Cemitério de rosas CAPITULO V

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Egbert preparou a besta, puxou a corda até o encaixe e posicionou uma flecha sobre os trilhos. Quando se aproximou do local, seus passos se tornaram curtos e soturnos. Seus olhos cautelosos corriam para um lado e para o outro, procurando algo que lhe parecesse hostil. O mausoléu parecia intacto, com exceção da cabeça de uma das gárgulas que havia sido quebrada e uma escritura feita grosseiramente na parede de um dos lados da construção, feita com uma espécie de tinta preta que dizia "Walemath seja louvado". Haviam sutis vestígios de uma algazarra, como algumas garrafas vazias espalhadas ao redor e um buraco coberto por cinzas. Seja quem fosse que estivesse ali, utilizou uma fogueira na noite anterior. Também haviam muitas pegadas de diferentes tamanhos, a julgar pelas solas carimbadas sobre a neve, àquele chão fora percorrido por no mínimo cinco pessoas. O que restava, era consertar o que estava danificado e retornar para informar a situação para Emmet. Então, recolheu as garrafas que estavam espalhadas, as guardou em sua mochila e reposicionou a cabeça da gárgula em seu devido lugar. Somente a escritura não pôde ser removida, pois no momento, não possuía material para tal tarefa. Egbert já estava questionando-se se todo àquele alarde de seu patrão era um grande exagero, ou que talvez não passasse de uma mera paranóia. Ele optou por sentar-se atrás de uma cripta e esperar que os meliantes retornassem. O coveiro, tão frio e calmo nunca havia se zangado por nada. Era difícil entender o porquê ordenou suas mortes, por apenas um leve dano na cabeça de uma gárgula de pedra e uma escrita com tinta preta, já que outros lugares também já haviam sido danificados ao longo dos anos. Ele estava quase certo que ninguém apareceria, mas isso ia dar tempo para que Emmet encontrasse a calmaria.

O tempo passou, uma hora, talvez duas, ninguém apareceu. O sol já estava se pondo. Assim como a lua, as primeiras estrelas estavam surgindo. Egbert se sentiu tolo, pois se preparou para combater o desconhecido sem estratégia, seus inimigos provavelmente já estavam em outra região, a milhas dali. Já de pé, ele sorriu, junto com um singelo riso da situação que se encontrava. Ele jogou sua mochila sobre as costas e se virou para retroceder seu caminho. Quando sentiu a calmaria, o destino se mostrou sádico o bastante para lhe propor mais problemas. Ele ouviu sons que vinham do horizonte, risos, conversas debochadas, cães latindo e até mesmo, tiros disparados de pistolas. Infelizmente eles não haviam ido embora, um grupo de meliantes, oito ou nove deles, haviam retornado. Egbert já havia ouvido falar deles, viviam exatamente como animais. Bastardos paridos e soltos no mundo a própria sorte. Não possuíam nomes e nem lares, a maioria deles não eram letrados. Dormiam quando tinham sono, comiam quando tinham fome e matavam quando tinham raiva. Possuíam a grande fama de serem violentos e supersticiosos. Infestavam a sociedade como uma corja de ratos sórdidos. Perambulavam nas sombras, tanto na periferia, quanto nas florestas. Geralmente vinham à noite, sempre surgiam para molestar os indefesos e sempre continuarão fazendo isso, hoje, amanhã e sempre. Criminosos oportunistas, na maioria das vezes, ladrões e saqueadores. Por mais que muitos deles encontrassem um fim, condenados à forca, mortos em batalhas com caçadores de recompensa ou entre si mesmos. Suas mortes pareciam não serem o bastante, haviam mais, sempre haviam mais deles.

Uma noite escura havia tomado conta de tudo, com um breu tão profundo que não existia luz que se destacasse na escuridão. Egbert ainda ouvia seus passos, cada vez mais perto, ele sabia que estavam se aproximando mesmo sem vê-los. Com a besta em suas mãos, ele permaneceu agachado, tentando lhes observar. Sabia que se corresse seria quase impossível passar despercebido e mesmo que conseguisse, era pouco provável obter êxito ao se orientar com sua visão comprometida. Não poderia lutar com tantos homens, então, decidiu continuar ali, imóvel e em silêncio.

Um dos sujeitos acendeu uma tocha, que surgiu como um grande clarão na escuridão, iluminado o rosto dos demais, pintando suas sombras tremuladas no chão. Todos estavam armados, seguravam foices curtas, machados de mão, lanças de madeira, mosquetes, pistolas e outras armas de fogo. Um deles era um homem grande, seu rosto era coberto por uma máscara que representava a face de um glutão. Ele carregava dois cães de orelhas pontudas, eles estavam agitados, rosnavam e latiam alto, babando, passando suas línguas por entre seus dentes. Suas órbitas eram amarelas e suas pelagens eram grossas e escuras, criando assim uma espécie de camuflagem, como sombras emergidas da escuridão. Estavam presos por coleiras de couro e correntes de ferro que eram usadas como guia. Logo ao lado, Egbert percebeu o porquê da agitação dos cachorros, um homem nu estava ajoelhado no chão, suas mãos estavam amarradas às suas costas, ele era magro, quase esquelético. O mesmo meliante que segurava a tocha, balançando-a na escuridão, deu início a um falatório alto — Então senhores, nesta noite sacrificaremos este infeliz, o sangue derramado aqui purificará nossas almas e expurgará nossos pecados. Walemath seja louvado! — Suas palavras fizeram com que Egbert cresse que ele representava uma espécie de líder para os demais. Ao fim de suas palavras o homem mascarado, soltou os cães famintos, que correram, dilacerando o pobre moribundo, ainda nu e amarrado. Tudo foi muito rápido, ele morreu sem gritos e sem emitir qualquer som. Todos olhavam a cena como se tudo fosse natural. Ainda abaixado, seus olhos estavam arregalados, seu estômago se revirava em uma mistura de repulsa e medo. Enquanto olhava um corpo sendo devorado e os cães com as bocas cheias de carne, percebeu que sua respiração estava curta e suas mãos que ainda seguravam a besta, estavam trêmulas. De maneira repentina, uma voz rouca ao seu lado veio aos seus ouvidos, lhe assustando de maneira que o fizesse saltar e ficar em pé. — Quem é você?! — O monstruoso homem que antes segurava os cães, lhe olhava, não era possível ver seu rosto, mas ele podia imaginá-lo como sendo algo repulsivo e de expressões dementes. Os demais, olharam para Egbert com olhares enraivecidos quando ouviram a pergunta. A luz da tocha caiu sobre ele, revelando seu rosto assustado. Sem pensar, apontou sua besta para um deles e apertou o gatilho, a flecha lhe acertou precisamente na testa, fazendo-o cair no chão, estatelando-se de costas na neve, já sem vida. Os demais que já manifestavam extremo ódio em seus olhos, correram em sua direção, empunhando suas armas, irados, seguidos da frase — Matem ele!! — Egbert foi perseguido por entre a escuridão, ele ouvia os latidos às suas costas, os passos tumultuados e os gritos fervorosos. A luz que possuíam o perseguiu, quanto mais ela se aproximava, mais ele se sentia perto da morte. Ele ouviu dois tiros, e também os sentiu, o primeiro cruzou por cima de um de seus ombros e o outro, passou de raspão por uma de suas coxas. Sua desesperada fuga dentro da noite, frenética e fervorosa, se estendeu por quase uma milha. As lápides cruzavam ao seu lado, tão rápidas que pareciam vultos. Percorrendo sem olhar para traz, até chegar a uma parte do cemitério que nunca havia explorado.

Cemitério de rosasWhere stories live. Discover now