Capítulo 4

20 2 17


Quando abri os olhos, o sol já clareava o quarto. Eu passara a noite na banheira e preferi não questionar o fato de a água ainda estar morna depois de horas. Já começava a me convencer de que veria coisas ainda mais estranhas naquela casa.

Vestir roupas foi menos torturante do que tirá-las, mas isso não tornou o processo nem um pouco mais confortável. Minha costela doía menos, o que me fez acreditar que não havia quebrado, mas ainda incomodava. Caminhar também foi mais fácil. Conseguiria não mancar, caso precisasse fingir. Mas descer escadas foi mais complicado. Agradeci por não encontrar ninguém nos degraus.

Ao chegar na sala de jantar, surpreendi-me ao ver a família Mongore já à mesa.

— Ah então esse é o senhor Volskien — disse o Sr. Mongore, limpando a boca com um guardanapo antes de se levantar para me cumprimentar. — Magnus Mongore — estendeu-me a mão. Apertei-a.

— É um prazer conhecê-lo — dei um aceno rápido e um bom dia desconcertado para as mulheres à mesa.

— Esta é minha esposa, Laura — disse-me apontando para uma réplica de Clarissa, mas um tanto mais velha, enquanto se sentava.

— É um prazer, senhor Volskien. Li um de seus livros e ouso dizer que sou uma fã — disse-me.

Sorri. É sempre reconfortante ser reconhecido. Se você já passou por isso, sabe que falo a verdade.

— O prazer é todo meu. Fico feliz em saber que gostou.

— Por favor, não fique aí parado. Junte-se a nós — apontou para uma cadeira vazia ao lado de Elizabeth. Obedeci.

— Minhas filhas o senhor já conheceu, certo?

— Ontem, quando cheguei.

— Perfeito — disse e depois apontou para o banquete. — Sirva-se.

Mais uma vez, obedeci.

— Como foi sua primeira noite na casa mal-assombrada? — Perguntou-me a mais jovem.

— Elizabeth! — A mãe lhe chamou a atenção antes que eu pudesse responder. — Já falei para não chamar nossa casa de mal-assombrada!

— Desculpa, mãe — disse a menina. — Tenho certeza de que o espírito não perturbou o sono do senhor Volskien.

— Elizabeth — começou Magnus, — escute a sua mãe.

Sua voz foi calma e doce, mas o efeito foi imediato. A menina se calou pelo resto da refeição. Preferi não alvitrar na educação alheia e permaneci em silêncio.

Depois disso, o café da manhã seguiu acompanhado do som de talheres. Volta e meia, quando ninguém prestava atenção, Clarissa olhava para mim e sorria. Admito que retribuí.

Quase meia hora depois, a Sra. Mongore se levantou.

— Vamos, meninas?

Elizabeth pôs de lado uma última colherada, revirou os olhos e também se levantou. Deduzi que a caçula não gostava muito de passar tempo com a mãe. Ao se levantar, Clarissa roçou o pé em minha canela e foi naquele momento que tive certeza das minhas suspeitas.

Depois que a Sra. Mongore levou as filhas para fora da sala de jantar, o silêncio voltou a preencher o cômodo. O único som que ousava permear as paredes era o passar de folhas do jornal que Magnus lia calmamente.

Você pode pensar que ele era mal-educado ou arrogante por me deixar esperando. Mas aquele era um homem realmente rico. Estava acostumado que esperassem por ele. Não fazia parte do seu cotidiano ser contrariado e não há nada de errado nisso.

Mansão MiranteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora