Cemitério de rosas CAPITULO IX

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 Egbert acordou sozinho em um lugar completamente inóspito. Estava em uma planície, coberta por cruzes de madeira encravadas no chão. Ele desconhecia àquele local, mas sabia de alguma forma, que não estava perto de casa. O solo não era sólido, a superfície de neve e musgo ausente de rochas, tornava seus passos lentos. O crocitar dos corvos, começaram a aumentar à medida que adentrava na área, pois eles estavam por todos os lados, empoleirados sobre as cruzes, ciscando o solo de maneira anormal, ou simplesmente, cobrindo os céus com suas presenças. Algumas cruzes eram mais baixas do que seus joelhos, outras se estendiam acima de seus ombros. Muitas, já apresentavam aparências carcomidas. Seus centros eram fixados com pregos enferrujados, amarras feitas com tecidos esfarrapados ou cordames. Elas eram tão abundantes que se amontoavam, obrigando Egbert a se esgueirar por entre espaços estreitos para poder se locomover. Por mais que seus passos fossem cautelosos, ele não demorou muito até pisar em uma cabeça humana semi-coberta e perceber que haviam corpos que eram enterrados em covas rasas, sem caixões, o que explicava o porquê os corvos ciscavam o chão de maneira tão insistente.

Um cemitério, era isto que àquele lugar era, um cemitério horrendo, com uma aparência contrário ao lugar em que vivia. A cada passo que dava, afundando seus pés em corpos em decomposição misturados à neve, começava a sentir um odor fétido, extremamente azedo e nauseante. Embrenhando-se entre cruzes enquanto caminhava, uma sensação claustrofóbica crescia. Seu olfato foi agredido de tal maneira, que vomitou subitamente. Ele percebeu o quão tolo era explorar àquele local e decidiu retroceder seu caminho de volta, prometendo a si mesmo que não voltaria ali jamais. Àquele era o lugar mais horrendo que Egbert esteve em toda sua vida.

Após uma longa caminhada rumo para onde acreditava ser oeste, sujo e cansado, seus olhos se confrontaram com um desfiladeiro íngreme, de encostas rochosas e saliências destoantes, as quais, impossibilitavam sua descida — Isto é um sonho — Disse ele para si mesmo — Somente um sonho, nada além disto — Ele seguiu em uma direção contrária, para o leste. A noite estava caindo, aos poucos, tudo fora dominado pela escuridão. Sem possuir uma chama, era impossível reconhecer o caminho à frente. Ele esticou suas mãos, tateando como um homem cego. Seus passos percorreram o chão, curtos e cautelosos, até seus palmos tocaram um paredão rochoso, sem saliências, tão grande que se estendia para os lados e para cima como uma grande muralha. Egbert optou por sentar-se sobre o chão e esperar o amanhecer. Suas costas ficaram escoradas, com sua cabeça baixa, enquanto abraçava seus joelhos. Mesmo sonolento e com seus olhos pesados, ele não conseguiu dormir. Até o momento, não sabia os motivos de estar ali, tudo indicava que o mascate o levara para lá como uma forma de castigá-lo, ou talvez, matá-lo lentamente.

A noite fora longa, o sol parecia adormecido para sempre, o vento ausente e os corvos silenciados. Deitado sobre o solo insalubre, seus olhos pesados emergiam em pequenos cochilos, até finalmente dormir, em um sono leve e sem sonhos. Egbert fora acordado pela manhã por um corvo em pé sobre seu ombro, que bicava sua cabeça insistentemente, confundindo-o com um cadáver. Quando o jovem o espantou, o animal bateu suas asas, grasnando enquanto levantava vôo. Em pé, ele esfregou seus olhos, avaliou o horizonte e se pôs a caminhar. Estava faminto, e mesmo que acabasse de acordar, estava cansado. Ele pensou como seria de grande ajuda uma bússola naquele momento. Apalpando suas vestes, procurou qualquer objeto que pudesse eventualmente estar sob posse. Soltas no bolso de sua calça, haviam as moedas que antes oferecera para o mascate. No bolso interno esquerdo de seu colete, estava o seu velho relógio de bolso com ponteiros parados, àquele item nunca lhe fora útil, ele o guardava pois possuía a esperança de um dia poder consertá-lo. Junto delas, encontrou a chave da porta de entrada da casa, era inevitável pensar que Emmet, ao retornar de seus trabalhos, se veria trancado do lado de fora. Na bota de Egbert, ele mantinha uma faca de cabo de chifre de veado, sem bainha e com a lâmina recentemente afiada. O fato do mascate não lhe furtar enquanto estava desacordado, o fez sentir-se mais esperançoso naquele dia. Mesmo com tantos objetos consigo, aquela velha faca parecia ser a única coisa útil que possuía. Empunhar àquele objeto de lâmina que brilhava ao sol recém surgido, era uma sensação curiosamente estranha.

Cemitério de rosasWhere stories live. Discover now