Capítulo I - Episódio 3

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Jazz Gilvaz se arrumava para mais um dia de trabalho. Mais um dia de monotonia em seu péssimo ganha-pão. Estava ficando cada dia mais difícil acordar e enfrentar sua rotina.

Jazz não odiava seu trabalho. Ela era flautista e ganhava dinheiro animando os dias e as noites de uma estalagem local, na cidade de Nortal, uma grande e fortalecida cidade ao norte do Planalto Solar.

Seu emprego era fixo, o que implicava em dez dias de trabalho e um de descanso, que seu patrão ainda dava de mau agrado. Se havia uma coisa que os escravos não tinham substituído, era o posto dos bardos. Jazz agradecia por isso, por não ficar sem ter o que fazer. Já passava fome com frequência, o que seria dela sem esse trabalho?!

Jazz odiava o procedimento exigido pelo seu patrão: roupas elegantes e extravagantes, maquiagem, cabelo arrumado e um sorriso falso no rosto. Ela preferia os tempos de infância, quando sentava na grama, no meio das árvores e tocava sua flauta de cobre sem precisar agradar ninguém, acompanhava os pássaros e o som do vento, que pareciam peça fundamental de suas canções quase em perfeita harmonia.

Hoje, ela tinha que sentar em uma cadeira de madeira, acompanhar Gerson em seu acordeon e George em seu tambor. As canções eram belas, assim como as que tocava com a natureza, mas algo faltava em seu corpo. Não se sentia completa.

E sempre que lembrava de si, como um ser em pedaços, não era só em sua alma que pensava. Pensava também em seu corpo.

Toda manhã, vestia sua roupa engomada com um enorme decote e passava maquiagem. As marcas em seu corpo e em sua face faziam as sombras em seu peito aumentarem. Não havia um dia sequer que as lágrimas não tentavam sair de seu rosto e que a agonia trancava sua garganta.

Sua pele branca, seus olhos azuis e seus cabelos castanhos perfeitamente lisos não eram mais suficiente para se sentir bela. Na verdade, nada disso tinha valor. Foi há três anos, quando a grande onda veio, tudo mudou.

Agora, se preparando para mais um dia, passava maquiagem em seu peito e em seu rosto, que já era branco como o leite, mas queria que as marcas também desaparecessem. A maior de todas as era um grande corte irregular que subia da sua barriga até o pescoço. A grande mancha marrom marcava quase todo o corpo de Jazz, passando entre os seios e enrugando todo seu pescoço.

Ela agradecia ao sol todos os dias por não ter perdido um seio no acidente.

Mesmo com as tentativas de esconder as manchas no peito e no rosto, as marcas eram fundas demais. Elas enrugavam a pele e faziam a forma disforme do corpo ficar nítida. Nem pó de arroz e nem pó químico conseguia esconder.

Os anos passaram e ela se acostumou com aquilo, pagando com a tristeza eterna que a seguia em todos os seus dias.

Jazz também se acostumou com seu nome. Jazz Gilvaz, dado por homens bêbados na estalagem que caçoavam da grande mancha que atravessava o rosto.

— A gilvaz! — eles diziam e riam, enchendo as panças gordas de cerveja e biscoitos de trigo e de milho.

Jazz agradecia por parecer horripilante. Pelo menos aqueles homens não tentavam lhe agarrar para beijá-la como faziam com a maioria das mulheres que apareciam na estalagem.

Além da rotina desanimadora, havia outra coisa que estava incomodando Jazz. A sombra que havia se alastrado pelo Planalto Solar e o início da escravidão fizeram com que religiões de Vanatoris começassem a se instalar por ali. A escravidão poderia parecer cômodo, mas apenas para fazendeiros, donos de empreendimentos e governantes. As pessoas comuns não se interessavam em ter escravos. Muitos dos operários eram amigos dos Terras-Ruins antes da escravidão. Muitos estavam perdendo o emprego, pois é preferível ter um escravo na ferraria como ajudante do que um trabalhador. Para esses homens comuns, havia o medo da fome e de que o imperador um dia enlouquecesse e começasse a sancionar leis tiranas. Para esses, restava a oração e a fé de que tudo continuaria bem.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora