08. Not Today

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Se queremos viver um amor jovem, melhor começarmos hoje

(Not Today – Imagine Dragons)

LÍVIA

Lívia admitia que tinha o péssimo hábito de classificar tudo. Classificava as músicas que ouvia em: dançante, bad vibes e para relaxar.

Também classificava suas roupas em roupa de ficar em casa; de sair com os amigos; e velhas demais, porém confortáveis para serem pijamas.

Classificava os jogos de vôlei que participava em fantástico, mediano ou fraco.

E claro, classificava os alunos do colégio São Mariano.

Lívia achava interessante a dinâmica do colégio na hora do intervalo. Não fazia uma classificação óbvia e clichê como os populares, os nerds e os "normais".

Não. Ela os classificava fazendo analogias com esportes. Os alunos eram classificados em futebol, vôlei e natação.

Futebol eram os superestimados, os queridinhos da maioria esmagadora dos alunos e professores. Eles não precisavam se esforçar para serem notados ou amados.

Helena, Aurora e Marcelo eram alguns dos alunos futebol.

Os alunos vôlei eram aqueles que precisavam se esforçar para serem mais queridos, e que nem todo mundo gostava. Eles viviam no limiar entre "sou conhecido por várias pessoas" e "muita gente não vai com a minha cara". Definitivamente o grupo vôlei era do Benito, Mirella, Tito e da própria Lívia.

E por último, os alunos natação. Aqueles que estavam na maior parte do tempo sozinhos, mas que eram obrigados a socializar em equipe às vezes.

Lívia gostava dessa classificação. Era fácil, divertida e nem todos poderiam entender.

Ela observava perfeitamente essas divisões enquanto caminhava ao lado de Helena para uma área mais afastada do grande colégio. Iriam ter uma conversa confidencial. E seguindo o ritual de todos os dias, Helena recebia cumprimentos de todo mundo pelo caminho.

— Você ao menos sabe quem é metade dessa galera? — Lívia perguntou com uma careta.

— Não conheço todos, mas eu sou educada e respondo os cumprimentos — deu de ombros de forma displicente.

Lívia riu leve e balançou a cabeça negativamente. Helena e seu jeitinho simpático que a colocava entre os alunos futebol.

As duas chegaram numa área afastada e sentaram-se em um banco de madeira nos fundos do colégio. Ali era bem mais calmo e não havia quase ninguém por perto.

— Então, me conte seu plano — Lívia pediu encarando os olhos azuis da irmã que eram um reflexo dos seus próprios olhos curiosos.

Helena suspirou e juntou as mãos sobre o colo antes de começar.

— Mamãe visita o túmulo do papai toda quinta-feira no período em que eu estou no centro de meditação — ela confidenciou um segredo que nem lhe pertencia.

Lívia sentiu o coração se apertar no peito. Tinha plena consciência que a mãe ainda amava o pai, afinal, ele havia sido o seu grande amor e às vezes a dona Ana subia até o sótão que havia na casa para ficar vendo fotos antigas da família.

O sótão era amplo, tinha uma claraboia linda e costumava ser o escritório do pai. Ele ficava lá, quietinho e estudando, mas a mãe havia comentado que quando eles eram bebês, o pai levava os três lá pra cima e os colocava para ficar olhando o céu estrelado através da claraboia.

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