Cemitério de rosas CAPITULO III

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Egbert caminhou por mais de uma hora, ele sabia disto, pois usava o sol como relógio. Ele poderia usar as estrelas para lhe guiar se ainda fosse noite, utilizar pontos de referência se conhecesse o local, ou até seguir alguma pegada, caso encontrasse alguma. Era difícil ser otimista. A neve que havia caído durante toda a noite, já havia parado. O lugar era dominado por uma calmaria quase absoluta, ele podia ouvir a brisa, podia ouvir seus passos largos percorrendo a neve fina e também os corvos com seus crocitares distantes. Ele podia imaginá-los, apenas escutando seus sons, era como se pudesse vê-los, aglomerando-se ao redor de um cadáver, ou pousados sobre as lápides. Como se aquilo que imaginasse tomasse forma, ele ouviu o farfalhar de asas a suas costas, quando se virou, se deparou com um corvo, em pé sobre uma ruína, robusto e coberto por plumas negras. A ave lhe olhou no rosto, piscou duas vezes com seus olhos peliculares, caiu sua cabeça para um lado e para o outro por alguns instantes. Enquanto batia suas asas, ela grasnou alto, talvez lhe xingando em um idioma não humano. Era como se a presença de Egbert lhe despertasse medo. Corvos eram seres peculiares, apesar de também comerem sementes e pequenas frutas, possuíam preferência por animais mortos em decomposição. Diziam que quando filhotes, os corvos viviam em famílias, quando jovens viviam em grupos e quando adultos viviam em casais. Haviam poucos corvos que viviam solitários e calados, estes, eram os mais espertos de todos. Nas florestas, procuravam animais que cambaleassem ou demonstrassem comportamento fatídico, esperavam silenciados, os avaliando. Quando percebiam que estavam feridos ou doentes, os seguiam, esperando suas mortes, para que pudessem finalmente comer. Eles eram oportunistas, mais espertos do que qualquer outra ave, pois eram bons em entender padrões de comportamentos alheios. Em determinado momento, o corvo olhou para o horizonte, bateu suas asas novamente e rumou pairando pelo cemitério, até Egbert vê-lo como um pequeno ponto negro voando na imensidão branca.

As lápides que o rodeavam possuíam escrituras em letras grandes e cursivas, epitáfios que revelavam passados já esquecidos. Ele procurou datas que fossem recentes e principalmente nomes que lhe parecessem familiares:

Néro Van Buuren (1760-1788). Sua sede de aventura o levou para longe, onde a fome o consumira até o seu fim.

Nicolay Boudeler (1670-1712). Ele sucumbiu diante da praga e preferiu a morte a mais um dia de sofrimento.

Vlades Francen (1691-1739). Sua vida de luxúrias se estendeu até seus limites mais obscuros.

Kasandra Prifth (1702-1723). Ela encontrou seu lugar na floresta, onde fora agraciada com a solidão, a natureza e a morte.

Aniball Straguinata (1720-1761). A vingança noturna dos lobos lhe caiu como uma maldição soturna e sanguinária.

Ursula Hoxha (1701-1779). Sua vida fora longa, mas vazia, ela simplesmente dormiu, nunca mais acordando.

Edmund Pleiter(1712-1735). Ele era habilidoso com as pistolas, mas seu rival era mais.

Além destes, haviam outros incontáveis nomes. Aquelas escrituras só o fazia mergulhar em sentimentos mórbidos. Nomes de pessoas mortas não lhe ajudariam em nada naquele momento.

Um mausoléu a sua frente lhe chamou atenção, lhe passaria despercebido se não fosse seus limiares exageradamente altos, de um escarlate rubro e chamativo. Suas maçanetas ondulares não estavam enferrujadas e sua cor parecia ter sido retocada recentemente, pois não estava desbotada. A entrada era antecedida por degraus duplos, feitos com monólitos rústicos. Guardado por duas gárgulas de pedra, uma em cada lado, suas imagens empoleiradas e adormecidas, por mais que não fossem reais, lhe despertavam desconforto. A estrutura de mais de três metros, não possuía janelas, ou qualquer fissura que lhe permitisse olhar para dentro, pois continha somente uma entrada.

Cemitério de rosasWhere stories live. Discover now