04. Golfinhos

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ANA CAROLINA

Em dois mil e treze, estudos decretaram que depois do ser humano, o animal com a melhor memória do mundo é o golfinho. Ana se lembra de ter lido o estudo feito nos Estados Unidos quando estava chorando pelos três anos de morte do marido.

Memórias são traiçoeiras.

Como todas as quintas-feiras, Ana chegava da escola com os filhos, almoçavam juntos à mesa e depois começava a procissão de levar cada um para um lado da cidade.

Lívia tinha que ir ao centro de esportes para treinar, Benito tinha seu segredinho e Helena estava no centro de meditação.

Com esse tempo livre, uma vez por semana ela pegava o seu copo térmico com café, comprava as mesmas flores e caminhava até o cemitério.

Ana Carolina caminhou entre os túmulos de cabeça baixa e logo chegou ao seu destino. Encostou a mão na lápide e abaixou a cabeça enquanto realizava uma prece baixa.

Sua mãe dizia que ela estava brigada com Deus, mas não. Ana rezava todas as semanas no túmulo do marido, mas isso não significava que ela entendia o porquê da morte de Leandro.

— Oi, amor — ela disse baixo após a sua oração. — Trouxe os cravos-do-amor, como sempre — Ana ostentava um sorriso mínimo e colocou as flores sobre a lápide escura.

O cravo-do-amor era a flor preferida de Ana. Leandro sempre comprava um buquê nas datas especiais.

A mulher abriu o copo térmico delicadamente e bebeu um gole do líquido amargo e quente. Suspirou antes de falar.

— Helena continua não indo para as aulas de educação física — ela comentou mordendo o lábio inferior. — Benito estava carrancudo hoje depois das aulas, ainda bem que ele vai descontar a frustração no "kickboxing" — repetiu a mentirinha que o filho contava para as irmãs e tomou mais um gole do café. — Lívia está começando a se preparar para os regionais. Eu adoro os regionais! — Ana falou com certa empolgação.

Ficou em silêncio por alguns minutos.

— Sabe, hoje eu estava corrigindo trabalhos e me lembrei do nosso desespero ao saber da gravidez múltipla — ela riu sozinha. — Você desmaiou, Leandro! Eu nunca vou esquecer dessa cena — soltou uma risada alta demais para o local em que estava.

Tomou mais um gole de café.

— Meu café continua horrível mesmo depois de oito anos fazendo ele — Ana disse dando de ombros.

Leandro era o cozinheiro oficial da casa. Ele preparava o café da manhã todos os dias e nos domingos era ele quem fazia o almoço. Além do mais, sempre tinha uma surpresa culinária para o jantar durante a semana.

Depois da sua morte, Ana foi obrigada a aprender a cozinhar para a sobrevivência e saúde dos filhos. Quando Leandro morreu, eles passaram uma semana comendo macarrão instantâneo, porque a mulher não tinha condições psicológicas de lidar com absolutamente nada, mas um dia a vida teve que continuar.

"Você tem filhos, Ana Carolina! Leandro iria querer você e essas crianças saudáveis!" — lembrou da voz da mãe desesperada ao notar a bagunça em uma casa que sempre foi tão organizada, e ao perceber a grande quantidade de embalagens de macarrão instantâneo jogadas no lixo.

— Minha comida melhorou, Benito nem faz mais piadinhas sobre a minha falta de aptidão — ela comentou pensativa.

Tomou um gole de café e pegou o celular no bolso traseiro da calça jeans para conferir as horas.

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