14 - O Poder - Parte 1

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(No capítulo 12, Hannah convoca uma reunião das Sete presentes).

Ruth se junta às outras, respondendo, assim, ao chamado de Hannah. No alto daquela colina e debaixo daquela árvore enorme e velha, o vento balança as folhas e os cabelos de todas.
- Quem não está aqui?
- Oi? - Anne não consegue entender.
- Qual de vocês não está aqui?
- Alice. - Olívia acaricia o seu ombro esquerdo e fica consternada.
- Ela está em perigo. 

Elas nada falam e só se pode ouvir o som do vento e do farfalhar das árvores. O dia está ficando cada vez mais nublado.

- Eu sabia que tinha alguma coisa estranha! Sumida, do jeito que está. - Anne comenta empolgada por ter sua intuição certa sobre pelo menos uma coisa nessa vida. Ela continua:
- Desde que a gente acordou, a gente não viu a cara dela. 
- Espere. Como você sabe sobre ela? - Sonia contesta arisca, de braços cruzados.
- Eu tenho... - Hannah desvia o olhar - Eu tenho poderes.
- Caramba! Você também? É de família? Será que mais alguém das nossas famílias tem poderes também? - Anne discursa prolixa como sempre.
- Aqueles que me trouxeram de volta à vida e que lhe usam para o bem maior são a fonte de meus poderes. - Hannah explica para a finlandesa.
- O que? - Anne recua de forma agressiva. - Eles? Essas coisas que tomam posse do meu corpo e me controlam inconsciente? - Ela lança um olhar de preocupação para Sonia que o entende. As duas estiveram na fatídica viagem que encontrou Hannah.
- Quem é você? - Sonia dá um passo à frente, aproximando-se de forma enfrentadora. - Quem é você além de alguém que soca a própria mãe?
- Gente, calma! - Micaela pede, com as mãos acariciando a barriga e finalmente demonstra algum tipo de engajamento no que está acontecendo.
- Não fale assim da minha filha, vampira russa. - Ruth se enraivece e dá um grande "não" com o seu dedo indicador bem no rosto de Sonia.
- Vampira? - Anne estranha e ri meneando.
- Deixem a Hannah falar. - Olívia olha para todas ao pedir civilidade.
- Alice corre perigo. Lura a aprisionou.
- Lura? - Olívia se perturba.
- Ela não é quem vocês pensam.

*

- Aonde você está me levando? - A voz rouca, cansada de gritar de Alice ecoa no corredor de luzes oscilantes enquanto ela é arrastada por duas pessoas de túnicas marsala.

- Maika... Por que você está fazendo isso? - Alice ergue o olhar até a sua captora e pode vê-la de cabelo raspado chegar a uma porta larga de um metal negro desbotado. O pescoço da Sete se cansa e para de seguir a cena com a visão e passa a depender somente de sua audição. Após um estrondo vindo da abertura da porta, Maika comenta com Alice:

- Esta aqui é a segunda parte do processo de cura.

- Maika! - A Sete a chama com a voz esganiçada e esse som rápido se mistura com o demorado ranger da porta. Alice sente movimento: estão passando por arquela abertura. Pelo choque dos pés descalços dos dois que a carregam contra o chão, Alice percebe que o lugar é úmido e cheio de poças de águas. Eles caminham por volta de dois minutos e param. Maika olha para Alice como um animal com fome e declara satisfeita:

- Lura vai ficar feliz porque você não vai ser mais inimiga dela. 

Depois disso, Alice não sente mais as mãos de Maika, nem as do homem alto a segurarem. O seu corpo flutua por impercebíveis segundos, choca-se contra água gelada e afunda. Ela não consegue nadar, apesar de saber. O estrondo de uma máquina sendo ligada enche o lugar. A água passa, devagar, a ser centrifugada. Alice sente os seus pulmões pedindo por ar e vê o tudo ao seu redor ganhar um tom de vermelho escuro. É o seu medo saindo de seu corpo em forma de luz.  A Sete se rebate com a falta de oxigênio. Em um momento de rápida lucidez, ela conclui que Lura não a mataria, assim como não matou os outros dois que a jogaram ali. Porém, por que ela sente a vida se esvaindo de seu corpo? No próximo instante, a centrífuga cessa. A água começa a descer enquanto Alice fecha os olhos enfraquecida, quase morta. A luz antes vermelha se faz em vinho. A escuridão da morte se aproxima. Então, o corpo da brasileira deita no fundo daquele poço e as últimas gotas passam pelos ralos laterais e longos. Ela pode respirar e o faz com muita fome, muita vontade. Ela tosse várias vezes e bate as palmas contra o chão enquanto recebe o ar nos seus pulmões com violência. A iluminação ao seu redor é de um amarelo calmo e embranquecido.

Numa pequena poça de água, ela vê o seu reflexo. Fica boquiaberta. Passa a mão na cabeça para confirmar e os dedos sobre onde ficavam as suas sobrancelhas. Infelizmente, é verdade. De alguma forma, ela perdeu todos os pêlos do corpo. Ela percebe as lágrimas que começam a rolar pelo seu rosto. Ela levanta o olhar para o topo daquele poço fundo e largo. Um uivo se junta ao seu choro. Ela vê o seu irmão ali, que sorri receoso para ela. O peito de Alice se aperta de saudades e deixa um clamor se exaltar de seus lábios:
- Lu! - Ela engatinha até a parede e se levanta do chão. Ergue as mãos sobre a longa parede que não oferece forma alguma de escalar. Os seus dedos passeiam desejosos sobre aquele concreto; a vontade de rever; a ânsia por matar saudades. Do seu corpo, uma luz azul celeste começa a se irradiar pelo ambiente. Então, o seu irmão que limpa as lágrimas vai abrir a boca para dizer algo. Ele não tem tempo de terminar. É agarrado por várias mãos e levado repentinamente. Todo o azul é recolhido e fica só Alice e uma lágrima que escorre quieta pela sua bochecha.

***

De volta à colina, Hanna e as cinco das Sete presentes.

- Como você sabe disso? - Olívia se preocupa com a declaração de Hannah sobre Lura e coça o cabelo cobre que beira o despenteado. A filha de Ruth está se sentindo intimidada e demora a responder, mas o faz:

- Eles me disseram e me mostraram. Eles são bon...

- À merda! - Anne mostra o dedo do meio e se retira.

- Eu posso provar! - Hannah grita para a hacker que está subindo mais a colina. Ela rebate:

- Tô nem aí.

- Eles nos fazem matar pessoas. - Sônia diz antes de, também, sair do espaço.

- Alice precisa ajuda e nem mais Ruma está do lado de Lura. Posso provar.

- Hannah... Vou falar com a Lura. Vou atrás dela. - Olívia pontua e Hannah meneia. - Ou atrás de quem estiver na liderança. 

Olívia também sai dali.

- Eu... Eu... - Micaela evita olhar nos olhos das outras duas.

- Poço de insegurança. - Ruth comenta ácida, cruza os braços, dando dois passos para perto da boliviana. Micaela sai dali em passos rápidos.

- Você... Acredita em mim? - Hannah pergunta e essa é a resposta pela qual ela mais teme. Ela acha que consegue, mas não tem êxito em disfarçar o temor em seu olhar e no lábio inferior que ela morde.

- Com certeza. - Sem abraços e sem ter muita convicção de que a filha está certa, Ruth engole uma coisa estranha ao lhe declarar apoio: a vontade de chorar.

...

- A gente tem que dar um jeito. - Sônia se aproxima de Anne, que nervosa, descasca uma árvore, sem propósito, com uma pedra afiada.

- Eu não vou matar mais ninguém. - Anne continua riscando.

- Foi um erro trazê-la. 

- Foram eles que trouxeram ela.

- Nós não precisamos ficar perto dela. - Anne não responde, então Sonia se aproxima e discursa incisiva:

- E o plano de nos levarem de volta pra Terra? E sobre aprender mais sobre nossos poderes, sobre quem somos, vencer quem coloca a nós e aos nossos em perigo? Lura que nos deu esse Norte. Agora, essa estranha com história estranha trazida por assassinos se opõe a ela e nós concordamos? O que você pensa sobre isso?

Aquela que raramente fala pareceu ter muito a falar e a indagar. Anne fere a árvore por mais um pouco de tempo, enquanto reflete com o semblante enraivecido. Um sopro de vento passa e desenha com a luz do dia as formas das folhas daquele ponto mais fechado de mata no chão. A finlandesa concluí e afirma, enquanto continua a riscar a madeira milenar.

- Agora que eu sei quem são eles que me fizeram matar Dulan e... Aí eu somo ao fato de que Lura disse não ter relações com eles e nem saber deles, pode ser que eu confie mais nela e em todas as suas promessas. 

Sonia concorda com a cabeça e diz:

- Hannah parece ser mais parte dos inimigos do que ela. Precisamos achá-la e salvá-la.

- É... Pode ser. Mas espera um pouco que eu tô com preguiça e... E a Alice? - Ela para de rabiscar e se vira para a russa. Essa fica sem resposta e somente repete com a feição pensativa:

- Alice.

SETE - Volume I [COMPLETO]Leia esta história GRATUITAMENTE!