Capítulo 14 - O dono da festa

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Quando dei por mim, estava no meio de um dos salões da mansão dos Darby. Alguém tinha colocado um copo de bebida na minha frente. Música clássica alta tocava no ambiente e todo mundo parecia estar se divertindo. As risadas eram altas, as conversas pareciam infinitas e eu me sentia fora de mim. Como se estivesse vendo toda cena de cima, longe do meu corpo, só conseguia me questionar como é que eu tinha ido parar ali.

― Lucas! ― Alguém chamou no meio daquela multidão.

Eu me virei, tentando descobrir de onde vinha o chamado. Tudo parecia igual naquele salão lotado. Beberiquei minha taça, confuso. Minhas lembranças da condecoração eram muito confusas também, para ser bem sincero. Eu estava tão entorpecido pela mais absoluta vergonha que não conseguia me lembrar muito do bem dos meandres e muito menos como vim parar aqui. Comecei a passar mal e perder a completa noção dos fatos no segundo que o carro cruzou os portões do palácio de Buckingham. Do palácio. Não dava para me culpar. Não muito, pelo menos.

As coisas só foram piorando no decorrer dos eventos subsequentes. Só reparei que estava com falta de ar quando já estávamos fora do carro, prontos para entrar por uma das laterais. E, na verdade, estava tão apavorado que só reparei mesmo porque Sebastian começou a tentar me abanar de qualquer maneira.

― Lucas? ― Seb chamou, com seu sotaque pesado. Estávamos do lado de fora do carro, prontos para entrar por uma das laterais do Palácio. ― Você está bem?

Eu assenti, apesar de não estar nada bem. Minha respiração estava entrecortada, meu coração descompassado e minhas mãos suavam, apesar do frio da noite londrina. O que eu estava fazendo ali? Na porta do Palácio de Buckingham como se não fosse um simples brasileiro fazendo intercâmbio. A sensação era que a qualquer momento alguém ia ver aquela fraude. Por trás daquele rapaz de terno chique e cabelo cortado, eu era um completo ninguém.

Eu olhei em volta, pensando se havia alguma chance de eu conseguir meter o pé. Todavia, antes que eu pudesse chegar a uma conclusão, a equipe de recepção veio nos dar as boas-vindas e passar uma série de recomendações e orientações. Me esforcei muito, mas só consegui prestar atenção plena em menos de um terço do que eles estavam dizendo. Porém, quando tudo acabou e eles perguntaram se eu entendi, disse que sim. Comecei a rezar para não fazer nada errado. Tenho certeza que ofender o protocolo de etiqueta com o Rei deve ser motivo para extradição.

― Lucas! ― A voz me chamou de novo, fazendo com que eu me virasse para o outro lado.

Eu me lembrava de entrar no palácio e ser assessorado pelos caminhos que deveria seguir. Lembro de Seb me dando um abraço desajeitado quando a equipe disse que precisava levá-lo para seu lugar na audiência. Alguém me mandou esticar as costas. Outra pessoa secou o suor que começava a se formar na minha testa. Uma terceira pessoa me disse que quando ela abrisse as portas, eu tinha que caminhar até a frente do salão sem desviar os olhos do Rei. Eu ouvi tudo tentando segurar o vômito.

Tinha passado todos os anos da minha vida tentando viver nas sombras. Já tinha tido toda a quota aceitável para uma vida de fama quando meu pai era um jogador de futebol de sucesso. Sua história era repercutida em tudo quanto era programa de esporte e todo mundo queria fazer uma entrevista com Lucas, o filho academicamente brilhante de Souza, mas que não sabia nem chutar uma bola. Não tenho muita certeza sobre o fato de ser academicamente brilhante, mas é verdade total que eu não sei chutar uma bola. Quando meu pai começou a decadência e afundou sua carreira, todo mundo queria entrevistar a família para saber como estávamos lidando. Ora, como será que estávamos lidando com o fato dele ter se tornado alcoólatra, perdido o trabalho e abandonado sua família, não é mesmo?

Quando meu pai voltou aos holofotes, anos depois, se dizendo equilibrado, o hype dos jornais não era o mesmo – e eu já era velho o suficiente para tomar minhas próprias decisões e não mostrar a minha fuça em nenhuma das escassas reportagens que resolveram fazer sobre ele. Sempre fui uma criança reservada e que vivia na pressão de ser como meu pai. Toda situação só piorou minha fobia de estar em uma situação de destaque.

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