30. Rinoceronte

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ANA CAROLINA

Ana não gostava de ir ao mercado do bairro. Péssimas memórias sobre Leandro. Então ela sempre ia no mercado que era mais distante da sua casa. Geralmente ia sozinha já que os filhos detestavam fazer compras, mas dessa vez ela tinha companhia.

Até demais.

Helena andava ao seu lado com a lista de compras na mão e ia riscando os itens conforme eles iam sendo colocados no carrinho.

Benito e Lívia andavam mais atrás e estavam em uma discussão sobre Game Of Thrones que, segundo Helena, nenhum dos dois estava com a razão.

E dona Marta, sua mãe, andava mais à frente com o seu típico cabelo curto e avermelhado e os olhos castanhos marcados pela maquiagem, parecendo uma rainha dando ordens.

"Ana, pegue o amaciante dessa marca"

"Não, o macarrão não pode ser esse"

"Benito, pare de me chamar de vó"

Ana Carolina estava segurando o revirar de olhos para não irritar a mãe. Apesar de tudo, sentia falta da mais velha.

— Eu não sei não, Ana... Acho que essa carne não é a melhor para fazer parmegiana — Marta opinou, mesmo que nunca tenha feito uma parmegiana na vida.

— Mamãe, eu estou comprando exatamente o tipo de carne que o Nicolas falou — respondeu empurrando o carrinho com cuidado. Poderia atropelar a própria mãe totalmente sem querer.

— Ah, Nicolas... — Marta falou com um suspiro jovial.

Sua mãe exaltava Nico o tempo todo. Sempre que possível. Em qualquer situação.

Quando ela chegou ao hospital para visitá-la e Nicolas estava lá, na beira da cama, com um sorriso leve. Pronto. Era o que dona Marta precisava para começar mais um dos seus monólogos de elogios ao homem que sempre terminavam com um "ah, seu eu fosse mais jovem...".

— Nicolas não é para o seu bico, dona Marta — Ana comentou com um sorriso de lado.

— Poderia ser para o seu, mas você não dá uma chance, né? — respondeu com um sorriso maldoso.

Ana simplesmente revirou os olhos para a mãe e ameaçou atropelá-la com o carrinho de compras. Eram uma família muito pacífica.

Quando estavam no corredor com uma infinidade de geladeiras cheias de produtos, Ana ouviu a mãe resmungar baixo ao seu lado.

— O que foi? — perguntou distraída olhando a data de validade de uma bandeja de iogurte.

— Aquela velha cruel está aqui — Marta comentou amarga apontando discretamente para frente.

Ana virou para trás e notou que Lívia e Benito interromperam a discussão para observar a tia Júlia e a avó paterna.

— Me segura, Ana... Eu quero dar um tapa naquela mulher há anos — Marta falou com os braços cruzados e a filha soltou um suspiro cansado.

— Ninguém vai bater em ninguém — Ana falou séria.

Encarou os filhos com atenção e sorriu forçadamente.

— Quem quiser ir até lá e cumprimentar a avó Matilda e a tia Júlia, fique à vontade. Não os obrigo a ir, sei que não é confortável para nenhum de nós — orientou rapidamente. — Infelizmente eu não sou como Jesus, então não irei lá dar a outra face para ela bater.

Helena sorriu e foi caminhando até o outro núcleo familiar enquanto Lívia e Benito ficavam de braços cruzados e com expressões nada felizes no rosto.

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