PORTUGUESE - Clarissa_Cavalcanti

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3. Eu me lembro by Clarissa_Cavalcanti

" Eu não me importo com quem você é, se você tocar com sucesso a música do meu coração então eu vou amar você"

- Dente de leão


Eu me lembro da primeira vez em que eu te vi, ou quase isso. Lembro de pensar que aquela turma de desconhecidos no primeiro ano do ensino médio era estranha, mas também me lembro de achar graça no seu sobrenome, igual ao do meu pai. Eu te chamava de primo por causa disso, mas nunca fomos próximos de fato. Passamos mais de um ano nos falando muito pouco, ou quase nada. Éramos praticamente estranhos, mas às vezes você me abraçava de manhã quando eu te encontrava encostado na mureta em frente a nossa sala no segundo andar. Seu abraço era tão bom. Seu toque era macio e seu corpo encaixava no meu, nossos corações próximos sem ao menos perceber a intensidade daquilo.

Eu me lembro da primeira vez que eu segurei a sua mão, quando eu briguei com meus amigos e começamos a andar juntos, mais de um ano e meio depois de nos conhecermos. Fomos muito mal na prova de física, você andava cabisbaixo entre mim e seu amigo quando fomos buscar um livro de física de partículas na biblioteca do campus. Eu segurei sua mão e disse que tudo iria ficar bem, que aquela prova não significava nada. A prova podia não significar, mas o gesto significou. Eu pude ver em seus olhos que algo aconteceu quando eu entrelacei meus dedos nos seus. Eles eram compridos, com pequenos calos do violão na ponta, mas a palma era macia em contato com a minha.

Eu me lembro da primeira vez que você me encantou, deitado no meu colo na frente do campo de futebol falando tão animado sobre uma série que eu nunca iria assistir, mas eu prestava atenção em cada palavra. Eu sempre prestava atenção em tudo que saia dos seus lábios, cada detalhe, sua empolgação quando falava de algo que gostava capturou meu coração e enquanto voltava para casa naquela tarde eu me perguntava o que era aquilo que eu sentia quando tocava em você e ouvia sua voz.

Eu me lembro do nosso primeiro beijo, atrás das cortinas depois da peça da nossa turma. Antes da peça, os meninos debochavam de você por não ter uma namorada e eu disse que a partir daquele momento, até o fim da peça, estávamos namorando. Você ficou vermelho e segurou minha mão com força, eu segurando a sua também. Parecia que não ia soltar nunca mais. Eu não queria que soltasse. Quando a peça terminou, fomos para trás das cortinas e nos abraçamos, então você olhou em meus olhos naquela meia luz cor de âmbar e encerrou a distância que havia entre nós dois Meu corpo inteiro se derreteu naquele momento enquanto eu passava os dedos pelos seus cabelos, prolongando os segundos o máximo possível. Eu não consegui esquecer aquele beijo quando toda a turma foi tomar sorvete depois da apresentação, todos cochichando sobre nós dois. Quando eu cheguei em casa, havia uma mensagem sua, um texto gigante que me fez sorrir enquanto eu lia você, nervoso, dizendo que havia gostado do beijo e querendo entender o porque de eu ter ficado tão sem jeito.

Eu fiquei sem jeito porque naquele momento, depois de muito tempo, alguém roubou o meu coração.

Eu me lembro dos dias que decorreram a peça. Sua mão encaixada na minha e seus lábios encontrando os meus timidamente quando nossos amigos escapuliam de propósito para ficarmos sozinhos. Nós dois sentamos no banco da praça do campus e conversamos sobre o que iríamos fazer. O problema é que nós dois éramos tão confusos, mas eu sentia que você tambem sentia algo. Resolvemos ficar juntos, sem rótulos, sem nomes, e ver no que ia dar. Mas não agíamos exatamente assim.

Eu me lembro de não nos separarmos mais, das nossas conversas intermináveis sobre o universo, filosofia, sobre as verdades do mundo e o que queríamos da vida e para a vida. Você sempre queria entender as mulheres eu eu te explicava o melhor possível( nem as mulheres sem entendem). Quando não estávamos nas aulas, ou aprendendo sobre quarks e energia escura, você tocava violão em qualquer lugar em que conseguíssemos sentar. Sua voz era incrível. Você cantava Morena, Djavan, Caetano Veloso e eu, uma soprano meio desafinada, tentava te acompanhar. Nossas voz se enroscavam no ar cantando There's Nothing Holding me back e tudo parecia perfeito, até mesmo o dia que a amiga da sua avó nos viu juntos no ônibus voltando para casa.

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