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As vozes aumentam conforme a discussão progride. Já não oiço o que nenhum deles diz, ou grita para ser mais correcta. Limito-me somente a observá-los.

A familiaridade entre eles é óbvia – a forma como se dirigem uns aos outros; a forma como Kai falou de Aidan; e em especial a atitude de Rick ao ouvir o nome do rapaz. A tensão de antes, por incrível que pareça, já não está tão acentuada, mas não me parece que o que a forma como estão a discutir o assunto os vá a levar a lado algum.

Annaleah refuta que não podemos aceitar o acordo, pois estaríamos a comprometermo-nos – a comprometer-me, mais em concreto – em algo que pode alterar tudo. Já Kai é de uma opinião diferente. Por ele, prosseguimos com os planos que Rick apresentou se isso nos ajudar a salvar Aidan.

Por momentos, ignoro-os e observo mais uma vez a minha máscara. Pergunto-me quem a terá usado e em que situação, se se sentiu tão perdida quanto eu me sinto agora. Imagino que não. O mundo antes da Grande Guerra, pelo que os mais velhos contam, assemelha-se muito ao novo, embora o Estado faça a propaganda que não e que por isso temos de continuar a melhorar e progredir. Questiono-me se também nessa altura havia a pobreza que presenciei toda a minha vida ou a desmedida ganância por parte dos que já têm tanto. Quem é que eu seria se tivesse nascido décadas antes? Teria o meu papel invertido?

– Imogen. – O toque de Annaleah no meu braço desnudado acorda-me dos meus pensamentos. – Qual é a tua opinião?

Abano a cabeça. É-me impossível responder a essa questão. Não sei sequer o que pensar neste instante, quanto mais tomar uma decisão com este calibre. Apesar de minutos antes ter dito que sim, sinto-me assustada só de pensar em comprometer-me em algo desta dimensão. Até que ponto esta pequena acção pode ser algo bom?

– É a única forma? – Questiono num tom muito baixo, permitindo somente a Annaleah a ouvir-me.

– Talvez não. Se é a mais segura a longo prazo? Sim. Se quero que digas sim? Quero. Mas estou a perguntar-te o que queres fazer. Creio que não tiveste muitas pessoas que te dessem o poder de escolha sobre o teu destino.

Solto uma pequena risada irónica. – Não, não tive.

Kai, que no meio da discussão tinha-se aproximado de Rick, retorna para junto de mim. – Qual é a tua decisão?

Encaro-o. Os seus olhos – um escuro e o outro claro – observam cada respiração minha. Eu sei qual a resposta minha que ele aguarda que diga em voz alta. Talvez uma confirmação da ideia que lancei antes, no entanto não sei até que ponto me sinto preparada para dizer sim. Indo mais fundo, estamos a falar de assassinar deliberadamente uma pessoa. Não em defesa, não por outra solução, mas por ser o meio possível para atingir o fim. Se pensarmos dessa forma, não somos diferentes do próprio Presidente Ross. No entanto, tudo isto tem de acabar.

– O que acontece se eu disser que sim?

Rick toma a liberdade de responder. – Não te posso prometer que vamos conseguir parar a opressão de um dia para o outro, ou mudar as mentalidades por partes dos membros da Alta Sociedade. Consigo apenas dizer-te que vamos retirar do jogo a peça mais importante e manipuladora.

Olho atentamente para ele. Pela sua postura e a forma como se encontra vestido, tenho a certeza que ele é uma dessas pessoas. Então porque quer ajudar-nos? Porque encontra-se ele no grupo que quer resistir a um governo que lhe deu tudo desde o momento em que nasceu?

– Imogen – desta vez é Kai quem se dirige a mim. – Tu mesma disseste que estás cansada de ver o Estado a tirar-nos tudo.

– Estamos a falar de assassinar uma pessoa.

– A morte de uma pessoa que pode salvar milhares.

– Milhares, ou a de Aidan em específico? – Sei que estou a ser injusta no instante em que o meu cérebro processa as palavras que me saem da boca. No entanto, ninguém está a colocar-se no meu papel. Estão a pedir-me que mate uma pessoa a sangue frio simplesmente porque acham que é o melhor para a nação. Sinto-me doente.

Em resposta ao que digo, Kai dá dois passos para trás. Sem mais palavras, ele sai da varanda deixando a porta bater. Vejo-o atravessar o salão a passos largos, sem olhar para trás uma única vez. A culpa atinge-me de imediato.

– Desculpem – peço a quem sobra.

Annaleah aproxima-se de mim e envolve-me num abraço. Mas é então que a minha atenção é arrastada para o salão ao aperceber-me do alvoroço que se cria para lá das janelas de vidro.

Com uma autoridade absurda, o Presidente Ross entra ao mesmo tempo que é congratulado por todos.

Sinto o meu coração a quebrar.

– Vocês asseguraram-me que ele não vinha hoje – digo numa voz quebrada.

Os outros seguem o meu olhar para entenderem do que falo. Em redor de mim, sinto as suas posturas a mudarem. Portanto, ninguém estava à espera da sua presença. Nem mesmo Rick.

O Presidente Ross continua a sua marcha por entre as pessoas. Visto assim de perto, quase pensamos que ele é uma pessoa como qualquer outra. Quase normal. No entanto, nenhuma decisão que ele toma o caracteriza dessa forma.

– Coloca a máscara, Imogen. Precisamos de tirar-te daqui.

Uma brisa fria passa por nós o que me faz tremer involuntariamente, ou talvez o faça devido ao pânico que assuma o meu corpo.

Quando voltamos ao salão, tenho de forçar as minhas pernas a seguir o ritmo de Rick e de Annaleah, que caminham à minha frente tentando não levantar suspeitas. Na realidade, a minha vontade é de correr e somente parar quando estiver muito longe daqui – muito longe dele.

Por entre as pessoas, fazemos o nosso caminho sem qualquer percalço. Num momento de coragem, perscruto sobre o meu ombro tentando encontrar o grande responsável por tanto sofrimento. Encontro-o rodeado de um pequeno círculo, falando divertidamente. Quase parece uma pessoa normal. Por exemplo, agora seria o momento. Imagino-me a dirigir-me a ele, a dar-lhe um tiro e a acabar com tudo. Serei eu capaz de tal?

– Dá-me a honra desta dança?

Redirecciono a minha atenção para o interlocutor. Quando percebo quem é, as minhas mãos correm para tapar-me a boca para que não grite. Eu achava que ele estava morto, mas não. À minha frente, Amriel bloqueia-me o caminho.

– Não tentes fugir ou armar um escândalo, senão vai correr somente mal para ti, Imogen. – Ali está ela, aquela voz capaz de me provocar um arrepio na espinha.

Esforço-me por uniformizar a minha respiração. Em certa parte, ele tem razão. É a minha cara que preenche todos os cartazes pelas ruas. Sou eu quem eles querem, por isso tenho de manter as vistas não direcionadas para a minha presença o melhor que conseguir. Contudo a minha raiva é tão grande. Sinto-me a fervilhar por dentro.

Tento procurar por Annaleah e Rick, mas não os vejo. Eles devem ter prosseguido caminho a achar que me encontrava atrás deles.

Não tenho lugar nenhum para onde possa fugir. O meu coração salta palpitações.

Estou completamente encurralada.

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now