Cemitério de rosas CAPITULO XIII

10 1 2

Aquela noite na cripta havia sido a mais longa de todas. Enquanto Emmet olhava para baixo do mezanino, direcionando seus olhos negros para a face de Egbert, a chama trêmula e fraca de uma vela iluminava uma parte de seu rosto. Em sua mão, segurava a chave, a qual antes Egbert havia perdido. O jovem lhe questionou, como se estivesse diante de um ilusionista — Como a encontrou? — Ele esticou seu braço e abriu seu palmo deixando-a cair em frente aos seus pés — Você estava tão distraído que a esquecera na fechadura do lado de dentro —Mesmo frustrado por falhar em guardar seu segredo, Emmet não estava com raiva, talvez por não possuir mais tamanha desconfiança em seu assistente, ou talvez, por que no fundo já estivesse farto de segredos. O coveiro já percebera há muito tempo a presença de Egbert, esgueirando-se como um rato entre os cantos, mas mesmo com isso, manteve-se calado até então. O silencio foi quebrado com mais uma pergunta — Por que você mantinha a chave no relógio? — Enquanto lhe respondia, descia as escadarias em espirais, a cada degrau que percorria se ouvia o eco de seus passos barulhentos — Porque se eu encontrasse a morte, ninguém poderia tomá-la de meu bolso — Já no andar inferior, Emmet, com um gesto sutil, colocou seus cabelos atrás de seu ombro, enquanto avaliava a face ligeiramente assustada de Egbert — E de quem é o corpo no altar? — Ele olhou para ela, mesmo que soubesse de quem estava falando — É de alguém que morreu há muito tempo, alguém que pode ouvir minhas palavras e entender os meus anseios, mesmo que não possa me responder — Neste momento, o olhar de Emmet se estendeu para longe, como se mergulhasse em lembranças antigas enquanto falava — O destino dos homens é algo enigmático e nossa busca por nossa serenidade é confusa. Só damos valor ao que comemos após conhecermos a fome, damos valor a calmaria quando conhecemos a tormenta, damos valor a sanidade quando conhecemos a demência, e acima de tudo, somente damos valor a vida quando conhecemos a morte. Talvez por isso, preciso cavar covas, enterrar os mortos, olhar para eles, olhar para a morte para me sentir vivo. Preciso disto como um alcoólatra precisa de bebida. É assim que faço todas as noites e continuarei fazendo até o meu fim, quando me juntarei a eles, para descansar em meu sono eterno, sem sonhos, sem lembranças e sem dor — Era como se seu comportamento indiferente tivesse se esvaído, como se a máscara que vestira por tanto tempo, não lhe coubesse mais, suas palavras agora eram verdadeiras. Egbert concordou com a filosofia que ouvira, tentando demonstrar empatia — Tem razão Emmet. Sim é claro, não há gratidão para àqueles que tem tudo. Mas agora me diga, por que isto tudo? O corpo? A cripta? — Ele estava confuso. Tantas informações vindas ao mesmo tempo o faziam tropeçar em suas próprias palavras — Me diga, você trabalha para mim já faz quantas semanas? — Perguntou Emmet em um tom trivial — Já fazem dois meses, senhor — Ele levantou suas sobrancelhas como um sinal de surpresa — Dois meses, quem diria, parece que você foi o assistente que me acompanhou por mais tempo neste cemitério — O jovem abriu a boca para lhe responder algo, mas antes de pronunciar qualquer palavra, um barulho desviou sua atenção. Ele olhou para traz rapidamente — Maldição, o que foi isso? Um tiro? — O coveiro chutou um pedregulho com a ponta do pé, demonstrando ira ao ouvir aquilo — São àqueles fanáticos novamente, eles sempre voltam, sempre. Eles nunca são motivados por vingança ou por justiça, eles simplesmente amam a anarquia —

Ambos sabiam que a cripta era um local de paredes grossas, sabiam que havia apenas uma entrada e saída. O disparo havia sido dado a uma distância curta de onde estavam — Não precisaremos lutar se não conseguirem adentrar o local. Vamos apenas sentar e esperar, só isso e nada mais — Egbert olhando ao seu redor com seus olhos arregalados, parecia prever o conflito eminente, assim como um animal prevê a vinda de um caçador — A mochila de armas! Apenas me diga que a trouxe para cá senhor Emmet. Podemos nos defender, ou talvez matá-los assim como fez anteriormente — O coveiro balançou sua cabeça de um lado para o outro vagarosamente enquanto falava — Não, eu não a trouxe e mesmo que se a tivesse trazido, não sei se seria útil para nós — Egbert lhe questionou rapidamente — Mas você disse que havia matado alguns deles e um antigo assistente insubordinado — Seu olhar, que antes se dirigia para o nada, se virou para seu rosto — Eu disse muitas coisas e continuaria lhe dizendo outras para lhe convencer a ficar longe desta cripta. A verdade é que eu nunca matei ninguém em toda minha vida. Eu sou só um membro da platéia no teatro da morte, homens como àqueles lá fora são os verdadeiros atores do espetáculo — Após um breve momento de silêncio, vendo a face temerosa de Egbert, ele voltara a falar —Acalme seus pensamentos, de fato, eles irão embora quando cansarem de seus próprios gritos. Agora por favor, apenas sente-se e espere — E assim ele fez.

Cemitério de rosasWhere stories live. Discover now