Cemitério de rosas CAPITULO VIII

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À noite, sentado no chão, em frente à lareira, Egbert mantinha seus pensamentos mergulhados em uma leitura. Seus olhos corriam entre as linhas, o enredo era descomplicado e as frases, por mais metafóricas que fossem, pareciam fazer tanto sentido como qualquer outra. O livro de capa dura, com letras cursivas e douradas possuía o nome de "Sonhos imperfeitos". Era de um autor desconhecido, sem uma biografia ou introdução. Contava a estória de um pequeno vampiro sem nome, que perambulava nas noites eternas de uma floresta densa, buscando compreender as criaturas e os animais que ali viviam. Era uma fábula triste, deprimente e às vezes sutilmente moralista. Egbert poderia estar deitado no divã, esperando o sono lhe agraciar, mas, por algum motivo, ele não queria. Seu rosto estava iluminado pela chama da lareira, que estralava em pequenos intervalos. Sua sombra pintava-se no chão, longa e trêmula.

Lá fora, a noite era escura, era possível ouvir o vento forte uivando, onde a neve batia contra a parede da casa. A árvore ao lado, sem folhas e de galhos longos e retorcidos, gemia como se fosse se partir a qualquer momento. Sua leitura acabou como esperava, uma trama sem reviravoltas ou surpresas. Egbert se pôs de pé, fechou o livro, o pôs de volta na estante e deitou-se no divã com seu rosto virado para a janela. Ele não estava com sono, seus olhos estavam abertos e seus pensamentos inquietos. O fato de Emmet ser um assassino era algo que ainda não conseguia digerir. Ele sentiu veracidade em suas palavras, lógica em tudo o que falou. As armas no galpão, suas exigências frequentes para que a porta estivesse sempre trancada, tudo parecia fazer sentido. Apenas, um de seus comportamentos não era de praxe, convidá-lo para trabalharem juntos, contar-lhe uma história de um antigo ajudante e revelar-lhe informações sobre assassinatos que cometera. Ele quase sempre era um sujeito de poucas palavras e hábitos solitários. Egbert se sentiu envolto em dúvidas, como se aquelas palavras se transformassem em uma paranóia que crescia mais e mais, infestando sua mente como uma maldição. O que fez Emmet se tornar o que é? A quem ele se referia quando disse "Ela"? E principalmente, por que protegia de maneira tão persistente aquela cripta? Egbert rolou para a esquerda e para direita diversas vezes, até sentir um leve resquício de sono.

Ainda deitado, Egbert direcionou sua visão para um dos cantos da sala, seus olhos estreitaram-se ao ver sua mala aberta. Entre suas roupas, estava um de seus livros. Era um livro velho que fedia a mofo, ele já havia o lido duas ou três vezes nos últimos anos. Uma edição ilustrada e fina com o título de "1001 formas de facilitar a sua vida". No interior da contracapa, os rabiscos feitos anos antes ainda se mantinham, contendo anotações, agora inúteis, e pequenos poemas não terminados. Seus olhos percorriam o sumário de capítulos desinteressantes do tipo: "Como esfolar um cervo", "Como construir um trenó", "Como reconhecer amoras venenosas", "Como se livrar de ratos" e "Como remover ferrugens". Mas, talvez sem perceber, abriu na página de nome "Como abrir uma porta sem usar uma chave" e sem dar-se conta, já o estava lendo. Haviam formas mais brutas para abrir uma porta, como arrombamentos com o auxílio de pés-de-cabra, marretas e alicates. Formas mais discretas e metódicas, como o uso de gazuas, que possuíam diferentes modelos e espessuras. Eram muito usadas por ilusionistas em espetáculos de escapismo, ou por ladrões experientes. Os textos que se estendiam, explicavam mais sobre chaves, cadeados e ferrolhos. Mas como seu sono retornara, Egbert abandonou suas leituras e tentou dormir novamente. Suas pálpebras ficaram pesadas e se fecharam, até finalmente dormir.

Ele acordou instantes depois, após estar momentaneamente emergido em um cochilo. Seu despertar foi como um instinto natural, pressentindo algo errado. Um barulho de passos pesados, que parecia se misturar ao som do vento, rodeava a casa de maneira tranquila. Durante alguns instantes, Egbert acreditou estar dentro de um sonho, até esfregar seus olhos e sentar-se. A chama da lareira estava quase apagada, o relógio de números romanos e pêndulo balançante marcava 1:52 hs. Não era o coveiro que estava lá fora, ele não andava daquela forma. Talvez os fanáticos tivessem retornado, buscando uma vingança noturna, o caçando como lobos, mas antes de tudo, enviaram-lhe um batedor para vasculhar o caminho. Involuntariamente, enquanto estes pensamentos rodeavam sua mente, Egbert aproximou a mochila de armas para perto de si. Os passos estavam juntos a tinires metálicos, mesmo sem saber sua origem, sentia uma certa familiaridade com àquele som. Ele podia ver uma luz trêmula cruzando em baixo da porta de entrada. A luz da lareira diminuía, aos poucos, mergulhando a sala em um breu cada vez mais denso. Em seguida, foram dadas três batidas fortes na porta. Junto a um susto, Egbert se pôs em pé rapidamente. Seus olhos estavam arregalados e seu coração acelerado. Ele abriu a boca para perguntar quem batia, mas antes de falar ao menos uma palavra, novamente, foram dadas três batidas na porta. Fora da casa, o vento continuava a soprar, varrendo os rastros na neve, agora, ainda mais oscilante e gélido. Pela terceira vez, ele ouviu batidas na porta. Descalço, lentamente ele se aproximou, uma de suas mãos, já levantada, segurava o machado, pronto para despencá-lo sobre qualquer ameaça. A outra, que segurava a chave, se esticou lenta e trêmula para destrancá-la. Enquanto a porta se abria para dentro, as dobradiças antigas gemiam. Uma luz forte foi de encontro ao seu rosto. Egbert levantou sua cabeça até olhar nos olhos de quem tanto o perturbava.

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