Cemitério de rosas CAPITULO X

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Ao percorrer o cemitério rumo a casa, observou ao seu redor, percebeu que tudo estava deserto e de algum jeito, mais calmo que o normal. Todos estavam ausentes, o coveiro, as velhas masoquistas e quaisquer outras pessoas. Ao chegar em casa Egbert percebeu que a porta de entrada havia sido removida, muitas teorias passaram por sua cabeça. Com passos cautelosos, ele circulou a casa. O galpão ao fundo e as portas externas estavam intocadas. O lugar estava envolto em um silencio tão profundo, que a brisa que uivava sutilmente escorrendo entre as paredes externas, era o único som que podia ouvir. Retornando para entrada, vendo que a lareira mantinha uma chama quase morta, seus olhos foram de encontro com um local pouco iluminado. Com movimentos soturnos, Egbert adentrou no local. Ele podia ouvir a própria respiração e o assoalho gemendo a cada passo que dava. O relógio de pêndulo balançante, mantinha-se funcionando, indicando que lhe fora dado corda a menos de um dia. Suas malas ao lado do divã, estavam como havia deixado e as portas internas estavam abertas como de costume. Aos poucos, ele vistoriou cada um dos cômodos. Não havia ninguém na sala da lareira, na sala de jantar e nem no escritório no andar superior. O local não lhe parecia mais hostil, ele afastou a desconfiança de sua mente e respirou fundo, como um sinal de alivio. No armário, ao lado da mesa de toalhas brancas, havia meia garrafa de vinho, uma dúzia de amoras dentro de um pote de cerâmica e algumas fatias cruas de salmão. Dentro de uma gaveta, estava uma pilha de bilhetes. Além daqueles que já havia lido, haviam outros escritos posteriormente. De fato, todos possuíam a caligrafia e as palavras de Emmet, sempre lhe pedindo coisas como: Objetos para comprar, coisas para consertar e corpos para receber. Egbert foi até a sala, pôs mais lenha na lareira e atiçou o fogo, retornou e sentou-se à mesa de jantar. A comida e a bebida pareciam mais saborosas, a lareira mais acolhedora, até mesmo o ar que vinha do lado de fora parecia mais puro. Enquanto comia, ele frequentemente olhava para a entrada, desacostumado com a ausência da porta. Sua visão ia de encontro com uma noite clara, onde podia ver a neve que começava a cair sobre todo o cemitério. Ao terminar sua refeição, se banhou e se barbeou calmamente, até por fim, se sentar no chão em frente à lareira, na esperança de ser agraciado pelo sono.

Àquele fogo estalante, o fez lembrar-se de quando era criança, quando sua infância era plena e descompromissada. Nos fundos do orfanato em que vivia na época, havia um pátio grande, onde no centro, o zelador acendia uma grande fogueira. Ao seu redor, as crianças se mantinham entretidas com brincadeiras desregradas. Isto acontecia no começo de cada noite, fossem elas claras ou escuras. Entre tantas brincadeiras, havia uma que Egbert se lembrava mais, as pessoas de lá a chamavam de "O jogo da besta". Era uma brincadeira exaustiva, em que dezenas de crianças se misturavam correndo e rindo ao mesmo tempo. As regras eram simples, quase todas elas fingiam serem caçadores, estas, empunhavam pedaços de madeira, pedregulhos que eram usados para arremesso e até atiradeiras. Apenas uma delas era escolhido para representar a besta, normalmente a mais calada e estranha de todas. Ela deveria usar uma máscara de couro escuro que fedia a mofo e fingir ser uma criatura da floresta. O objetivo da besta era pegar as demais crianças e arrastá-las para dentro de uma gaiola de madeira. A máscara havia sido costurada pelo zelador, ela representava a face de um animal selvagem misterioso, alguns diziam que era uma coruja e outros um cavalo, independente do que era, uma coisa era certa, aquela máscara era muito assustadora. Como tudo acontecia em um espaço aberto, não havia onde esconderem-se, então todos corriam em direções aleatórias. Entre tais corridas, alguém sempre terminava caindo, ou machucado de alguma forma, abandonando o jogo em prantos ou com palavras birrentas. Em uma noite, Egbert foi escolhido para ser a besta, em sua cabeça, lhe foi posto a maldita máscara. Ele correu, correu por muito tempo até estar ofegante, ele não era rápido o bastante, por isso não apanhou ninguém e fora atingido por pedras inúmeras vezes. Então, chateado e machucado, sentou-se em um canto afastado dos demais e se pôs a chorar. O zelador, tentando consolá-lo, sentou ao seu lado e tocou seu ombro — Garoto, você acha que é assim que um lobo ou um vampiro caçam? — Com seus olhos avermelhados ainda soluçando, ele lhe respondeu —Não senhor — O zelador lhe explicou enquanto apontava para as outras crianças que ainda brincavam — Se você é a besta, deve saber como uma besta pensa. Entenda uma coisa, as pessoas que estão próximas da chama não vêem o que há na escuridão, mas o que há na escuridão sempre pode ver o que está próximo à chama. Não chegue perto da fogueira, espere cautelosamente até alguém se afastar. Uma besta não é perigosa por possuir garras ou presas, elas são perigosas porque são pacientes para esperar o momento certo de atacar. Não precisa correr, pois eles ouvirão seus passos, só espere um deles se afastar do fogo para pegá-los — E assim Egbert fez, afastou a gaiola de madeira do centro, e se manteve afastado, sempre no escuro. Algumas gritavam alegando que aquilo não era justo, outros demonstravam não entender o que estava acontecendo. O plano deu certo, quando a primeira criança adentrou em uma área mais escura, ele a apanhou pelos cabelos e a levou para gaiola. Ele conseguiu pegar uma, depois duas, depois três e por fim, quatro crianças. A gaiola estava cheia e ele estava contente novamente — Perceba garoto — Disse o zelador novamente — A melhor defesa não é o fogo e sim as trevas. É só usar sua mente, entendeu agora? — Daquele dia em diante, Egbert sempre gostou daquela brincadeira e sempre quis ser a besta. Aquelas lembranças de sua infância o fizeram sonolento, ele deitou-se e dormiu enquanto a lareira se mantinha com chamas altas.

Ele mergulhou em um sono curto, mas profundo. Uma voz as suas costas lhe acordou, o fazendo levantar abruptamente assustado — Boa noite — Disse Emmet adentrando no local trivialmente, desprovido de neve sobre seus ombros. Com sua cartola em uma mão e uma pá em outra, não parecia estar surpreso ao encontrar Egbert. Antes de falar novamente, olhou de maneira breve para o relógio — Me desculpe, não foi minha intenção lhe assustar — O jovem, esfregando seus olhos, ainda sonolento, esperou ser questionado sobre onde esteve por tanto tempo, mas o coveiro manteve-se em silencio. Era como se não tivesse sentido sua falta. A extrema indiferença de Emmet era ainda mais notável — O que ouve com a porta da frente? — Perguntou o jovem apontando para a entrada — Eu precisei removê-la — Respondeu o coveiro de imediato — Foi a única forma que encontrei de entrar, acredito que você esteja sobre posse da chave? — Ele pôs sua mão em seu bolso antes de responder — Sim... É claro... Ela está aqui. Mas onde você estava? — De costas, sem expor sua face, Emmet não respondeu o que lhe fora perguntado — Durma, amanhã você voltará a trabalhar novamente — Assim Egbert fez, saiu do chão, se acomodou em seu velho divã e voltou a dormir.

Seus olhos se abriram novamente ao final da manhã seguinte. Ele se levantou e espreguiçou-se, então, repentinamente lhe surgiu uma singela sensação de estranheza. Havia algo faltando naquele local, Egbert olhou ao seu redor e através da janela, tudo parecia normal, mas de alguma forma, ele sabia que algo estava fora do comum. Ele demorou alguns instantes para perceber o motivo de sua estranheza, o relógio não estava funcionando, seus ponteiros estavam parados e o seu "Tic Tac" eterno havia se calado. Mesmo que dar-lhe corda fosse uma tarefa feita sempre por Emmet, Egbert decidiu fazê-la. Ele desprendeu o pequeno encaixe lateral e puxou sua pequena portinhola — Tenho a porta para recolocar e a neve acumulada no telhado para retirar. Ao que parece, ficarei ocupado o dia todo. Eu só preciso dar um jeito neste relógio e então eu... — Dentro do compartimento do relógio, havia uma coisa, uma coisa que o deixou descrente e alegre ao mesmo tempo. Uma chave, mas não uma simples chave, a chave que abria os limiares da cripta. Egbert a reconheceu pelo seu adorno em forma de crânio e seu tamanho grande como lhe fora descrito. O momento lhe despertou um desejo quase imensurável de apanhá-la e rumar em direção à cripta, mas felizmente, seus pensamentos lógicos sobrepuseram seus impulsos. Por que Emmet a deixara ali, a havia esquecido? A escondido? Talvez fosse um truque para testá-lo? Não seria tão simples, haveria consequências em seus atos, o coveiro sentiria a ausência da chave. Egbert fechou a portinhola e deixando o relógio como estava, silenciado, tentando demonstrar que não o havia tocado. Ele virou suas costas e cogitou desistir de seu plano, tentou expulsar de sua mente seu desejo ilógico de adentrar na misteriosa cripta, algo que já havia tentado inúmeras vezes, sempre sem sucesso. Uma idéia, era isto que precisava, mas quanto mais pensava, mais distantes elas pareciam estar. Em um momento, seus pensamentos pareceram se acalmar e uma possível solução se tornou a mais plausível. Apanhar a chave, pedir para que o chaveiro lhe fabricasse uma cópia, uma ficaria no relógio e a outra consigo. Era um plano simples e eficaz.

E assim ele fez, seguiu até a periferia, onde adentrou no humilde estabelecimento do chaveiro, após fazer o breve pedido para o atendente de poucas palavras, pagou pelo serviço, usando duas moedas as quais jaziam abandonadas na gaveta do armário. Ao retornar para casa, seu plano saiu como esperava, posicionou ambas as chaves e aguardou o momento certo. A noite se iniciava, mas sua curiosidade o impediu que esperasse o dia seguinte, assim, ele rumou para onde tanto ansiou explorar. Ao chegar ao local, olhou ao seu redor e circulou a cripta duas vezes, buscando estar ciente de que nada pudesse lhe atrapalhar. Por alguns instantes, ergueu sua cabeça, contemplando os grandes limiares vermelhos, como uma espécie de ritual que antecedesse uma grande descoberta. Ele colocou a mão eu seu bolso, retirou a chave, a colocou na fechadura e após girá-la duas vezes em sentido anti-horário, ele ouvira um "click" metálico. Empurrando-a com seu palmo, ela se abriu para dentro, rangendo, revelando aos poucos o seu interior sombrio. Era uma sensação estranha, uma imagem fantasiada em sua mente inúmeras vezes, algo existente somente em seus sonhos, finalmente, pertencendo ao mundo real. Com passos cautelosos, Egbert adentrou a cripta, rumando sem medo pelo desconhecido.

Cemitério de rosasWhere stories live. Discover now