco era necessária. Samantha sabia que aquilo tinha sido enviado por Montress. Pegou a máscara nas mãos e notou que ela combinava perfeitamente com o vestido. Ficou curiosa: Não era um baile de máscaras, porque ela usaria uma? Entretanto, por saber que a máscara lhe permitiria não ser reconhecida, faria o que o barão pediu.

Pegou o vestido nas mãos e sentiu o toque da seda, da musselina e da delicada renda no corpete. Fazia tempo que não tocava em algo tão belo. Sorrindo e suspirando encantada, a mulher rodopiou abraçada com o vestido.

Apesar do cansaço, a ideia de participar do baile como qualquer outra mulher convidada a animou. Poderia até dançar com alguns dos cavalheiros que participariam do baile.

A alegria deu-lhe um novo ânimo para aguentar o restante da noite. Seria ainda mais cansativo, e sabia que, no dia seguinte, iria amanhecer completamente dolorida, mas não se importaria, só queria aproveitar o baile.

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