Capítulo Cinquenta e Dois

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Elisa não tinha dito nada após ouvir a mãe mencionar o seu pai, sentindo-se um pouco enjoada. Mesmo com seus trinta e oito anos, ainda não entendia a relação confusa que Dona Nonô mantinha com ele. Não eram um casal, na realidade, estavam mais para amigos. Mesmo assim, sempre teria suas reservas quanto àquela amizade.

Dera-lhe dois filhos, a pedido dela, mas nunca soube ser pai, pensou, incomodada. Para Elisa, tanto fazia, mas Fernando perguntava por ele quando mais novo.

Até deixar de perguntar. O que aconteceu quando ele fez uns doze anos.

– Ora, querido – Dona Nonô respondeu. – Você não achou que os meus dois filhos haviam sido deixados pela cegonha, achou?

– Não, Dona Nonô, é só que... – Marco ficou desconcertado. Aquela informação o pegara mesmo de surpresa. – É só que a Elisa nunca falou sobre ele, então pensei... Bom, nem sei o que pensei.

Dona Nonô balançou a cabeça.

– É bem a cara da minha filha não contar nada sobre o pai. Sente-se que eu lhe conto rapidinho, querido.

Elisa não estava com estômago para aguentar a lorota que viria a seguir. Sendo assim, decidiu sair da cozinha para não ter de ouvir nada daquela conversa. Dona Nonô passou próximos minutos contando para Marco acerca do misterioso pai em questão, ao mesmo tempo em que lavava a louça do café da manhã.

Secando a louça e guardando-a, Marco escutou tudo atentamente. Soube que o Sr. Éder Carvalho morava em Santa Catarina, e que ele e Dona Nonô haviam se divorciado uns três anos depois que Elisa nasceu. Não foi um pai presente, muito pelo contrário. Havia refeito sua vida em um novo lugar. No entanto, mantinha contato com Dona Nonô e quando ela decidiu que queria ter um segundo filho, não lhe negou o desejo. Assim veio Fernando, cuidado pela mãe e pela irmã. Dois filhos sem a presença de um pai.

Ao olhar na direção da sala, Marco decidiu ir com calma naquela história. Ele não podia imaginar como era crescer sem um pai, mas sabia que não devia ser fácil. Elisa tinha motivos legítimos para não falar no assunto.

Afinal, um pai não se interessar por seus filhos era terrível.

– Deixe-me ver se entendi, Dona Nonô. Então o sobrenome Carvalho é do seu ex-marido. A Elisa me falou que era o sobrenome da senhora, mas...

Dona Nonô deu um sorriso matreiro.

– Não exatamente, meu filho. Veja, minha mãe, quando saiu de casa, resolveu renunciar ao sobrenome. A família com quem ela trabalhou lhe deu o Carvalho, talvez fosse uma coisa fácil na época, eu acho, mudar de sobrenome assim. Então, quando eu nasci, também fui registrada como Carvalho. E minha mãe disse que teríamos que passar esse sobrenome para frente, como prova de nossa independência. Afinal, ela se sentiu livre quando o recebeu. Assim, quando comecei a me interessar por rapazes, sabia que teria de mantê-lo, e deixá-lo para meus filhos. Só que eu não queria ser uma fulana Carvalho das Couves, queria ser só Carvalho.

Marco a encarava um tanto embasbacado.

– E então?

Ela continuou como se fosse a coisa mais natural do mundo:

– Então comecei a escolher os namorados e analisá-los bem, especialmente pelo sobrenome. Conheci um rapaz ótimo, porém com o sobrenome Vargas, não ia dar certo. Aí veio o Gilermando, só que ele era Moraes. O primo do pai do seu amigo Guilherme, se não me engano. E mais tarde conheci o Loredo e o Fausto, ambos Carvalho. Mas Loredo era gay, ainda bem que descobri a tempo.

Marco tentou afastar a imagem que lhe veio à cabeça, de uma Elisa com o sangue dos Moraes correndo nas veias.

Deus, como se ela já não me enlouquecesse do jeito que é, pensou, estremecendo. Era melhor sequer cogitar aquela hipótese.

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