26. Benito vs O Sótão

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BENITO

Benito encarava os degraus de madeira escura a sua frente com tensão. Ele estava com as mãos suadas, os batimentos cardíacos acelerados e estava tremendo levemente.

Era só uma escada. Eram só dez degraus. Em segundos ele poderia estar lá em cima. Mas não era tão fácil. Nunca era fácil.

Quando tinha sete anos e o pai faleceu, Benito não olhava na direção da escada.

Quando tinha nove anos, tentou subir pela primeira vez novamente até o sótão, mas assim que pisou no primeiro degrau, desistiu.

Quando tinha doze anos ele subiu dois degraus e voltou para trás.

Agora tinha dezesseis anos e estava suando e tremendo para subir dez míseros degraus.

Helena subia aqueles dez degraus todo dia para ler no pequeno sofá vermelho que havia no sótão. Lívia subias às vezes para pensar e ficar olhando as estrelas pela claraboia. E a mãe subia todo dia de tarde para tomar um café e ficar preparando as aulas que daria.

Benito soltou um suspiro e fechou os olhos ao pisar no primeiro degrau com o pé direito, deixando o esquerdo ainda para trás. Ele não estava com coragem. Era um covarde. Não conseguiria subir aquela escada imbecil.

Verdade seja dita, a escada não era o problema, e sim o destino final dela.

O sótão.

O lugar onde seu pai ficava todas as tardes, onde ele lia, escrevia, estudava, ria de alguma peripécia dos filhos, levava-os para ver as estrelas ou gotas de chuva pela claraboia...

O sótão era o templo sagrado de Leandro. E não fazia sentido entrar lá sem ele, sem o dono do templo. Sem ouvir a risada ou sentir o abraço apertado. Não era a mesma coisa. Nunca seria.

Benito voltou o pé direito para trás e bufou. Não subiria a maldita escada. Não hoje... e talvez nunca voltasse a subir.

— Sem sono?

O garoto deu um pulinho leve e colocou a mão sobre o peito ao se assustar com a voz da mãe atrás de si.

Virou de costas para a escada e encarou a mãe que vestia um shorts cinza de tecido leve e usava uma camiseta preta desbotada maior que ela. Percebeu que aquela camiseta era maior porque não era dela, era do seu pai.

— Pois é... — respondeu em um sussurro e deu de ombros.

Ana o encarou com atenção e sorriu levemente.

— Eu levantei para fazer um chá, quer um pouco? Geralmente ajuda nas noites difíceis — ela falou já caminhando para a cozinha e Benito deixou-se ir para o mesmo caminho.

A cozinha estava iluminada pelas luzes da rua, mas logo a mãe acendeu a luz do cômodo e começou a preparar tudo para fazer o chá. Primeiro pegou uma chaleira no armário e encheu de água, logo em seguida pegou o pote de cerâmica onde guardava as ervas para fazer o chá.

— Prefere camomila ou erva-cidreira?

Benito sentou-se na banqueta de madeira e deu de ombros. Não era muito fã de chá, mas às vezes, quando estava doente, a mãe o fazia tomar da bebida quente para dormir melhor.

— Farei camomila para aquietar os pensamentos... — Ana comentou pensativa enquanto despejava as ervas dentro da chaleira e colocava o objeto metálico sobre o fogão, acendendo o fogo baixo.

— Você tem muitas? — Benito perguntou quando a mãe sentou-se ao seu lado.

— Muitas o quê?

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