24. Um Bonde Chamado Desejo

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HELENA

Quando tinha 13 anos, Helena estava na casa da dona Lupita e, a mulher que era bibliotecária, tinha uma coleção gigante de livros clássicos em suas prateleiras. Com a sua curiosidade e sede de leitura, Helena passava os olhos pelos títulos com extrema atenção.

E então ela encontrou um dos livros mais impactantes que já leu na vida. O nome era sugestivo e ela sentiu a curiosidade corroê-la. Pegou o livro emprestado com promessas de devolver em menos de uma semana.

Não demorou nem dois dias para ler.

Um Bonde Chamado Desejo do autor Tennessee Willians havia provocado sentimentos implacáveis e incompreensíveis. Ela só queria parar tudo o que estava fazendo e simplesmente aplaudir aquela obra magnífica.

Era forte. Pesado. Trágico.

Assim como a cena que se desenhava à sua frente naquela quarta-feira de manhã. Ela podia pressentir o final trágico.

Benito estava em um canto do colégio, sem ninguém por perto. Helena ia lá para chamá-lo. Desde segunda-feira ele saía correndo da sala e inventava desculpas para não ficar no intervalo jogando conversa fora.

Agora ela sabia o porquê.

Quando pensou em chamá-lo, viu Mirella se aproximando e...

Ai Deus!

Benito e Mirella se beijando não era natural. Helena nunca imaginou aquilo acontecendo. Mirella nem olhava para o mesmo lado da sala em que eles sentavam e agora estava com a língua enfiada na boca do seu irmão.

Lívia vai surtar como Blanche DuBois, a protagonista da obra de Tennessee Willians.

Helena deu dois passos para trás, queria simplesmente fingir que não havia visto nada. Era total loucura.

Agora ela, como Blanche DuBois, estava querendo viver um mundo mágico, porque a realidade estava prestes a virar uma bomba-relógio. Só conseguia pensar em Lívia repetindo a cena que protagonizou com Mirella quando eram crianças.

Tapas e mais tapas.

Deu mais um passo para trás e esbarrou em alguém. Sabia que não era Lívia, mas se assustou do mesmo jeito.

— Ai, Marcelo! — Helena falou colocando a mão sobre o peito que parecia bater mais rápido que o normal.

— Está devendo pra alguém, Leninha? — Marcelo comentou brincalhão com o rosto vermelho pelo riso que soltou com o susto dela.

Helena olhou para trás e viu Benito abraçando Mirella e, com um rompante que não era típico da sua personalidade, encarou Marcelo com os olhos estreitados.

— Me diga você — ela falou baixinho, com medo de Lívia surgir magicamente perto deles.

Marcelo enrugou o nariz e deixou a cabeça pender um pouco para o lado em um sinal claro de confusão.

— Eu não sei do que você está falando.

— Estou falando daquela tragédia digna de Um Bonde Chamado Desejo — Helena respondeu apontando discretamente para a área onde Benito estava.

Marcelo suspirou e passou um dos braços pelos ombros da garota.

— Vamos conversar pra lá, vai.

Os dois foram caminhando juntos até perto da quadra poliesportiva. Lívia estava sentada na arquibancada com Aurora ao seu lado e as duas davam risada de algo juntas.

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