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Olho para o meu reflexo no espelho da casa-de-banho e quase não me reconheço. O meu cabelo mantém-se o mesmo de sempre, solto numa nuvem rebelde de caracóis a espelhar-me o rosto. No entanto, Annaleah colocou alguns tipos de pós na minha cara e passou lápis preto nos meus olhos já facilmente destacáveis devido ao seu tamanho grande. O vestido que envergo é branco e agarra-se ao longo do meu corpo até aos tornozelos, mas mantém os meus ombros nus. Como que por milagre, Annaleah encontrou-o no fundo de um baú no meio de mais roupa velha.

Para ela escolhe um vestido acima do joelho, vermelho em que a saia tem a forma de balão. Para ser diferente, a rapariga prende o seu cabelo loiro num coque e abusa da maquilhagem para destacar os seus olhos azuis e lábios. Os seus sapatos são tão altos que nem sei como ela consegue dar mais do que três passos neles. Tenho de admitir, Annaleah é feita para pertencer a Alta Sociedade. Toda ela transpira confiança e luxo. Embora seja disfarçado, ela torna credível.

- Recorda-me porque temos de ir a esta festa - indago ainda receosa ao perscrutar novamente o meu reflexo. Não me sinto eu assim vestida desta forma.

Annaleah acaba de passar o lápis nos olhos e sorri-me. - O Kai acha que o Rick vai atender a esta festa, e nós precisamos dele se queremos ter alguma sorte com a Resistência. Além do mais, podemos divertir-nos um pouco. Não estás animada?

Forço-lhe um sorriso. A minha vontade sincera é de lhe responder que não. O medo de alguém me reconhecer ou cruzar-me com algum membro do exército kakoi que facilmente me denuncie quase me paralisa as pernas. No entanto sei que tenho de ir. Desde o início, o meu envolvimento nesta história nunca se tratou de um pedido, mas de uma demanda.

- Aqui tens! - Annaleah passa-me a máscara que temos de usar como código de vestimenta obrigatório para a festa. Observo-a. Vê-se que é antiga com umas formas um tanto carnavalescas, mas é bonita. É dourada com um cordão preto para prender na cabeça. Coloco-a e observo uma última vez o meu reflexo. Agora não pareço eu de todo.

Saímos do quarto em direcção à porta quando Annaleah decide que já deu todos os retoques necessários. Eu sabia que ela é um tanto vaidosa, mas nunca a tomei a um nível destes. Não consigo ter outra reacção que não seja rir genuinamente. Apercebo-me que é a primeira vez que o faço em algum tempo.

Kai já nos espera, como sempre na sua posição relaxada, encostado à parede. Ele também está um espanto. O smoking que usa assenta-lhe que nem uma luva fornecendo-lhe um ar muito mais requintado. Desta vez penteou o cabelo para trás, seguro com algum tipo de gel, permitindo que o seu rosto fique completamente ao descoberto.

Primeiramente, ele olha para Annaleah e sorri involuntariamente. Então os seus olhos poisam em mim. Sinto-me a corar de imediato. O sorriso nos seus lábios perde-se, no entanto existe algo mais. Algo que não consigo decifrar.

- Meninas, vocês estão fantásticas - diz com uma voz rouca.

- Bem, tu também não estás nada mal. - Annaleah dá uma volta a gozar para fingir que está a apreciar melhor. - Quem diria que conseguias arrumar-te desta forma. Estás a superar as minhas expectativas, maninho.

Kai somente sorri. - Vamos?

- Como vamos para lá? - Pergunto, mas então entendo que fiz uma pergunta ridículo.

Após chegarmos ao átrio do prédio, um carro encontra-se à porta à nossa espera. Fico abismada. Há tanto tempo que não via um carro, e há mais tempo ainda que não andava num. Dez anos, talvez. Kai abre-nos ambas as portas e faz sinal para que entremos. Deixo Annaleah passar primeiro e escolher qual prefere - o lugar do pendura, claro -, para seguir-lhe os passos ocupando os de trás. Novamente sinto o mesmo olhar intenso por parte do rapaz fazendo com que o meu sangue corra todo para o meu cérebro. Questiono quem vai conduzir, mas Kai fecha-me a porta e em segundos ocupa o lugar do condutor e começamos a andar, o que me indica que já não é a primeira vez que ele faz algo assim. Um pico de curiosidade desperta em mim em saber mais sobre a história deste rapaz.

A viagem é curta. Se a fizéssemos a pé, tomar-nos-ia cerca de vinte a trinta minutos. Com os saltos de Annaleah, quarenta minutos possivelmente. No entanto, chegamos à entrada da Cidadela em menos de quinze. Pasmo-me com o espalhafato que se espalha pelas ruas indicando que vai haver festa. Ao mesmo tempo, entristece-me saber que têm a presunção de fazer algo assim, como se estivessem a esfregar na cara dos mais desfavorecidos que podem dar-se ao luxo de tal coisa enquanto eles não. Sinto-me cada vez mais enojada e quase mordo a língua para impedir-me de pedir para voltarmos para trás.

Kai guia-nos através das ruas como se as conhecesse como as palmas das suas mãos. Eu que também as conheço impeço-me de olhar mais lá para fora. À medida que nos vamos aproximando, o meu estômago dá mais e mais voltas induzindo-me a vontade de vomitar.

Tens de te controlar, Imogen, retruco para os meus pensamentos. Já passaste por situações mais difíceis. Respiro fundo e tento acalmar-me. Não vai demorar muito tempo. Vamos entrar, encontrar a pessoa que Kai procura e voltar a sair.

Obrigo-me a focar a minha concentração no momento em que Kai estaciona o carro ao lado de tantos outros carros, muito mais luxuosos claro, e coloca a sua máscara. Então olha para nós, pronto para rever o plano. Contudo não o oiço. O meu olhar está estagnado no lugar.

- Eu não posso entrar ali - digo tão baixo que penso que eles não me ouvem.

- Como assim? - É Kai quem pergunta.

- Simplesmente não posso. Alguém me pode reconhecer. Não nos podemos esquecer que a minha cara está em todas as paredes desta cidade.

Ambos permanecem o olhar em mim. Mas agora é Annaleah quem fala.

- Ninguém te vai reconhecer, Imogen. Tu própria te achaste diferente quando te viste ao espelho há pouco - a sua voz é calma. Coloca uma mão sobre a minha que descansa no meu colo. - Vai correr tudo bem. E se, por algum motivo, desconfiares ou desconfiarmos de alguém abortamos a missão e voltamos para casa.

Casa. Essa expressão é bonita, no entanto aquela casa não me pertence, nem o quarto que ocupo por mais que me tenha apegado ao espaço como um local de refúgio. O casal de irmãos que tenho à minha frente não são meus amigos, nem família. Estão mais para meus raptores do que outra coisa.

Respiro fundo.

- Vamos. It's show time, baby* - as palavras saem-me da boca antes mesmo de conseguir controlá-las.

Enquanto subo a escadaria em direcção à porta, repito-as no meu cérebro sem parar. Realmente está na altura do espectáculo.


* "Está na hora do espectáculo."

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now