01. Pinguim-Azul

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ANA CAROLINA

Pinguins. Ana Carolina amava pinguins. Pode parecer algo estranho ou até mesmo ser considerado "nada a ver", como diriam seus filhos adolescentes, mas ela amava aquelas criaturinhas.

Eram as famosas aves que não voavam e que andavam de maneira desajeitada, mas possuíam uma característica única, que nenhum animal (nem mesmo o ser humano) era capaz de reproduzir com perfeição.

Alguns pinguins tinham um único amor durante a sua vida inteira. Eram tão românicos e empenhados em conquistar e manter o seu amor que faziam surpresas para os seus parceiros.

Os pinguins ficavam juntos para sempre.

Ana Carolina encarou a aliança dourada que estava em seu dedo anelar da mão esquerda e suspirou resignada.

O amor da sua vida havia partido há oito anos e eles não tiveram a chance de tentar reproduzir o grande feito dos pinguins. Ana gostava de comparar o relacionamento e passagem de vida de Leandro com um pinguim-azul, uma das espécies que ela considerava ser a mais encantadora.

Os pinguins-azuis vivem em média sete anos na natureza e colocam, também em média, três ovos em cada processo reprodutivo. Coincidentemente, Leandro deixou três filhos órfãos de pai quando eles tinham apenas sete anos.

Ana Carolina se viu viúva com apenas vinte e quatro anos, além de viúva, havia se tornado mãe solo de três crianças.

Foi uma verdadeira loucura quando descobriu a gravidez. Ela tinha dezesseis anos e Leandro dezessete. Dois adolescentes que não sabiam nem mesmo o que fazer da vida após o ensino médio, mas já sabiam que seriam pais.

Pais de trigêmeos.

A notícia da gravidez múltipla fez Leandro desmaiar e Ana chorar desesperadamente por um mês inteiro. Aquele não era o futuro que sua mãe havia idealizado pra si, mas dona Marta foi mais do que compreensiva. Se comportou como a mulher forte que sempre foi e sua fortaleza foi o que guiou os jovens pais de primeira viagem.

Com muita sorte e apoio, Leandro terminou o ensino médio e conseguiu ingressar em uma universidade. Trabalhava o dia inteiro em uma empresa automobilística e estava cursando química durante a noite.

Ana também conseguiu terminar o ensino médio, mesmo sendo com um ano de atraso. Ela tinha uma paixão especial por biologia e decidiu que tentaria ingressar na universidade para estudar mais profundamente essa matéria que ela considerava maravilhosa.

Eram dois adultos que trabalhavam o dia inteiro, iam para faculdade e quando chegavam em casa tinham que estar dispostos fisicamente e mentalmente para cuidar de três crianças.

No fim, tudo parecia correto. Leandro tinha se tornado professor de química em uma escola estadual e Ana havia conseguido um emprego como professora de biologia na mesma escola. Era a melhor escola da cidade.

Era perfeito. Tudo estava indo perfeitamente bem.

Pelo menos até o dia nove de setembro de dois mil e dez.

Leandro havia saído para comprar pães para o café da tarde, como fazia todos os dias. Entretanto, o dia nove de setembro de dois mil e dez não foi como os outros dias.

Ele morreu em um assalto no supermercado. Simples assim. Uma hora ele estava lá, brincando com os filhos, preparando aulas e dando beijos apaixonados na esposa.

E depois não estava mais. Nunca mais estaria.

Ana girou a aliança no dedo e deu um sorriso triste e saudoso. O destino era cruel com os apaixonados.

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