Capítulo Cinquenta e Seis

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Elisa entrou na loja e seguiu até Dona Gê. Ela tinha parado diante de uma das gôndolas de calcinhas de renda fio dental, concentradíssima em decidir entre uma vermelha e outra preta.

Para algumas pessoas poderia ser difícil entender como uma senhora de mais de sessenta anos ainda usava fio dental, mas Elisa não era uma delas. Aliás, sempre tivera em Dona Gê um exemplo a ser seguido, especialmente depois de sua mãe a decepcionar muito com aquela conversa de prazo de validade.

Ainda não tinha conseguido perdoá-la, embora soubesse que precisaria resolver as coisas com Dona Nonô cedo ou tarde.

Que seja mais tarde.

– Boa noite, Dona Gê. Se eu fosse você, compraria a vermelha.

A amiga deu um pequeno saltinho, assustada, segurando os dois cabides com calcinha contra si.

– Elisa, que susto você me deu, menina! O que faz por aqui? Não, não responda. Fábio comentou que convocaria os mais novos papais para um banho de loja de móveis. – Dona Gê apontou para a barriga de Elisa e deu um sorrisinho. – Como se sente? Os enjoos continuam? Ouvi dizer que anda ignorando a Luana depois de acusá-la de ter feito a encomenda desses dois.

Elisa não se surpreendeu por Dona Gê saber da emboscada, nem por estar atualizada sobre sua vida. Ela sempre foi um livro aberto. Além do mais, Fábio, Luana e Dona Gê eram vizinhos de prédio.

Sem falar que agora seus amigos andavam passando relatórios uns para os outros, então a coisa só ficava pior.

Não lhe importava. Até preferia assim, já que lhe poupava o trabalho de contar.

– Ainda esta manhã vomitei os bofes só de sentir o cheiro do café da minha mãe. Sobre a Luana, ainda não quero papo com aquela salafrária.

Dona Gê não se preocupou com aquilo. Elisa era teimosa, mas tinha o coração mole, então logo fariam as pazes de novo.

Porém, havia outra coisa que ouviu de Andreia e sobre a qual poderia se informar melhor agora:

– Dona Nonô e você ainda não estão se entendendo desde a última briga? – Ao ver a careta de Elisa, Dona Gê continuou: – Sei que ela está nas nuvens pelos gêmeos, mas também sei que o relacionamento de vocês é igual costumava ser o meu com a minha falecida mãe. Gênios fortes dão briga na certa.

Elisa abriu a boca para voltar ao assunto das calcinhas, muito mais interessante do que o de sua mãe, mas bastou encontrar a expressão tranquila de Dona Gê para que mudasse de ideia.

Ela era uma das poucas pessoas com quem conseguia se abrir sobre aquele tema, então porque não aproveitar?

– Minha mãe está mesmo nas nuvens. Só fala em netinhos para cá e para lá. Mas o problema, Dona Gê, é que sempre aparece algo para nos fazer brigar. Eu recém estava pensando em perdoá-la pela história do prazo de validade e ela me aparece com outra, e mais outra.

– Quer me contar a respeito?

Elisa pensou um pouco.

– Bom, nem posso dizer que andamos brigando de verdade, mas o último "desacordo"... – Ela fez aspas com os dedos, pensando em como se explicaria. Por fim, apenas suspirou e disse: – Para resumir, hoje de manhã ela comentou que ia falar com Éder sobre os gêmeos. Não aguentei e saí.

Dona Gê sabia sobre quem Elisa falava. Nunca o chamava de pai.

– Eles continuam namorando?

– Parece que sim. – Elisa revirou os olhos. – Não dá para entender, sabe? Um relacionamento a distância e aberto desse jeito? Não engulo.

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now