Capítulo 8

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Ainda faltavam mais de sete horas para o início do baile e Bernardo já estava apreensivo. Aquela era a expressão que o definia melhor e também um dos motivos que o fazia odiar multidões e gente desconhecida.

Não entendia bem o motivo de ter aquela angústia quando precisava falar em público, ou simplesmente aparecer e ficar recebendo as pesssoas, só sabia que não gostava de ter as mãos suando, o ar faltando e a péssima sensação de sufocamento, ainda que não tivesse nada prendendo sua garganta.

Ah, tem que dar certo. Não sou um covarde. Eu consigo. Nem são pessoas tão desconhecidas assim. — Ele tentou se acalamar.

Respirou fundo e compassadamente, tentando deixar sua mente em branco.

Batidas na porta chamou sua atenção.

— Senhor, perdoe por lhe atrapalhar. Mas aquela mulher está passando de todos os limites. — O mordomo o informou preocupado.

— Que mulher, Victor?

— A senhorita Hemwer.

— E o que ela fez? — Bernardo perguntou curioso.

— Não me entenda mal, senhor. Gosto muito da babá, mas ela está agindo como se fosse uma governanta, ou melhor, uma baronesa, pois uma governanta não teria tamanha ousadia sem antes consultá-lo. A mulher está contrarando novos empregados, mandando chamar médicos, dando ordens aos criados, e temo que não lhe informou nenhuma dessas ações.

O mordomo estava aflito e bastante ofendido com a atitude da babá.

— De fato não informou. — Bernardo respondeu serio, mas por dentro sentia uma enorme vontade de rir. —  Agradeço o seu cuidado para manter a ordem na casa e por me informar do que acontece nela. Onde está a senhora Hemwer agora? Gostaria de conversar com ela sobre esse assunto.

— É claro, meu senhor. — Empertigou-se ao receber o elogio — Ela estava na cozinha, antes de eu vir vê-lo.

— Obrigado. Irei vê-la agora, pode retornar a seus afazeres.

Bernardo dispensou o mordomo e seguiu em direção à cozinha. Nem mesmo sabia porque estava indo, uma vez que não pretendia chamar a atenção da babá sobre aquele assunto. Apenas dava um passo atrás do outro em direção ao comodo onde a senhorita Hemwer se encontrava.

A cozinha estava um caos. Ele percebeu isso assim que entrou. Nunca teve tanta gente naquele comodo quanto naquele dia, e quando todos os olhos se voltaram para ele, Bernardo travou no lugar.

Seu sangue pareceu gelar nas veias, o suor começou a lhe escorrer frio pelo rosto e Bernardo sentiu a respiração se tornar pesada e difícil. O desejo de sair dali o mais rápido possível tomou conta do seu corpo e ele engoliu seco, tentando se controlar.

— A graças a Deus você está ai. — Samantha se aproximou e, ao perceber que Bernardo parecia não ouvi-la, o puxou pela mão para longe da cozinha. Sabia que não daveria tocá-lo, mas precisava falar com ele. Só que estava sem luvas, assim como o Barão e pode sentir as mãos frias deles destoar com o calor das suas. — Que mãos frias... O senhor está bem?

Após sair do centro das atenções Bernardo pode enfim respirar. Aos poucos se acalmou. Se não conseguia encarar pouco mais de 10 pessoas desconhecidas, como poderia fazê-lo com as que compareceriam ao baile?

— O senhor está bem? — Samantha tornou a perguntar preocupada ao perceber o silêncio que o Barão fazia.

— Estou sim. — Ele respondeu depois de um tempo, o qual usou para se recompor.

— Eu pedi que chamassem um médico para ver a Sra. Fitzgerald e mandei chamar uma nova cozinheira para substituí-la. Queria lhe avisar sobre isso.

— Sim, claro, claro. — Montress acenou positivamente com a cabeça. — O que tem a Sra. Fitzgerald?

— Ela machucou as costas.

— Ah! Sim. Entendo.

— Você está mesmo bem? — Samantha perguntou ainda preocupada. — Estava pálido como um fantasma e suas mãos estavam suadas e frias como se passasse mal.

— Eu estou bem. — Bernardo ajustou o lenço em seu pescoço na tentativa de parecer a vontade. — Apenas não esperava que tivesse tanta gente na cozinha.

— Não era para ter, mas ainda faltam muitos pratos para finalizar os preparos, então pedi que mais criados viessem ajudar.

— O papel de governanta parece que lhe cai bem. Tem se mostrado bastante eficiente em gerenciar esta casa para que o evento aconteça. Espero que aceite ocupar esse cargo.

Samantha não esperava aquela promoção e portanto ficou sem palavras.

— Não acredito que consegui deixá-la sem palavras. — Zombou.

— Eu não esperava essa promoção. — Expôs um pouco envergonhada.

— Sei que não. Mas quero que aceite mesmo assim. Claro que nesse caso terá que encontrar uma nova babá para a Sophia.

— A moça que está cuidando dela hoje me parece bastante competente.

— Maravilha então. — Bernardo sorriu satisfeito. — Você será a governanta e a moça fica sendo a nova babá. Agora só falta esse maldito baile acabar.

— Você parece aflito.

— Odeio multidões. — Bernardo confessou.

— Bobagem. São só pessoas. — O olhar aflito que ele lhe deu mostrou que tinha mais ali do que apenas o desgostar de ficar em público. Bernardo tinha aflição ao precisar enfrentar o olhar de tantas pessoas. — Você tem medo de multidões. — Concluiu.

— Não seja tola. É obvio que não tenho medo de pessoas. — Bernardo negou não querendo deixar nenhuma fraqueza ser vista.

— Claro que não, desculpe ter sugerido algo tão absurdo. — Samantha fingiu que acreditava nas palavras dele, afinal, não era fácil um homem assumir algo tão degradante.

— Eu vou voltar para meu escritório.

— Eu estarei na cozinha caso precise de mim. — Samantha sorriu.

— Não vai participar do baile? — Bernardo pareceu confuso.

— Criadas não participam de bailes, senhor.

— Perdoe-me, as vezes me esqueço de que é apenas uma criada.

— Não precisa se desculpar. — Samantha sorriu compreensiva.

— Claro. — Bernardo acenou com a cabeça e em seguida voltou para o seu escritório.

Saber que não haveria ao seu lado ninguém conhecido para auxiliá-lo a receber os convidados o fez ficar mais aflito. Infelizmente não teria como permitir que a criada participasse do baile, todos já a conheciam e se sentiriam ofendidos pela presença dela.

Uma pena que não tinham planejado um baile de máscaras... Seria até mais fácil para ele se não visse os rostos, pena que não pensou nisso antes... Mas talvez ainda desse tempo de tornar o baile em um baile de máscaras...

Decidido, Bernardo pediu que selassem seu cavalo e seguiu a galope para a cidade.

Como casar um BarãoLeia esta história GRATUITAMENTE!