Capítulo 2

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Quando o trem parou e eu desci na estação, senti como se acabasse de pisar no cenário de um dos meus livros. O lugar estava frio e deserto. Se não fosse pelo bilheteiro roncando dentro da guarita, eu acreditaria que um espírito tentaria me atacar.

— Boa tarde, senhor — eu disse, e ele roncou de volta. Bati no vidro com o nó do dedo e tentei mais uma vez, elevando o tom de voz: — Boa tarde, senhor.

O rapaz acordou assustado, soltando um último ronco. Arregalou os olhos e virou a cabeça para os lados antes de descobrir que não estava mais sonhando.

— Aaah — disse ele em uma saudação exagerada. — Uma alma viva. Em que posso ajudar?

Retirei do bolso um convite para uma festa na Mansão Mirante e o grudei no vidro.

— Sabe me dizer como chego neste endereço?

Ele olhou para mim com uma expressão de divertimento.

— Mansão Mirante? É um convidado para a festa, sim?

Confirmei com a cabeça.

— Siga a estrada de terra aqui atrás da estação. É um único lugar aonde se pode chegar.

Desci da estação para a estrada de terra batida. Não vou mentir. Impressionei-me com o zelo que tiveram com caminho para a Mansão. Havia postes de iluminação, árvores cuidadosamente podadas decorando as margens, bancos de madeira para quem quisesse dar uma parada para apreciar a floresta. Foi naquele momento que percebi aonde estava prestes a entrar. Não imaginava quem me contratara tão bem afortunado.

Depois de quase um quilômetro uma neblina gelada começou a descer das árvores, tomando a estrada. Eu vestia roupas quentes, mas tive de me encolher para afugentar pelo menos um pouco do frio.

Agora devo dar uma pequena pausa na história para explicar-lhe uma coisa. Eu ainda não era investigador (ou detetive, como preferir chamar). Era apenas um escritor que aspirava um pouco mais. Não estava acostumado com a ideia de ir a um lugar assombrado e também não sabia o que estava prestes a encontrar. Digo isso para que não pense mal de mim quando eu contar que parte da minha tremedeira não era culpa do frio.

Minha visibilidade foi se perdendo aos poucos enquanto eu continuava meu percurso pela neblina cada vez mais densa. Logo não via mais as árvores podadas ou os bancos de madeira. Guiava-me somente pelo chão de terra.

Eventualmente o frio chegou aos ossos, que doeram em resposta. Tentei apertar o passo e torci para chegar logo à Mansão.

Por fim o medo se provou desnecessário quando quase bati o rosto na grade de ferro. Não havia forma de avisar da minha chegada, mas o portão estava destrancado. Então, empurrei as grades e entrei. Ali a neblina era mais fraca. Agradeci por isso. Segui um caminho de pedras que cortava o jardim frontal e, odeio admitir, fui pego de surpresa por uma garotinha enquanto me distraía observando as formas animais das plantas perfeitamente cuidadas.

— Olá — disse ela e meu estômago fez uma viagem rápida à Sibéria. — O senhor deve ser o novo detetive, certo?

— Novo? — Questionei, retomando a calma.

— Sim. Meu pai sempre chama um novo detetive porque...

— Elizabeth! — Disse uma moça à porta do casarão.

Desculpe-me por mais uma intromissão em sua leitura. Mas preciso esclarecer esta parte: não era uma moça qualquer que aparecera à porta da Mansão. Ela tinha cabelos pretos e olhos igualmente pretos. A pele perfeitamente branca, sem uma mancha sequer. E o sorriso... ah o sorriso desconcertado que deu ao descer as escadas em meu encontro. Ao invés de descrevê-lo, direi como me senti ao vê-lo. Meu coração não acelerou, nem desacelerou. O frio que sentia escapou por entre minhas vestes. Não tiveram borboletas para bater asas em meu estômago, mas todos os pássaros do lado de fora pararam em pleno voo. Os fios de cabelo flutuaram como se de repente Newton não tivesse mais a gravidade para descobrir. Demorei quase um minuto para passar por um segundo, apreciando aquela que poderia dizer ser a mais bela das imagens que vira na vida até então. E a mais bela das imagens que nunca mais poderia ver ao sair da Mansão Mirante.

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