Cemitério de rosas CAPITULO VII

6 1 0

A cripta estava intacta desde os últimos ataques. Egbert a contornou duas vezes, bastante atendo as armadilhas que ele mesmo pusera. Era impossível ver seu interior, não haviam rachaduras ou quaisquer tipos de frestas que lhe permitiam espreitar sua visão. Ele aproximou um de seus olhos no buraco da fechadura. Através daqueles portais, viu apenas a escuridão, intensa e predominante. Não seria complicado arrombar aquela entrada, por mais alta e imponente que fosse, sua madeira poderia ser destruída com golpes firmes de machado, suas trancas, por mais grandes que fossem, poderiam ser quebradas com um pé de cabra. Destruir a entrada e adentrar na escuridão, seria a melhor e mais simples solução que existia, mas sabia que se isto acontecesse, Emmet, com sua adoração obsessiva, se tornaria insano. Tais eventos resultariam em sua demissão e talvez até, em sua morte. Haviam saliências suficientes nas paredes que o possibilitaram escalar com certa dificuldade até o teto, agarrando-se a elas e apoiando seus pés nas mesmas. Em pé, em seu topo, pode ver a vastidão do cemitério. A camada de neve grossa, acumulada ali durante todo o inverno, indicava algumas nevascas intensas durante meses anteriores.

Egbert não pode deixar de procurar algo vivo que se mexesse ali, um animal ou uma pessoa. Seus olhos se estreitaram ao ver as velhas masoquistas, andando como três pontos negros, enfileiradas e com suas cabeças abaixadas como de costume. Quando sua visão se estendeu para o alto, viu os corvos que pairavam no céu. O vento forte que batia em seu rosto, diferente das outras áreas que transitava, era uivante e constante. Não existiam buracos que dessem acesso ao interior da cripta. Era desnecessário caminhar sobre aquela superfície. Egbert se pôs a descer, ciente das bordas lisas que o rodeavam, manteve-se cauteloso até tocar seus pés no chão em segurança novamente. Ele coçou o queixo e pensou enquanto falava consigo mesmo — Tenho apenas mais uma idéia, será um pouco complicada, mas vejamos, acho que será possível. Posso comprar uma gazua na cidade. Maldição, não, não isto não vai funcionar. Nunca burlei uma tranca, e não possuo nenhuma habilidade com este tipo de tarefa. Deve ter outra forma — Independente de como faria para resolver seus problemas, ele resolveu voltar para casa.

Após o primeiro passo, ele ouviu uma voz ao seu lado — Olá coveiro — Quando virou sua cabeça, viu as três velhas masoquistas. Elas pareciam sempre usar as mesmas roupas e sempre caminharem em silêncio, às vezes, Egbert se perguntava o porquê elas transitavam ali com tamanha frequência — Senhora eu não sou o coveiro, eu sou só um ajudante — Respondeu o jovem em um tom passivo — Eu pensei que você fosse o coveiro, sabe, eu não enxergo muito bem, por isso me confundo com tanta frequência. É muito bom caminhar aqui, pois este lugar é realmente agradável. Eu e minhas irmãs costumamos visitar alguns parentes já falecidos, parece que cada vez que voltamos para cá, encontramos mais pessoas. É engraçado, nossos parentes morrem e nunca somos avisadas —

Egbert com um sutil desvio de olhar percebeu que o cadáver do homem com a seta fixado na testa ainda estava lá, estirado no chão, com o peito virado para cima, assim como o havia deixado. Ele estava tão próximo, que uma delas quase pisava em seu rosto. Elas não o haviam percebido, ou talvez, o ignorassem, já que a morte lhes parecia trivial o bastante para não se alarmarem com um corpo morto. Outra senhora começou a falar, era quase cômico, pois todas possuíam a mesma voz e falavam com os mesmos gestos e entonações — É uma grande coincidência ver você aqui, o coveiro entra sempre dentro desta mesma cripta. Deve ser onde ele guarda suas ferramentas, ou talvez, os caixões — Egbert tinha certeza que não existiam ferramentas e nem caixões ali dentro e sim, alguma outra coisa, a qual ele pressentia cada vez mais, que estava perto de descobrir. O fato das velhas falarem tanto, parecia uma grande vantagem naquele momento. Ele fez perguntas abertas, esperando respostas longas como de costume — O coveiro vem muito aqui? — Uma resposta de imediato lhe foi dado — Sim, claro, ele vem sempre aqui, quase sempre vem junto do pôr do sol, mas às vezes, ele vem durante a tarde, até duas vezes por dia. Ele fica caminhando por todo o cemitério, falamos pouquíssimas vezes com ele, pois é um sujeito de poucas palavras. Realmente nunca compreendi seu jeito introspectivo. Lembro-me de vir aqui uma vez, há mais de dez anos, naquele tempo, o coveiro era bem jovem e ainda assim possuía o mesmo oficio. A cidade era diferente, mas o cemitério pareceu nunca mudar — A senhora parou de falar por alguns instantes. Ela sorriu, esticou seu braço e com a mão sobre a cabeça de Egbert, escabelou seus cabelos — Ele possuía cabelos iguais aos seus, jovem, pretos como plumas de um corvo — Disse a senhora tentando parecer amigável. Quando seus dedos tocaram as feridas de seu rosto, ela afastou sua mão — O que ouve com o seu olho? Já sei, você tropeçou em alguma lápide e caiu com o rosto no chão — Antes mesmo que Egbert pudesse abrir a boca para dar-lhe alguma desculpa, a senhora voltou a falar — Eu conheço um truque muito bom que pode lhe ajudar. Sabe, a neve é muito boa para diminuir o inchaço, eu costumava usá-la com os meus filhos mais jovens. Quando pequenos, parecia que eles só sabiam correr e cair. Não é nada complicado, é só você encontrar um canto onde ela se acumula, pegar um punhado do chão e por junto a sua ferida, parece meio estranho, mas funciona. Meu segundo falecido marido disse uma vez, que isso só funciona com feridas que não estejam abertas, pois se forem cortes, é necessário usar ervas da floresta. Você não precisa realmente ir até lá, mas pode encontrar um curandeiro que as venda por preços razoáveis — Aquelas conversas além de longas e cansativas, tomavam muito de seu tempo. Era como se aos poucos, a velha senhora precisasse lhe contar sobre qualquer informação ou lembrança que possuísse.

Cemitério de rosasWhere stories live. Discover now