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Acordar é quase um sacrifício. Embora o meu corpo esteja a recuperar consideravelmente bem, sinto-me exausta mentalmente e isso dificulta-me o raciocínio. Os acontecimentos da noite passada ainda ribombam na minha cabeça como um filme que não pára de ser transmitido. Consigo ainda sentir as mãos de Kai em mim, a empurrarem-me para a beira do edifício. Esse pânico é algo que não vou conseguir ultrapassar tão cedo.

Com uma dificuldade absurda, levanto-me e começo a dirigir-me para a cozinha.

Lá, já há movimento. Reconheço as vozes de Annaleah e Kai. Parecem estar a discutir.

– Eu não acredito que fizeste isso! – Exclama a rapariga num tom de voz impaciente e chateado.

– Não tive outra alternativa, Leah. Nós não sabemos de onde esta rapariga veio. Nem podemos ignorar o que ela é!

A minha respiração pára. Estão a falar de mim. Mais uma vez, vem–me à cabeça a imagem de Kai a suster-me no cimo do edifício, e mais uma vez oiço os gritos da minha consciência a indicarem-me para correr o mais rápido que consiga.

– Quando chegaste a nós, podíamos ter tido a mesma atitude contigo. Mas não. Acolhemos-te, sem perguntas, sem pressões. A ti... e ao Aidan. – O nome do rapaz custa-lhe a ser pronunciado. – Eu não sei o que se está a passar contigo, mas esta não é a forma.

Acolhê-los? Recordo a minha primeira conversa com Annaleah em que ela me disse o contrário. Disse-me que tinham sido eles a acolhê-la.

– Eu preciso de encontra-lo – a voz de Kai parece suplicante.

– Também sinto mesmo. No entanto, sempre foste tu quem nos disse não podíamos e nunca íamos tornar-nos como eles. Não somos selvagens.

Questiono-me sobre quem falarão? Talvez do exército kakoi, ou do Estado. Independentemente de quem seja, a forma como falam provoca-me um arrepio na espinha.

Um estrondo chama-me de novo a atenção à realidade. O som de estilhaços ressoa nos meus ouvidos.

– Talvez devêssemos aceitar que temos de ser assim – disse Kai. – Talvez o Aidan ainda estivesse connosco. Talvez não me sentisse assim o tempo todo, como se o sangue derramado fosse suficiente para afogar-me nele.

Por uns breves segundos, o meu coração pesa pelos seus sentimentos. Mas então, como uma chapada de realidade, lembro-me do que ele me fez e me vai obrigar a fazer e recuo dois passos. Não, não me posso dar ao luxo de ter pena dele.

Determinada, decido entrar. A conversa cessa no momento em que dão pela minha presença, como eu já espero que aconteça. Annaleah está encostada à bancada de pedra, o seu olhar enfurecido atenua-se quando me vê. Kai está a uma pequena distância dela, junto do lava-loiça, com a palma da mão direita a sangrar. Duvido de imediato da minha decisão de interrompê-los. A tensão é quase palpável.

– Bom dia – Annaleah é a primeira a cortar o silêncio. – Dormiste bem?

Sem qualquer controlo nas minhas acções, olho para ela inospitamente. Eu sei que ela já sabe o que Kai fez na noite anterior, então porque está ela a fingir que está tudo bem? A resposta vem quase imediatamente. Kai é a sua família, enquanto que a mim não me deve nada embora me tenha defendido minutos antes. Se fosse pelo meu pai também seria capaz de fazer o que fosse preciso. Eu era capaz de ir até ao fim do mundo para resgatá-lo.

– Qual é o plano? – Pergunto querendo cortar as pequenas conversas que nos levariam ao assunto principal.

Olho para um e para outro. Annaleah suspira e senta-se numa das cadeiras ainda não conformada com o novo esquema de ideias. Já Kai vira-me as costas afim de tratar do corte que tem na mão e dos pedaços de vidro que estão espalhados em parte da bancada.

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now