V - O charme

49 10 18
                                                  

Karin aproveita a distração de Thiago para o observar. Ela também ama observar as pessoas. Enquanto o rapaz gosta de desenhá-las, Karin ama criar histórias para elas. O engraçado é que ela não consegue imaginar nada para Thiago, como se algo a bloqueasse.

Desde o dia em que o viu, ainda no hospital, Karin simplesmente não conseguiu imaginar nada para ele. Nenhuma história, nenhum futuro. Ela acredita que o interesse súbito que se criou dentro dela, por ele, tenha a ver com isso.

Não tem.

Karin sempre buscou um grande amor, mas é incapaz de notar os sinais dentro dela mesma. Nem mesmo quando o amor está ali, deitado ao lado dela.

Cada vez mais interessada pelo rapaz e sua história de fracasso na carreira, no amor e na vida, decidiu vir atrás dele.

Sim, eu já disse que Karin não é uma mulher normal, passa longe de ser um ser humano comum.

Thiago se remexe na espreguiçadeira, como se algo o incomodasse, e então se levanta.

— Vamos almoçar? — pergunta, esticando as mãos na direção de Karin. Ela se apoia nos braços dele e se ergue.

— Vamos!

— Você paga, milionária?

— Nossa, um cavalheiro desses, bicho.

— Uai, mas você vai pagar de todo jeito!

— Que seja, o importante é comer.

Então, os dois caminham juntos pela primeira vez em Acapulco. Eles ficam tão bonitos assim, lado a lado. A luz do sol que bate e se perde na pele de Karin, reluz em Thiago. Se alguém tentasse bater uma foto dos dois, sob essa luz, teria dificuldades.

Mas ninguém tenta. Karin e Thiago são dois anônimos, dois jovens sorrindo despreocupados, admirando silenciosamente um ao outro, duas pessoas com a vida inteira pela frente.

A vida inteira.

É bom ver Karin assim. Feliz. Leve. É bom ver Karin.

Eles chegam ao restaurante do hotel, um garçom os serve de pronto. Os dois se sentam à mesa mais afastada de todos, aquela mais escondida, como se precisassem de espaço e privacidade para que um segredo fosse revelado. Contudo, não há segredo algum.

Bom, se eu não levar em consideração aquilo que Thiago pretende omitir.

O garçom entrega à eles um cardápio, sem preços. E Thiago agradece aos céus por isso. Ele ainda se sente mal por ter aceitado aquela viagem, aquele luxo todo, o qual jamais será capaz de pagar. Agora com Karin ali, o encarando com aqueles profundos olhos negros, fica ainda mais complicado esquecer que é ela quem está pagando tudo.

E qual é o problema?

Por que Thiago se sente tão inferior por não ser capaz de pagar aquilo tudo? O rapaz mente para si mesmo ao pensar que o grande problema é Karin ser uma desconhecida. Quantas conversas serão necessárias para esse argumento cair ao chão?

— Você vai me dizer o que fez você mudar de ideia ou posso continuar imaginando que foi o meu charme que te convenceu? — Thiago puxa assunto, com humor.

— Mas foi o seu charme — ela brinca. — E as férias forçadas que me deram — admite, e faz seu pedido ao garçom. Thiago a acompanha na escolha, e logo depois devolve os cardápios ao funcionário, que os deixa.

— Férias forçadas? Quem ganha férias forçadas?

— Uma louca.

— Sua vida é sempre assim, cheia de coisas estranhas?

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora