17

101 28 36

• IMOGEN •

– Sê sincera comigo – começo por dizer. – Já aconteceu algo entre ti e o Rick?

Annaleah olha para mim, em choque. – Como sabes disso?

Eu rio-me. – Não é muito difícil de perceber, Leah.

– Terminou há muito, quando decidimos deixar este mundo para trás. De qualquer modo, não há necessidade de retornar a algo que não era bom para nenhum dos dois.

– Acho que o Rick não partilha da tua opinião – digo, com a certeza das minhas palavras. A forma como ele olha para ela, ou como lhe fala ou mesmo os seus pequenos gestos. É impossível não perceber que ainda existe ali sentimento.

Annaleah encolhe os ombros, como se não quisesse saber. No entanto, sei que as minhas palavras lhe provocam algo.

Perdida na conversa, continuo cegamente a seguir Kai e Rick que assumem a liderança do nosso pequeno grupo. Em nosso redor, tudo começa a ficar escuro. Rick disse que eram somente três quarteirões, mas sinto como se já tivesse percorrido uma milha.

As sombras rapidamente pintam os prédios abandonados de solidão. Não me provocam medo, de todo, mas a minha pele arrepia-se de alguma forma. Há algo naquele silêncio que me incomoda. Somente se ouve os nossos pés a embaterem no asfalto. Há algo de errado. O meu coração dispara pelo alarme.

Um vulto surge à minha frente como que vindo do céu, sem provocar qualquer barulho. O meu instinto dispara e a toma o protagonismo. A minha mão agarra de imediato no cabo da minha espada e empenha-a. Dou um passo para trás, protegendo com o meu corpo Annaleah, afim de obrigar quem quer que seja a entrar no campo onde há o mínimo de luz. Quando identifico os olhos negros, iguais aos meus, o meu sangue gela. Kakois.

Vejo mais quatro vultos a aproximarem-se. Sem pensar duas vezes, ataco o que mais perto de mim se encontra. O ar que me envolve parece não existir. Acontece sempre que uma arma se encontra na minha mão e o kakoi dentro de mim liberta-se. Sei instintivamente o que fazer. É como se o resto do mundo não existe, apenas eu, a minha arma e a minha presa. Não há lugar para dúvidas ou momentos de hesitação.

Sem qualquer dificuldade, consigo vencer e a minha espada enterra-se no peito do kakoi. Não tenho sequer tempo de verificar se realmente o mato, pois um grito agudo faz-me perder a concentração. Procuro a origem da perturbação num frenesim desenfreado.

– Annaleah! – Clamo.

Não a encontro em lado algum. Mais ao fundo da rua, vejo Kai e Rick a lutarem, ambos com um kakoi. Continuo a averiguar a situação o melhor que posso através das sombras e encalces da rua abandonada. Os kakois não são mais do que quatro, à nossa medida. Pelo menos, esse foi o número de vultos que conseguiu identificar. Matou um, outro encontra-se com os rapazes. Então onde estão os outros dois?

Então vejo um relance do seu cabelo loiro. Um kakoi agarra-a no cimo de uma carcaça de um carro velho, a poucos metros de mim. Sem pensar, corro na sua direcção.

A mochila nas minhas costas parece pesar mais de dez quilos – o que não se distancia muito da realidade. Com esforço, corro na direcção de Annaleah e do kakoi. Determinada, a rapariga continua a esbracejar contra o seu aperto.

Estou a chegar perto deles, quando alguém se aproxima. Rick. Deve-me ter ouvido a gritar pela rapariga. Olho para ele e assinto. Ele parece entender a minha mensagem e prossegue na direcção deles, enquanto eu mudo de direcção. Precisamos de matar o outro kakoi. Se ele fugir, pode denunciar ao seu general. O meu estômago revira-se de nervosismo ao pensar em Amriel. Contudo, agora não é o momento.

Páro no meio da rua e olho em redor, perscrutando todo e qualquer detalhe. O silêncio já não existe, com os sons de luta que se propagam pelo espaço, mas ignoro-os. Preciso de ouvir a sua respiração. O outro kakoi está por aqui, consigo senti-lo.

O golpe na minha perna vem com aviso, mas atrasado. Grito de dor no momento em que a lâmina entra na minha coxa. Mesmo sob esse efeito, consigo afastar o meu opressor. Arrasto-me para a parede mais próxima. O cimento está morno, tal e qual como a minha perna devido ao sangue que por ela corre.

Ele desapareceu novamente.

O meu corpo, ainda cansado devido à caminhada, dói mais devido ao corte. Obrigo-me a largar a mochila, pois só me atrasa. Estar aqui parada é o mesmo que ser um farol aceso na noite – a armadilha perfeita.

Dito e feito, o kakoi reaparece no meu campo de visão. É extremamente alto, e por momentos receio que seja Amriel. No entanto, quando chega perto o suficiente de mim – menos de um metro de distância –, percebo que não é. O meu corpo exala alívio. Não estou de todo preparada para esse confronto.

A surpresa toma conta do rosto do kakoi no momento em que se apercebe de quem eu sou. Aproveito essa indecisão para conseguir elevar a minha espada. Ele dá um passo para trás.

– Vamos, luta comigo! – Berro-lhe.

A sua hesitação está a provocar uma fúria em mim que eu desconheço. Questiono-me porque ele não reage.

Afim de instigá-lo, dou um passo na sua direcção. A minha própria determinação surge como algo completamente novo. Se começaram aquela disputa, agora têm de a levar até ao fim. Até porque ele não pode sair daqui com vida. Louca com a adrenalina, invisto contra ele. Naquele momento, não há a possibilidade de ele ser mais forte que eu. Somos iguais. Sinto tudo o que há de kakoi em mim a bombear as minhas veias e a impulsionar-me para lutar mais rápido, mais forte. O corte na minha perna já nem produz dor.

A fome, a sede pela matança – é isto que tanto receio. É a consequência do que me fizeram e induziram durante anos. Mas agora não há volta a dar. Luto contra o meu igual como se a própria existência dependesse disso. Eu já sei que ele não me vai matar, embora desconheça o motivo. Mas eu vou.

Estou demasiado embrenhada na luta. Invisto contra todos os seus ataques, e faço o mesmo sempre que tenho a possibilidade. Uma dor dilacerante atinge o meu ombro direito e eu cedo sobre a minha própria dor. A espada cai aos meus pés, acompanhada de um leve toque metálico. A minha mão dirige-se para o local onde a dor está a ser gerada, para encontrá-lo húmido e quente. 

O incidente não o demove de continuar a atacar-me. Sem a minha arma na mão, tento ao máximo fugir dos seus golpes, tal como treinei tantas vezes nas últimas semanas com Kai. Ele reviu connosco tantas situações possíveis que podem acontecer ao nosso assalto ao Quartel, é quase impossível não me sentir pronta agora.

Automaticamente, o meu pensamento corre para Kai. Pergunto-me onde estará ele. Ter-me deixado para trás nem sequer faz parte da equação, afinal é ele que precisa de mim e não o contrário. Ou talvez, ache eu que é assim meramente para continuar a enganar-me. Silenciosamente, grito por ele na minha mente para que me venha ajudar.

A minha súplica é interrompida por uma flecha que rasga o ar e vai de encontro ao olho do kakoi.  Não tenho tempo para ficar chocada, aproveito a oportunidade e corro para apanhar a minha espada. Sem qualquer dificuldade, agarro-a com a mão esquerda. Todos aqueles treinos têm de me valer de alguma coisa. Apesar de na altura ter achado muito aborrecido, agradeço mentalmente a Kai por insistir para que treinasse com a mão contrária à que estava habituada.

Sem um pingo de hesitação, dou uma volta em torno de mim, afim de conseguir atingir o kakoi no flanco. O grito gutural que sai da sua garganta desenrola-se como música para os meus ouvidos. Antes que ele consiga perceber o que está prestes a acontecer, volto a girar a lâmina impulsionando nela toda a minha força. Sinto sangue a saltar para a minha roupa ao mesmo tempo que observo a cabeça a rolar perto dos meus pés. Sinto um enorme refluxo de vómito, mas esforço-me pelo controlo de não vomitar no meio da rua.






****

OLÁ! Hoje vão ser publicados dois capítulos. No entanto, os dias de publicação já foram definidos e vou começar a publicá-los aos sábados e aos domingos.

Outra actualização é que os Filhos das Ruínas já têm conta no instagram: pattsemedo. Sigam para estarem a par de todas as novidades, novos capítulos e curiosidades sobre a história e os personagens.

Boas leituras *

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now