Capítulo I - Episódio 2

1 0 0
                                          

Vicky acordou com sua mãe jogando roupas em sua cara. Ficaria ali dormindo se não tivesse tanto pano em cima de si a ponto de não lhe deixar respirar.

— Me deixe dormir, mãe! — gritou tirando as roupas. — Não posso descansar nem um dia?!

— Hoje não! — gritou a mãe no mesmo tom fino da filha. — Vamos rápido! Hoje é o prazo para levar as peças de vidro para o palácio do imperador.

Sem vontade, Vicky se pôs de pé. Na frente do espelho, tirou os pijamas e ficou a observar seu corpo em plena transformação devido à adolescência. Com raiva de seus peitos crescendo, vestiu uma blusa larga e as calças que sua mãe havia jogado em seu rosto.

— Coma rápido — disse a mãe quando Vicky chegou na sala de jantar. — Só me falta você não estar pronta...

Vicky ignorou o discurso da mãe enquanto comeu um pedaço de pão com chá. Vicky não era de família pobre, muito pelo contrário, soldados imperiais costumavam ganhar bem. Entretanto, ela andava desanimada. Sem fome. Cansada. Com os pensamentos em outra pessoa.

— Filha! O que deu em você?

— E o pai, mãe? Quando ele volta?

— Ah, filha! Ainda vai demorar. Teremos notícias quando esse problema no sul terminar.

— E se ele não voltar?

— Cale sua boca e vamos. Temos uma vidraria para tocar.

Vicky seguiu a mãe pelas estradas do Platô Solar. A cidade era linda. Construída, durante anos, em volta do pico mais alto do planalto, foi transformada em capital quando o Imperador da época resolveu transformar o pico em uma fortaleza e lá se instalou.

Era óbvio que a burguesia e o exército se instalaria em volta. Só a alta elite do império do sol morava no topo da montanha.

Altura era status!

— Mãe, quero uma saia. — Disse Vicky, saíndo do devaneio enquanto pensava sobre a cidade. — É bem mais bonita que essas calças ou aqueles calções.

— Para que você quer uma saia, Vitória? — Agora era a mãe que falava tão fino, parecendo uma criança. — Para sair por aí tropeçando pelos cantos?

Vicky sentiu o rosto enrubescer. Não por estar levando um sermão da mãe, mas sim por ela estar gritando e fazendo todos na rua olharem para as duas.

— Acho elas bonitas, só isso. As longas são maravilhosas.

— Você sabe a história da imperatriz que morreu por tropeçar na saia? Não quero perder minha filha por burrice.

Depois daquele discurso final, seguiram em silêncio pelas ruas da cidade.

Platô solar costumava ter poucas carroças e muitos animais de carga. Na principal rua da cidade, cavalos e jegues carregavam comida e outros produtos morro acima e depois voltavam sem carga para descer a montanha.

As duas seguiram pela rua principal, junto com os outros habitantes e com os animais. Desviaram o mercado e seguiram por uma rua secundária, onde havia uma famosa praça. A Praça dos Artesãos. Em volta dela, ferreiros, jardineiros, marceneiros e outros artesãos tinham suas lojas instaladas, onde seus produtos eram construídos e também comercializados. Em um canto da praça, Vicky e sua mãe entraram na vidraria que era propriedade da família.

— Anastor — gritou, quando a porta mal se abriu. — Está com a entrega pronta?

Anastor surgiu de dentro de uma porta que dava acesso a parte interna da oficina, onde os vidros e cristais eram fabricados. Ele era um senhor de idade, com cabelos brancos e careca no centro da cabeça, usando roupas de artesão, suava feito um porco no sol, olhos arregalados e tremia feito bambu no vento.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora