Capítulo único

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Jasmim não queria ir ao baile. Íli queria dançar, ver sues colegas arrumades, talvez provar comidas novas, mas não queria usar nenhum tipo de terno ou vestido.

Um terno ou vestido formal seriam inadequados na opinião de Jasmim. Os modelos remetem a íli de como o mundo quer que íli se encaixe em homem ou mulher. Uma roupa casual também faria Jasmim se sentir menor.

Jasmim adoraria usar um vestido estampado com animais fofinhes, flores estilizadas ou doces bonitinhos. Mas íli não queria ter que lidar com piadas, risadinhas, comentários sobre íli parecer "uma boneca" ou "uma menininha".

Jasmim estava preparadi para ficar a noite inteira em seu quarto, brincando de festinha com suas pelúcias. Talvez isso fosse algo infantil para umi adolescente, mas era um jeito díli se distrair, afinal seu grupo de amizades estaria no baile.

Até que seu irmão, Alex, bateu na porta.

- Jas, tá pronti?

Jasmim colocou rapidamente suas pelúcias no lugar, destrancou a porta, e explicou que não tinha roupas boas para ir ao baile.

Alex parecia ter um misto de tristeza e raiva no rosto, mas esperou um momento para acalmar-se.

- E por que você não me falou isso antes?

- Porque achei que ninguém ia se importar. Iam achar que eu fiquei doente ou coisa assim.

Alex, sendo transmasculino, deveria entender o sentimento de não comparecer a eventos por causa de sua disforia, mesmo que atualmente já fosse visto como homem. Alex era não-binário, mas não se importava em ser tratado como homem para quem não conseguia pensar além do binário.

- Tá. Você quer sair junto comigo e fazer outra coisa?

- Você não tinha planos pra hoje?

- Sim, mas não quero te deixar sozinhi assim. Quer... tomar sorvete?

Jasmim assentiu, e foi se arrumar para sair.

Es dues irmanes foram numa sorveteria, conversaram sobre as similaridades e diferenças da disforia que sentem, e então entraram no assunto do que faria Jasmim confortável.

- E se você usasse um terno com uma saia? Seria um visual bem andrógino.

- Mas eu não sou andrógine...

- Tá, um visual não-binário.

- Então... geralmente eu não falo isso, mas meu gênero é gênero-fofo. Me sinto confortável usando coisas fofas, não coisas que confundem a cabeça ou que ficam entre homem e mulher. Mesmo que eu também não consiga usar coisas femininas demais, porque sei o que es outres pensam.

- Isso explica bastante coisa.

- É.

- Mas eu não vou zoar. E não vou ficar falando, se você não quiser. Nossos gêneros são o que são. A maioria também não entende como eu posso ser não-binário se pareço agir como homem trans. E se eu posso ser transmasc e não me encaixar muito bem em homem, você pode ter uma identidade baseada em coisas fofas sem ser feminini ou mulher.

- Obrigadi por entender...

- De nada. Vamos voltar pra casa e procurar umas roupas pra próxima festa?

- Tá bom. Obrigadi mesmo.

Jasmim sorriu, o que fez Alex sorrir também. Ambes voltaram para casa e passaram horas na internet pesquisando sobre estilos alternativos que se encaixariam no que Jasmim precisaria para se sentir confortável.



- Epílogo -

Era o aniversário de Jasmim, que tinha decidido convidar sues amigues do colégio, seu irmão e algumas amizades dele, para ir numa pizzaria.

- Aliás Jas, você vai nos 15 anos da Carla? Porque o traje vai ser... formal, sabe. - Miriam, uma das amigas de Jasmim, evidentemente não queria trazer memórias ruins, mas não o suficiente para evitar esse assunto.

- Sabe, eu até queria, mas... sei lá. Nem sou tão próximi dela, e ainda não tenho roupa.

- Achei que você já tivesse resolvido isso no dia do baile?

- A gente viu possibilidades, mas roupas são caras.

Alex levantou de forma desajeitada.

- Eu posso ter uma solução pra isso! Esperem aí.

Logo depois, Alex saiu da mesa.

Jasmim olhou Alex indo embora, depois voltou a olhar para o resto da mesa, com uma expressão confusa.

- Como assim?

O resto das pessoas da mesa parecia esconder alguma coisa, mas logo mudaram de assunto.

Alguns minutos depois, Alex voltou com uma caixa grande, e a deu para Jasmim.

- Toma. É seu presente.

Miriam também interviu:

- E muita gente ajudou a comprar ele!

Jasmim abriu a caixa. Nela, estava dobrado um traje de festa, composto de uma bermuda lavanda num tecido de terno, que parecia ser justa, de uma camisa em estilo vitoriano azul clara com estampa de pequenas coroas estilizadas amarelas e laço amarelo, de um colete da mesma cor da bermuda, mas de um tecido mais suave e macio, e de uma boina também lavanda, mas com uma pequena flor de jasmim bordada em uma das laterais.

Para a maioria das pessoas, talvez aquele traje fosse ridículo, infantil, mal-pensado; assim como a própria identidade de gênero de Jasmim.

Mas, para Jasmim, aquilo nada mais era do que o presente mais dedicado que poderia receber: uma roupa formal que cumpria com todas as suas expectativas.

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