Capítulo 2

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Ella

Depois de ter ilustrado até o teto e de estar quase na hora do almoço, parei para cuidar das minhas rosas e prepará-las para outras pessoas. Os cuidados estão basicamente em cortar os espinhos, separar em ramalhetes e enrolar fitas de cetim em algumas delas, para o caso de algum apaixonado querer comprar o buquê ao invés da unidade.

Enquanto de maneira minuciosa faço o meu trabalho, tenho a minha atenção atraída pelas vozes dos meus velhos e logo me impertigo. Deixo de lado o que estava fazendo e me encaminho para recebê-los na porta. Pelas suas expressões não dá para saber como foi a tal reunião e a apreensão e curiosidade, corroem as minhas entranhas.
— E ai, gente, como foi? — pergunto logo que eles entram.

— Calma, criança. Deixa os seus avós entrerem e se sentarem primeiro. Sabe que já não temos mais a sua idade, não é menos? Esses ossos gastos precisam de descanso. — Seu Murilo, tira o seu chapéu de palha que de tanto usar, ele acaba esquecendo de tirar da cabeça nos dias em que não está trabalhando no campo.

— É claro — De frente para o sofá, vejo-os se acomodarem, minha avó calmamente tirar a bolsa do ombro e colocar do seu lado sobre o sofá que deve ter mais idade do que eu.

Na realidade queria mesmo é ter ido para a reunião, mas, como senhor Diego convocou somente os trabalhadores dos campos de rosas e os que trabalham na lida da fazenda, eu fiquei de fora, uma vez que não me enquadro em nenhuma das duas categorias.
— O que o homem decidiu?

— Não há motivos para preocupação, pelo menos não por enquanto.

Meu avô começa, olhando de mim para a minha avó a não sei se dá para acreditar piamente no que ele afirma, já que na sua fala não existe qualquer firmeza.

— Pelo menos por enquanto? Me conta essa história direito, seu Murilo.

— O menino não tem qualquer intenção de ficar permanentemente aqui na cidade ou mesmo nas redondezas.

— Não?

— Não — Seu Murilo mais uma vez toma a palavra e continua: — Ele quer retornar a sua vida no Rio de Janeiro o mais rápido que puder e não pretende ficar por aqui mais do que o tempo necessário para deixar tudo em ordem.

— Como assim o tempo necessário? Colocar tudo em ordem? — Faço a pergunta mais para mim mesma, não podendo acreditar no que os meus ouvidos estão ouvindo.

— Foi o que ele decidiu, meu amor. Temos que respeitar e da forma como ele falou, creio que nada o fará mudar de ideia.

Meus ombros caem, o desanimo tomo conta do meu corpo e não consigo entender a calma dos dois. Como podem estar tão tranquilos quando a vida de todo mundo está em jogo por causa de decisões de um cara mimado que provavelmente nunca soube o que é trabalhar e por isso não deve dar valor ao que o seu pai deixou? Não faz ideia do que o legado do seu pai representa para toda uma cidade e por isso não tem a menor empatia.

— O que o idiota pretende com isso de colocar tudo em ordem?

— Ele pretende observar o trabalho dos administradores e quando estiver seguro de que são confiáveis, partirá para o Rio, lugar onde ele pretende continuar vivendo.

— É o que ele pode saber da lida com a fazenda e dos reseirais para decidir se alguém está ou não prestando um bom serviço? Quando esse homem esteve aqui por mais de dois dias para saber  algo a respeito do trabalho que o pai veio fazendo por toda uma vida?

Estou furiosa e a minha reação fica parecendo desproporcional, se comparada com a calma que os dois estão.

— Não podemos fazer nada, criança. Se você visse como o menino mudou. Ele não é nada daquilo que foi um dia.

Marcada por mim DEGUSTAÇÃO Onde as histórias ganham vida. Descobre agora