VI - Karaokê Pausini

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As ruas de Acapulco lembram as ruas de alguma cidade litorânea do Brasil. Pelo menos, é o que Thiago enxerga ao sair do hotel. Os faróis dos carros, as pessoas, o vento, o casal de brasileiras conversando perto de onde ele está, enquanto esperam um táxi.

Acapulco não tem muitos turistas internacionais. Ela costuma atrair os próprios mexicanos, vindos especialmente da Capital. Porém, a cidade, em específico, talvez, aquele hotel, atrai muitos brasileiros. A paixão por Chaves, ou El Chavo del Ocho como é conhecido ali, é o que costuma trazer tanta gente.

Gente como Thiago e Karin.

Nunca compreendi muito bem o amor de Karin por aquele seriado, ela dizia que era uma paixão herdada da mãe e depois sempre matava o assunto. Confesso não ter me interessado em saber mais, Karin sempre amou muitas coisas.

— Decidiu para onde vamos? — Ela aparece, enroscando seu braço esquerdo no direito de Thiago.

— Sim — ele responde, simplesmente, e não diz mais nada, apenas caminha com Karin até um dos táxis que estão parados em frente ao hotel.

O lugar é exatamente como Thiago havia imaginado: a predominância de verde e vermelho, jovens reunidos prontos para zoarem uns aos outros, e algumas pessoas avulsas, aparentemente presentes ali apenas pela bebida (ou para ver o mico dos turistas).

Thiago está pronto para dar o melhor de si: beber e fracassar, mas esse não parece ser o plano de Karin.

— Você estava mesmo falando sério quando falou do Karaokê — ela constata o óbvio.

— Achou que eu estava brincando?

— Você está em Acapulco! De tantas coisas para fazer aqui a noite, você escolhe isso? — Ela abre os braços, como se apresentasse o lugar a Thiago.

— Sim. Exatamente isso — o rapaz responde de maneira ríspida, fechando a cara de uma vez, como se tivesse acabado de ver alguém que detesta. Karin pensa em perguntar o motivo daquela mudança de humor, porém, já não tem mais idade para bancar a psicóloga, muito menos para ficar ouvindo lamúrias. Só que também não aceitaria que Thiago a tratasse mal, por motivo algum.

— Ei! Tenha calma! Só fiz uma pergunta.

— Me desculpa, não queria ter sido ríspido. É só que... — Por um breve segundo, pensa em dizer a verdade, no entanto, a verdade, ali, estragaria tudo. — É como se algo estranho tivesse passado por mim. Uma sensação.

Karin lança para ele um olhar em um misto de incredulidade e zombaria. Mas eu duvido que Thiago o tenha compreendido. É preciso conhecer Karin melhor do que aquilo para decifrar seus olhares.

— Bom, não importa — ela desdenha. — De todo jeito, gostei da ideia — diz, passando o olhar pelas mesas, até encontrar uma que lhe agrada. Sem falar mais nada a Thiago, vai caminhando até o local. O rapaz a segue, calado. Ele pensa no quanto foi burro, mas sabe que não conseguiria controlar aquele súbito ataque de mau humor. Ele sabe que muitas coisas vão ficar incontroláveis de ali em diante.

1,2,3,7 shots depois e Thiago já está anestesiado. As dores na cabeça e no corpo, cuja causa desta última ele desconhece, parecem ter desaparecido. O rapaz sabe que elas estão ali, por baixo de todo aquele álcool, mas o importante é não senti-las.

Karin não foi embora e ele não sabe o porquê. A noite está sendo um fracasso, os dois mal conversaram. Para um primeiro "encontro" (americanizando completamente esta história), esse silêncio é inaceitável. Mas e quem disse que aquilo ali seria um encontro? Se eu desamericanizar o significado, sim, é. O encontro pelo qual Karin esperou a vida inteira, enquanto Thiago perdia seu tempo, como fazem os jovens que escolhem o curso errado na universidade.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora