Capítulo 3

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Ella

— Estou indo deitar, crianca. — Grogue de sono, dona Ester — como de costume — levanta-se antes de o filme terminar e já está pronta para dormir. Assistir TV depois do jantar e antes de se preparar para dormir é um programa comum em um lugar onde não tem tantas coisas para se fazer e assim, existem duas categorias: os que ficam na intimidade do lar, assistindo algo na televisão, como é o meu caso com a minha avó, já que e seu Murilo apaga bem antes de nós duas e os que ficam sentandos nas portas de casa, batendo papo com os vizinhos até tarde da noite. É daí que sai às fofocas no dia seguinte que elas mesmas se dão ao trabalho de espalhar.

Em um lugar onde se consegue enxergar a placa de entrada e a de saída sem que precise caminhar muito, todo mundo se conhece e consequentemente, sabe da vida do outro. Saber da vida do outro significa transformar uma fagulha em um incêndio e uma pequena fofoca em verdade absoluta.

Como já sou vista com estranheza por muitos, prefiro ficar dentro de casa mesmo, assim pelo menos não dou munição para a língua do povo. Felizmente, ninguém — além dos meus velhos — sabe do que aconteceu há um pouco mais de 2 anos nos roseirais, pois se soubessem, eu provavelmente seria conhecida como a garota que transou com um desconhecido no meio do campo.

— Boa noite, vó — respondo, vendo-a se levantar, ir até a cozinha e pegar o seu copo com água para levar para o quarto.

Para não levantar nenhuma suspeita, levanto-me também, escovo os dentes e quando estou indo para o quarto, fico atenta para ter certeza de que ela realmente já foi deitar. Como ela é uma senhora muito esperta, espero mais 30min antes de sair de fininho. Quando com cuidado fecho a porta atrás de mim, solto a minha respiração que até então estava presa e o meu coração está disparado dentro do peito. No momento estou tão nervosa que mais parece que estou saindo para cometer um crime e não para ter uma conversa com o todo poderoso e burro, Diego Estrada.

Por outro lado, talvez eu não esteja sendo exagerada na minha apreensão, considerando que já passa de 10h da noite, um horário nada propício, não quando estamos falando do vila das flores, lugar onde a disposição do povo em invertar coisas é pautada pelo tédio e falta de algo mais interessante para fazer. Olhando de um lado para o outro, me esgueiro pela lateral da casa, torcendo para que ninguém me veja.

Por sorte esse é um horário em que todos já estão dentro das suas próprias casas e eu posso pegar a minha bicicleta para ir atrás do filho pródigo. Atenta e rezando com toda a minha fé para que não exista uma alma viva me vendo neste momento, atravesso a praça e logo me arrependo por não ter colocado uma blusa de frio. Estamos em pleno inverno e não ajuda em nada sair de casa usando apenas um short de malha e uma blusa regata, isso para uma viagem que durará no mínimo 15mim, se por sorte eu for boa em pedalar como eu juro ser.

Já na entrada da fazenda a primeira coisa que eu vejo é um cachorro quase maior do que eu e a segunda é um homem que de tão alto e forte mais parece um armário. Ele está mantendo guarda perto do chafariz que fica no centro do pátio, fazendo frente com a porta da sede da fazenda.

Foi fácil passar pela porteira, a missão agora é saber se será tão fácil entrar dentro da casa e falar com o homem.

O cachorro começa a latir quando percebe a minha presença e isso logo chama a atenção do gigante. Do começo do pátio vejo quando ele se vira e também nota a minha presença, a cara não está muito boa e com certeza pertence a um desconhecido. Não me lembro de já ter visto ele por aqui e suponho que tenha vindo junto com com o Senhor Diego.

Ele começa a vir na minha direção com passos duros e eu não faço ideia do que falar e nem como fazer meu corpo parar de tremer. A ideia parecia ótima na minha cabeça, mas não é o que acontece na prática.

Marcada por mim DEGUSTAÇÃO Onde as histórias ganham vida. Descobre agora