06. Orgulho e Preconceito

1K 190 25
                                    

HELENA

Helena estava sentindo uma leveza espiritual que dinheiro nenhum no mundo poderia pagar. A verdade é que tomou a melhor decisão de sua vida há um ano atrás quando disse que gostaria de ingressar no Centro de Meditação.

Sri Chinmoy diz, em seu livro sobre meditação, que se você estiver meditando corretamente, você sentirá uma alegria interior espontânea.

O que isso significava para a garota de olhos azuis profundos?

Bom, ela não precisava de boas notícias para se sentir alegre, como, por exemplo: "Oh querida, seu pai está vivo".

Também não precisava de presentes materiais ou imateriais para sentir essa alegria, como adquirir uma edição de colecionador de qualquer livro de Jane Austen, ou então receber qualquer elogio sobre sua aparência ou personalidade.

Ninguém precisava fazer absolutamente nada para que ela sentisse aquela alegria interior espontânea. E mesmo olhando para dentro de si durante a meditação, aprendeu também a olhar para fora.

A jovem era muito observadora, mas tinha alguns detalhes que ela deixava passar batido de maneira proposital, como o fato de Benito nunca ter feito uma aula sequer de kickboxing na vida.

Ela nunca perguntou aonde ele realmente ia e ele nunca quis contar, mas Helena sabia que seja lá o que fosse, a mãe estava ciente.

Ainda assim, não conseguia evitar o pensamento de chateação. O irmão deveria confiar nela. Ela era ótima em guardar segredos.

Guardava o segredo de Lívia e Tito, e ainda ajudava de maneira indireta com as mensagens para não serem pegos no flagrante se despedindo.

Guardava também o segredo da mãe. Guardava tão bem que nem mesmo a mãe sabia que ela sabia.

Um dia Helena esqueceu a carteirinha para entrar no centro de meditação e voltou correndo para o carro para pegar o documento, mas ao contrário do que a mãe dizia sobre ficar esperando em uma lanchonete e às vezes dentro do carro, ela a viu fazendo o seu ritual de todas as semanas.

A mulher caminhava pela rua de paralelepípedos, parava na Kombi azul-céu que vendia flores, comprava um buquê de cravos-do-amor e adentrava os portões de ferro do cemitério.

Helena seguiu a mãe uma única vez e, ao ver a mulher conversando com o túmulo e tomando café, ela percebeu que aquilo era pessoal demais. Aquela cena da mãe "conversando" com o pai morto era a imagem mais crua de quem Ana Carolina era: uma verdadeira viúva apaixonada pelo seu amor falecido.

E o lado romântico de Helena, que não era bem um lado, mas uma totalidade do seu ser, vibrava de ideias em como fazer a mãe ser feliz de novo.

Ana ainda amava, mas seu amor não era mais correspondido. O pai poderia amá-la de onde ele estivesse, mas aquilo não era vida para uma mulher tão jovem.

Naquela noite, eles jantaram na casa da dona Lupita, a mãe do tio Nico. A mulher idosa era muito espontânea e agitada. Olhando para ela, Helena conseguia ver algumas heranças genéticas que Nico havia herdado. Os olhos castanhos gentis, a pintinha na bochecha esquerda, o jeito expansivo de falar e gesticular, mas principalmente, a paixão por livros.

Dona Lupita era uma frequentadora assídua da biblioteca municipal, local onde trabalhou a vida inteira, além de ser antenada na internet. Ela seguia o blog e dava sugestões de leitura para Helena. Era sempre muito divertido jantar lá.

O jantar havia sido animado como sempre, mas deitada em sua cama, Helena só conseguia pensar em uma frase dita por dona Lupita:

"Você é tão jovem Ana! Leandro foi seu primeiro grande amor, mas alguém terá que ser o último".

Operação Pinguim | ✓Onde as histórias ganham vida. Descobre agora