Capítulo 6

20 2 18

Fiquei um bom tempo deitado, processando minha estupidez. Acho que não preciso me alongar sobre o quão imbecil eu fui. Tenho certeza de que você consegue compreender.

O resto do dia foi completamente inútil. Os convidados começaram a chegar logo cedo e ocuparam boa parte dos quartos. O almoço encheu a mesa, deixando os empregados um tanto desesperados para servir a todos.

Elizabeth entrou em uma discussão com a mãe sobre como ela gostaria de cozinhar a comida da festa, mas logo recebeu um olhar repreensivo do pai e se calou.

Caminhei pela propriedade durante a tarde. Convidados não paravam de chegar e, quando o céu ficou vermelho e o sol começou a desaparecer, chegou aquele que eu não tive a coragem de olhar nos olhos.

O noivo de Clarissa — descobri escutando uma conversa dos empregados que se chamava Daniel — entrou na mansão com uma terrível expressão. Parecia odiar o lugar e, especialmente, Clarissa. Observei no canto do hall de entrada enquanto ele passou por ela sem trocar um olhar sequer. Perguntei-me se ele sabia do que acontecera, mas não era possível. Ninguém além da entidade sabia que eu passara a noite no quarto de Clarissa. Mas depois que ele me viu, passei a acreditar que ele também sabia. Como? Você pode me perguntar. Bem... terá de terminar a história para descobrir.

A última noite se aproximava e eu ainda não tinha uma pista sequer a seguir. Meu primeiro caso era um fracasso completo. Fracasso tão grande que nem teria coragem de cobrar o pagamento do Sr. Mongore. Viagem feita em vão. Estava decidido a voltar para a escrita quando o sol desapareceu e a penumbra da noite invadiu os corredores adornados com quadros.

Fui para meus aposentos refletir sobre o que tinha para trabalhar. Mesmo não tendo pistas, não podia abandonar o caso. Deitei na água quente da banheira por quase duas horas.

Tudo o que eu tinha era um casarão assombrado por uma entidade desconhecida; uma família onde a menor queria ser cozinheira, a mais velha era infiel — e eu tomei parte em sua traição, ou em uma delas pelo menos —, o pai era duro e sabia dos caprichos da filha, a mãe... eu não sabia muito sobre ela.

Já era madrugada quando vesti minhas roupas e saí do quarto. Precisava encontrar algo. Segui os corredores com minha lanterna em mãos por quase três horas, mas a assombração estava tímida naquela noite. Resolvi, então, passar pelo corredor do quarto de Clarissa. Por quê? Você deve se perguntar. Até hoje não descobri.

Ao chegar em frente à porta e preparar para bater os nós dos dedos na madeira, um barulho me chamou atenção. Vinha de dentro dos aposentos. Levei o ouvido mais próximo e escutei novamente. Clarissa gemia de prazer. Fizera as pazes com o noivo, imaginei. Mas acho que nenhum dos pais aprovaria a situação.

Virei-me para voltar à minha cama e escutei passos. Desliguei a lanterna e me escondi na curva do corredor.

Daniel apareceu em meio às sombras e me perguntei como era capaz de andar pela casa sem nada para iluminar seu caminho. Ele bateu na porta de Clarissa.

Dois minutos depois, um dos convidados saiu do quarto ajeitando as calças e com a camisa nas mãos.

— Desculpe-me, Daniel. Mas você sabe, temos de manter a tradição.

— Para ser sincero, não temos — respondeu secamente o noivo.

O convidado saiu corredor adentro e Daniel bateu a porta ao entrar no quarto de Clarissa.

Voltei aos meus aposentos. Deitei sobre a cama e não consegui dormir.

O que diabos eu acabara de presenciar?

Não havia razão no que vira. Como o noivo se importa tão pouco com a traição da noiva? E que tipo de tradição era aquela? O caso do sujeito já era antigo, isso eu tinha certeza. Mas ainda assim, você há de convir que a situação não era um mínimo comum.

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