Cemitério de rosas CAPITULO XII

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O coveiro Emmet estava naquele cemitério há tantos anos, que suas lembranças mais antigas, eram tão distantes, que sentia como se pertencessem à outra vida. Muitos dos mitos frequentes, falados a respeito dele, eram verdade. Há muitos anos, durante sua juventude, ele possuía de fato, uma carreira acadêmica. Além de um médico aplicado e um estudioso da anatomia humana, fora um entusiasta das artes eruditas, da poesia, da música e da filosofia. Emmet possuía uma casa, situada na área nobre ao leste da cidade, um lugar junto aos burgueses e distante da periferia. Uma casa pequena, dotada de um conforto simples, diferente de seus vizinhos extravagantes, consumistas e adoradores do luxo.

Em uma noite outonal, sua esposa adoecera. No começo, creram que seus males fossem se esvair com o passar dos dias, mas infelizmente, não foi isso que aconteceu. Ao longo da próxima semana, sua voz já se mostrava baixa e lenta e sua respiração penosa. Ela estava magra, seus grandes olhos avelanados e que antes, pareciam brilhar, agora, estavam avermelhados e seus lábios secos. Seu sono, atormentado por pesadelos medonhamente febris eram constantes. Não restavam dúvidas, sua doença era maligna. Debilitada em seu leito, demonstrando piora a cada dia, seu destino eminente caminhava rumo à sua morte. Emmet, mergulhado em seus estudos, buscava entre livros e registros antigos, qualquer resposta que lhe parecesse representar um mínimo de progresso. Tentando cruzar os seus estranhos sintomas com diagnósticos, quase sempre incomuns, suas conclusões sempre se mostraram errôneas, seus remédios ineficazes e suas esperanças eram cada vez menores. Nada funcionava, nada.

Uma tarde, ele encontrou algo, um resquício de progresso em suas pesquisas, talvez fruto de sua persistência constante, ou da ajuda que recebera de seus amigos da academia. Ele lera em um artigo sobre uma doença rara, o autor era alguém a quem nunca ouvira falar e suas palavras, eram escritas de forma que não transpareciam muita credibilidade. Os textos relatavam sobre uma doença de sintomas idênticos e de um tratamento descomplicado e rápido. Dominado pelo medo de sua perda, Emmet decidiu seguir tal artigo. Assim como ali era descrito, a cura, feita a base de ervas e especiarias poderia ser fabricada sem muitas complicações. Duas doses do antídoto lhe eram dadas por dia, uma ao acordar pela manhã e outra à tarde. Felizmente, tal tratamento pareceu fazer efeito. Com o passar dos dias, com sua esposa já podendo fazer pequenas caminhadas no jardim, sentiu que sua condição debilitada havia diminuído, ganhou peso e sua febre havia baixado. Emmet se sentia feliz, seus medos e seus anseios haviam se esvaído. Sua melhora lenta se estendeu durante a próxima semana. Empolgado com os resultados, ele dobrou as doses, na intenção de apressar sua cura. Seus amigos acadêmicos haviam se impressionado com os resultados, mesmo que muitos houvessem duvidado da veracidade de suas pesquisas. Uma doença até então desconhecida, estudada, diagnosticada e curada, era um feito memorável para um médico tão jovem. Um de seus antigos colegas de estudo, descrente de tais resultados, fez questão de visitá-lo. Emmet, orgulhoso de seus feitos, ansiou por apresentar-lhe sua esposa e lhe contar sobre seus resultados. Trajando sua melhor roupa, tentando ser o mais cortês possível com seu amigo, deu-lhe as boas-vindas logo após adentrar em sua casa. Após ambos se sentarem e se perderam em conversas nostálgicas, Emmet, trasbordando imensa empolgação a chamou tão alto, que sua voz ecoou por entre os corredores da casa. Ninguém respondera, ele voltou a lhe chamar, uma, duas, três vezes e tudo ainda se mantinha em silencio. Desconfiado, crente que sua esposa estivesse se ausentado repentinamente, ele seguiu para seu quarto. Lá, ela estava deitada, completamente imóvel em sua cama, ele a chamou mais algumas vezes, estralou seus dedos e a sacudiu, percebendo que seu corpo estava mole. Seu rosto estava pálido e seus olhos fechados. Seu amigo adentrou no quarto, tocou sua testa, mas esta não estava com febre, pelo contrário, estava gelada. O mesmo pressionou seu pulso, que espantosamente não possuía batimentos. A esposa de Emmet estava morta. O remédio que acreditara ser milagroso, propusera a sua esposa uma melhora temporária e o excesso do mesmo, lhe causou uma overdose fatal. Era duro aceitar a verdade, duro saber que matara acidentalmente sua própria esposa quando seus sonhos eram muitos e suas expectativas eram grandes.

Com o passar dos dias, mesmo que seu corpo mole não se movesse e seu coração não batesse, Emmet ainda se manteve descrente sobre sua morte. Muitas teorias passaram em sua mente, ele acreditou tê-la desmaiado, a colocado em um algum tipo de transe, ou talvez, em algum outro tipo de estado de inconsciência. Muitos em seu lugar, encontrariam conforto na bebida ou em outros vícios, seriam dominados por pensamentos suicidas e angustias, mas o jovem Emmet Van Drausen, não. Ele discursou sobre suas teorias durante os próximos meses na academia, para todos àqueles que queriam e que não queriam ouvi-lo. Fora escarnecido por muitos e chamado de lunático, doente e até profano. Na sua mente deturpada, concluiu que a morte representava apenas o desligamento do corpo físico e que a consciência de um morto, ainda se mantinha ativa. Ele acreditava que os mortos podiam ouvi-lo quando falava, que podiam sentir dor, medo e tristeza, que viviam aprisionados em um sono eterno sem sonhos e sem angustias.

Sem perceber, Emmet buscou conforto em suas próprias mentiras, cada vez mais e mais, crente naquilo que repetia para si mesmo. Uma obsessão pela morte fora nutrida por seus pensamentos constantes, uma obsessão tão grande que ocupava sua mente durante quase todo o dia. O Conselho de Medicina de forma unânime, concordou com sua expulsão. Execrado de sua profissão, com sua cabeça envolta em brumas, atormentado por seus demônios mais perspicazes, ele abandonou sua casa em uma noite escura, rumando sem destino pela rua principal da cidade. Cada vez mais longe, seguindo por áreas da cidade que nunca havia ido, ele caminhou durante toda a noite, pensativo. Aos poucos, quando o sol surgira no horizonte e sua luz batera em seus olhos, ele se viu em frente ao grande portão do cemitério, como se seus passos fossem guiados pelo seu destino, sua obsessão pela morte o fez desejar adentrar naquele local, explorá-lo, conhecê-lo e por fim, viver ali para todo o sempre. E assim ele fez. Esta é a história de Emmet Van Drausen. Àquele que antes era um médico brilhante, agora, era um coveiro. Aquele que antes era um intelectual erudito, agora, possuía uma visão distorcida da morte e do mundo ao seu redor. E assim ele seguiu sua vida. Ele perdera sua esposa, perdera sua profissão e abandonara sua casa há vários anos, para viver no cemitério, em noites solitárias, guiado apenas por sua obsessão pela morte.

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